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Desigualdades

Edição de 23.11.2005 | Opinião
Passaram já trinta anos.Mas ela lembra-se de tudo melhor do que eu, com certeza.Eu ainda estava nos bancos da escola primária.Guardo uma forte memória, com grande precisão.Mas ela também reminiscências muito exactas.De resto, até escreveu um relatório sobre o assunto, que veio a entregar a Ramalho Eanes. Chamou-lhe “Dificuldades encontradas na realização do filme Nados e Criados Desiguais”.Ela era profissional da RTP.Eanes dirigia a empresa. Depois, ascendeu à Presidência da República, sendo eleito por duas vezes com maioria absoluta, logo na primeira volta.Ela reafirmou-se como académica de grande nível. Desenvolveu a sua obra literária como escritora de gabarito, atingindo recordes de vendas com os seus best-sellers. Manteve a colaboração na imprensa, como cronista.Sentado na minha carteira da escola, assisti àquelas filmagens, em 1975. A preto e branco, claro está, pois destinavam-se à televisão.Dez anos mais tarde, deu-se uma curiosa coincidência.A filha dela e eu fomos colegas na Faculdade de Direito de Lisboa.Volvidos mais dez anos, mãe e filha surgiram na televisão, recordando o filme, que já contava duas décadas.A descendente interrogava-se sobre o que teria sucedido àqueles meninos pobres de uma escola nos arrabaldes de Lisboa. Um deles era eu.Apeteceu-me dizer-lhe o que era feito de mim. Mas só o fiz quatro anos depois.A autora da filmagem foi Maria Filomena Mónica, que acaba de editar as suas memórias, intituladas “Bilhete de Identidade”.É um livro excepcionalmente bem escrito, como escritora já nos habituou.É extremamente cativante e, uma vez começando a sua leitura, dificilmente se larga a obra.Como se situa numa época que muitos já viveram, facilmente encontramos pontos de identificação. Eu detive-me particularmente naquela altura que coincide com os meus oito anos de idade.Foi nesse momento que Maria Filomena Mónica decidiu elaborar um filme que abordasse a temática das diferenças entre as crianças de colégios frequentados pelas elites e de escolas oficiais onde se encontravam sobretudo alunos de classes desfavorecidas.As tais dificuldades relacionavam-se com os estabelecimentos privados.Com as escolas “pobres”, não houve nenhum problema.A profissional da RTP foi ao Barreiro. A primeira etapa foi conversar com meu pai.Como elemento central, propôs a escola primária nº 1 Conde de Ferreira. Realmente, ele confirmou que a maior parte dos alunos eram de classes desfavorecidas. Alguns dos meus condiscípulos trabalhavam. O próprio edifício da escola encontrava-se num estado tão lastimável que, a meio do ano lectivo, tiveram de se realizar obras.No documentário, lá surgíamos nós, na sala de aula, debruçados sobre os cadernos. Era uma escola masculina, só de rapazes.Depois, filmaram o portão, por onde saímos em correria, com destino a casa. Mas a pé, claro. E sozinhos.Como contraponto, eram de seguida exibidas as imagens dos alunos do colégio “Ave Maria”, junto à respectiva entrada. Chegavam em luxuosos automóveis, cuja porta era aberta pelo motorista.Como não foi autorizada a entrevista de tais crianças, falaram para as câmaras alunos do Liceu Francês, que também tinha classes primárias.Aí surgiu um dos tais contratempos.Poucos dias antes de o filme ir para o ar, o presidente da RTP, Ramalho Eanes, foi abordado pela Embaixada da França. O objectivo era impedir a exibição naqueles moldes, pois a imagem da escola poderia sair prejudicada.Num assunto sensível e delicado, Eanes deu mostras da sua conhecida verticalidade. Decidiu que não se mexia na película.Na antevéspera da difusão, deu-se outra viravolta.O locutor era Carlos Cruz.Mas ele não tinha visto o filme. Apenas lera o texto.A quarenta e oito horas, veio explicar que a sua voz não poderia figurar.Entre as crianças filmadas junto ao Ave Maria, estavam os filhos da sua namorada.O tom do texto era algo crítico. A situação era embaraçosa. Por isso, teve de se repetir tudo, com recurso a outro locutor.Tenho a certeza que o leitor vai apreciar este livro, onde se relatam estes casos e muitos outros em redor da vida de uma figura de grande vulto na cena nacional.* Juiz (hjfraguas@hotmail.com)

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