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Um toureiro de corpo inteiro

Mário Coelho comemora 50 anos de actividade

Foi considerado “o melhor bandarilheiro do mundo” e um dos mais notáveis matadores de toiros. Mário Coelho, 69 anos, alimentou uma montanha de sonhos e venceu. Nesta entrevista, o menino que nasceu e cresceu em Vila Franca de Xira recorda que apanhou caracóis no cemitério para comprar os primeiros botins de toureiro, critica a incompetência que está a matar a festa dos toiros e defende que a cidade precisa de figuras para recuperar a força taurina que perdeu. Uma entrevista polémica e com a coragem de um homem que colocou a vida à mercê de mais de três mil toiros em pontas.

Edição de 29.06.2005 | Cultura e Lazer
Estávamos na década de 40. Vila Franca de Xira vivia um ambiente taurino com as crianças e jovens a alimentarem “uma montanha de sonhos”. Mário Coelho, sete anos, saiu da modesta casa na travessa dos Maiorais para ir para a vizinha Escola do Bacalhau e viu um cartaz colocado na esquinas. As figuras de dois toureiros (Diamantino Viseu e o espanhol Garcia) em tamanho natural fizeram brilhar os olhos do menino que sonhava ser matador de toiros. “Foi como o iluminar de um sonho. Nunca ali tinham colocado nenhum cartaz e não voltaram a colocá-lo”, recorda com o brilho de quem vive a emoção do regresso às origens. “Fui injectado de veneno”, acrescenta.Mário Coelho trocou as brincadeiras de criança pelas esperas de toiros, pelas garraiadas e pelas festas camperas e começou a estudar o toiro. Em 1955, prestou provas de bandarilheiro praticante na sua terra, na Praça de Toiros Palha Blanco e logo alguém disse que Vila Franca de Xira tinha um novo matador. Encheu de emoção e arte as arenas por onde passou em Espanha e França e, em 1958, quando já vivia em Espanha, foi considerado pela imprensa nacional e estrangeira “o melhor bandarilheiro do mundo” e o seu nome aparece nos cartazes com maior destaque que o dos matadores. Nos anos seguintes, Mário Coelho conquista os troféus mais importantes nas principais feiras taurinas e várias vezes saiu em ombros. O êxito e o carinho dos aficionados deram-lhe força para tentar o sonho de ser matador de toiros que concretizou em Julho de 1967 . A família apoiou-o moralmente porque o dinheiro não abundava. O pai era funcionário da câmara e a mãe cuidava dos seis filhos que restavam dum grupo de 10 que deu à luz. Mário Coelho foi um jovem que cresceu muito rapidamente e cedo assumiu a sua independência. “Nunca me aproximei das figuras, a minha vida foi feita por mérito próprio e à conta de muita luta”, diz, confessando que é um homem orgulhoso.Esta personalidade bem vincada dentro e fora da arena não o impede de ser um homem solidário que gosta de apoiar as causas nobres. Mário Coelho ajudou a formar uma dúzia de matadores, alguns primeiras figuras como Pedrito de Portugal, Rui Bento Vasques ou o espanhol Chamaco Um toiro em ouro oferecido pelo actor Orson Welles, um relógio “Rolex” lembrança do antigo Presidente da República da Venezuela, André Peréz ou uma pulseira que recorda a amizade com Amália Rodrigues são apenas três de centenas de peças que encontramos na Casa Museu Mário Coelho em Vila Franca de Xira. É aqui mesmo, na casa onde o toureiro nasceu há 69 anos que decorre a conversa que agora reproduzimos.Mário Coelho é um homem com uma personalidade forte, frontal, corajoso e directo. Não foge às perguntas mesmo que sejam incómodas e enfrenta-as da mesma forma que enfrentou mais de três mil toiros que lidou em pontas.Foi esta determinação que fez do menino que sonhava ser matador de toiros, uma das maiores figuras do mundo. Mário Coelho somou êxitos, troféus, orelhas e rabos pelas praças por onde passou ao longo de 50 anos de actividade taurina. É um toureiro de corpo inteiro e um cidadão do Mundo.Nelson Silva Lopes

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