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Um autodidacta com dedo para a cozinha

Maria Carmelinda Marques Penedo, doceira no Sardoal

Entrar na cozinha de Carmelinda Penedo é um convite irrecusável a esquecer dietas, colesterol e outros dramas provocados pelos prazeres da mesa. O cheiro dos doces de pastelaria e receitas tradicionais, bem antigas e feitas do mesmo jeito de há décadas, é irresistível.

Edição de 21.09.2005 | Identidade Profissional
Se os pastéis de Belém são uma instituição nacional, os de Carmelinda Penedo não andam muito longe. A doceira do Sardoal, nascida no concelho vizinho de Vila de Rei, começou a trabalhar em hotelaria ainda adolescente. “Tinha uns 15 ou 16 anos e fui para empregada de balcão”, conta meio envergonhada - “não tenho jeito nenhum para entrevistas”, desculpa-se.Serviu às mesas, fez limpezas e, passando pelos vários patamares da restauração, aproximou-se da cozinha. Foi ganhando cada vez mais gosto pelo que fazia. E fazia cada vez melhor, quer fosse doce ou salgado, até que “esteve à frente do fogão” de um restaurante bem conhecido do concelho de Abrantes.Casou, engravidou e abandonou o emprego. No entanto, não perdeu o gosto e em casa continuou a fazer salgados e a recolher receitas. O filho foi crescendo e a actividade culinária também.Já com o filho crescido, Carmelinda e o marido montaram o seu próprio negócio. “Trabalhamos os dois e o meu filho, com 12 anos, também se ajeita e gosta”, diz. Mas os salgados foram preteridos aos doces, apesar da doceira continuar a gostar de cozinhar e de vez em quando fazer uma refeição festiva para dezenas de pessoas. Em casa, diariamente, não dispensa o jantar em família: “Devia ser ao almoço, mas não há tempo e temos de comer uma refeição rápida, mas ao jantar não. E tanto eu como o meu marido e o meu filho somos bons garfos”. Ninguém diria porque a gordura não pesa a Carmelinda.O dia começa bem cedo. A maior parte dos dias às 06h00 ou 07h00, Carmelinda já enverga o avental e a touca branca para começar a encher as formas dos doces que enfeitam as vitrinas da pastelaria.“O pão é o meu marido que faz, não me ajeito nada para isso”, diz, já muito mais à vontade em contar a sua história profissional. Carmelinda não teve qualquer formação para a actividade que exerce. Foi o seu gosto, curiosidade e rigor. “Faço as receitas como se faziam há muitos anos, as queijadas de noz, por exemplo, são exactamente como a minha avó fazia. E há mais, as broas fervidas, as queijadas de leite, sei lá...” Há uns anos tirou um curso de formação de formadores e leccionou acções no ensino recorrente e na Escola Agrária de Mouriscas. Não tem segredos e quando ministra acções de formação ensina tudo. O que não consegue transmitir é o “seu dedo” para estas artes.“Talvez seja isso, mas não escondo nada. Agora é verdade que uso sempre os mesmos ingredientes e nem gosto de mudar de fabricantes”. Esse será talvez o segredo dos seus bolos - e os salgados, quando os cozinha - terem fama e grande proveito.O dia de Carmelinda Penedo, na pastelaria, acaba cerca das 20h00. A loja fecha uma hora antes, mas muitas vezes é preciso deixar cremes e massas preparados para o dia seguinte. “Já tenho aberto a pastelaria com duas ou três variedades de bolos, mas como a cozinha é no andar de baixo vou trabalhando e enchendo as vitrinas”.Apesar do respeito pelas receitas já testadas e que fazem parte do património gastronómico da região, Carmelinda Penedo não se escusa a fazer inovações e a “inventar” algumas misturas. Nesse caso, dá a provar à família e a pessoas amigas. E se mais do que uma opina que o bolo ou salgado devem ter mais um bocadinho disto ou daquilo, aceita a sugestão. Depois é só repetir as quantidades e qualidade dos ingredientes.“Nos rissóis, por exemplo, apesar de fazer tudo igual, dou a provar o creme ao meu filho, porque eu nunca provo e como ele é um bom garfo sabe dizer se está bom ou não”, conclui. Margarida Trincão

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