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Por que razão há tantos?

Hélder Fráguas
Edição de 18.10.2005 | Opinião
Na semana passada, expliquei como funciona o sistema das eleições presidenciais.No cenário de um país hipotético, há duas voltas.Ganha logo no primeiro sufrágio o candidato que obtiver metade dos votos mais um. Se tal não suceder, realiza-se segunda votação entre os que ficaram em primeiro e segundo lugar.Existindo apenas dois candidatos, a eleição fica decidida na primeira volta.É que um deles consegue logo a maioria absoluta.Suponha-se, portanto, que o ex-primeiro-ministro fica com 65% e o antigo chefe de estado com 35%.Quando surge a candidatura de C, deputado escritor, de esquerda, os votos passam a dividir-se de outra forma. C- 16%, B – 33%, A – 51%.A mantém o mesmo número de votos. Mas como há mais eleitores, a proporção vai decrescendo.A situação altera-se assim que aparece o irreverente candidato esquerdista de um pequeno partido. D – 10%, C – 15%, B – 30%, A – 45%.Portanto, há algo de curioso.Quantos mais candidatos de esquerda houver, mais B fica beneficiado.Falta agora referir outros concorrentes.Há o candidato comunista.Em regra, o seu partido lança-se nas presidenciais, para posteriormente apresentar a desistência. Recomenda ao seu eleitorado que vote numa outra pessoa.Da única vez em que levou a candidatura até ao fim, o resultado foi decepcionante. Tal prejudica a imagem da organização.No entanto, desta vez, as coisas são diferentes.Há certos eleitores comunistas incapazes de dar o seu voto a outra pessoa que não seja do seu partido. Portanto, se houver uma desistência, não irão votar.Ora, nestas eleições, existe a séria probabilidade de A ganhar logo à primeira volta.Como já vimos, havendo muitos candidatos, diminui a abstenção. Assim, o mesmo número de votos em A representa menos, proporcionalmente. Com dois concorrentes, seriam sempre mais de metade. Havendo vários, poderão não chegar a atingir os 50%.Na lógica do antigo chefe de estado, é fundamental atingir dois objectivos. Chegar ao segundo lugar. Fazer com que A não ganhe logo à primeira volta.Ora o primeiro fim é facilmente alcançável.O segundo obtém-se da seguinte forma: levar o maior número possível de eleitores às urnas, para que votem em qualquer concorrente, menos em A.Aqui desempenha um importante papel o candidato comunista.Se ele se mantiver até ao fim, vai potenciar uma dispersão de votos à esquerda. Alguns dos que iriam votar nos outros concorrentes dessa área, irão agora manifestar a sua preferência por este candidato. Regista-se uma transferência de votos.Todavia, sucederá algo a que já aludi. Ele também atrai certos eleitores que não sairiam de casa. No entanto, havendo E, um comunista, irão votar nele.O registo dos votos será diverso. E- 9%, D – 9%, C – 13%, B – 28%, A – 41%.Vai-se acentuando a diminuição de percentagem de votos em A.Este fenómeno tem uma explicação.Como há muitas candidaturas à esquerda, os eleitores deste segmento sentem-se mais e mais motivados a ir votar num dos muitos concorrentes situados na zona da sua preferência.Uma série de potenciais abstencionistas transformam-se em votantes activos.Portanto, os mesmos apoiantes de A têm de debater-se com um crescente número de eleitores da esquerda.Deste modo, aos comunistas apresenta-se um dilema.Pretendem derrotar aquele a quem chamam o “candidato da direita”. Para isso, pretendem eleger B, antigo chefe de estado.Sabem que, para atingir esse objectivo, o melhor é o candidato comunista não desistir das eleições.Mas, por outro lado, também têm conhecimento de que ele iria conseguir um resultado pouco expressivo. Com o inerente prejuízo para a imagem do partido, como já mencionei.Não será fácil decidir.Uma palavra quanto a possíveis candidatos realmente de direita.Um ex-ministro, o líder de um novo partido ou um antigo dirigente que já se candidatou anteriormente.Nenhum deles conseguirá mais votos do que B. Portanto, não prejudicam o objectivo dele de ficar em segundo lugar.Mas, para B, eles apresentam duas vantagens.Permitem a tal dispersão de votos, que faz diminuir a abstenção e provoca o decréscimo dos pontos percentuais obtidos por A.Depois, alguns eleitores deixarão de votar em A para darem o seu voto a um destes candidatos.* Juiz(hjfraguas@hotmail.com)

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