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O escritor que quer ser autarca

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Moita Flores tem uma “vida cheia”

Em criança queria ser escritor e polícia. Atingiu as duas metas. Agora, Moita Flores meteu-se na política e quer ser presidente da Câmara de Santarém.

Edição de 08.06.2005 | Política
Francisco Moita Flores, 52 anos. Escritor. Argumentista. Produtor de séries de ficção. Figura mediática, presença regular nas televisões. Ex-agente da Polícia Judiciária. Criminologista. Cronista. Professor universitário. Candidato à Câmara de Santarém. Esta última faceta será provavelmente a mais desconhecida do português comum, mas a sua aventura na política já não passa despercebida aos residentes do concelho de Santarém ou a quem visita a cidade. Os cartazes com o mote Libertar Santarém estão colocados em pontos estratégicos, bem à vista de toda agente.Casado com a actriz e produtora Filomena Gonçalves, 3 filhos, Moita Flores veio para Santarém para ter tranquilidade para escrever. Mas acabou por descalçar as pantufas e embrenhar-se na vida política, insatisfeito com a maioria que governa o concelho. Talvez porque viva em São Domingos, um dos bairros mais populosos de Santarém onde a qualidade de vida ainda deixa a desejar e onde o espírito reivindicativo se costuma notar.Moita Flores nasceu em Moura “por acaso”, quando a mãe aí se deslocou para comprar algumas coisas para o enxoval para o bebé. As suas raízes estão numa “terra maldita” – Barrancos – “aquela dos touros de morte”. Orgulhoso das suas raízes alentejanas que se notam na forma calma, quase pachorrenta, como fala ou anda, só se irrita quando lhe mentem ou quando lhe chamam pára-quedista. “É uma visão xenófoba e ultra reaccionária”, diz.Em criança dizia que queria ser polícia e escritor. Cumpriu as duas metas e outras mais. Licenciou-se em História, pós-graduou-se em criminologia, doutorou-se pelo Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Dirige o Centro de Estudos de Ciências Forenses da Universidade de Lisboa. Mas afirma-se sobretudo um escritor. Há pouco surgiu nos escaparates o seu último livro “Em memória de Albertina que Deus haja”. Está a adaptar para TV a obra de Aquilino Ribeiro “Quando os Lobos Uivam”. A experiência na polícia ajuda-o a inspirar-se. “Vivi e conheço os limites do sofrimento. Vi morrer pessoas, trabalhei muito com mortos, com o sofrimento dos outros, tenho vivido em tudo o que são os limites da emoção”, diz quem comandou a operação de trasladação dos mortos do cemitério da Aldeia a Luz, entretanto submersa pela albufeira da barragem do Alqueva.A sua grande paixão é a leitura. “Tenho pena de não poder ler aquilo que mais gosto, sobretudo romances e poesia”. O tempo não chega para tudo e há que se manter actualizado com os ensaios e teses que vão saindo na área científica a que se dedica.Nos gostos é eclético. E não tem autor preferido. ”Gostava de ter a sensibilidade de Sophia, a força de Aquilino, adoraria ter a finura de espírito de Eça, a dimensão humanista de Soeiro Pereira Gomes, a complexidade de Antero de Quental ou de Fernando Pessoa. Sobretudo, gostaria de pensar como Hegel e tenho uma paixão do ponto de vista do pensamento e da filosofia por Leibniz. E gostava de ter o talento do mestre da língua portuguesa que foi o padre António Vieira ou de Camões”.Outra paixão é a pintura. E ouve também muita música, de preferência clássica. Mozart e Haendel são referências obrigatórias. Mas também lhe toca a música da geração de sessenta e a canção de protesto que marcou o antes e o pós-25 de Abril. Designadamente os poemas de Manuel Alegre cantados por Adriano Correia de Oliveira, “que são um monumento”.Perante o enunciado não surpreende que se afirme como um homem de centro-esquerda. Mas sem complexos de qualquer espécie por ser apoiado pelo PSD. Para ele as pessoas e os projectos estão acima dos partidos. Foi por isso que há quatro anos apoiou João Soares em Lisboa, tendo integrado a sua lista num lugar não elegível por imposição dele próprio.Não é grande apreciador de futebol. “Sou do Sporting e gosto que ganhe sempre, mas não percebo nada de futebol”. Lembramos-lhe que a simpatia pela equipa leonina é um ponto em comum com o actual presidente da câmara, Rui Barreiro, seu rival nas eleições de Outubro. “Penso que é o único”, diz com humor.Na manhã quente de quarta-feira, 1 de Junho, enquanto decorre a nossa conversa, é abordado por algumas pessoas na esplanada onde nos encontramos, em São Domingos. Nota-se que transmite empatia e tem consciência disso. Moita Flores está habituado a ser abordado na rua e o me-diatismo, agora, até lhe pode dar jeito. Tal como a agenda de conhecimentos e amizades que tem no mundo da arte e o espectáculo. Nessa manhã, telefona-lhe o jovem cantor e apresentador de TV Francisco Mendes a confirmar a sua presença no jantar de apoio que decorreria na sexta-feira seguinte. Onde iriam estar também o maestro Vitorino de Almeida, Adelaide Ferreira, Isabel Figueira e Carlos Mendes. Este último foi um dos amigos que o desafiou a meter-se na aventura de concorrer à Câmara de Santarém. Uma aventura que acredita ir ter um final feliz. Como algumas das obras que escreve.João Calhaz
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