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Filhos de um Baco Menor

Edição de 23.11.2005 | Opinião
Há algumas semanas atrás, tive oportunidade de abordar a problemática do clientelismo político que terá condicionado as previsões eleitorais em Santarém e, de alguma forma, tornado aí inesperada, a vitória de Moita Flores.Ora, algo de muito semelhante pode ser dito (e até de forma mais evidente) da situação existente noutras instituições públicas como as regiões de turismo, nomeadamente na Região de Turismo do Ribatejo e, especialmente, na sua mais importante (e única, praticamente) actividade anual: o recentemente terminado, Festival de Gastronomia de Santarém.Décadas de poder ininterrupto, não controlado, nem controlável (aqui e ali apresentando até, nos últimos anos, laivos de autoritarismo) foram paulatinamente tecendo, aí, uma teia de interesses recíprocos (muitos deles pouco conformes com quaisquer pressupostos éticos e morais), envolvendo num amplexo de cumplicidades outras instituições congéneres, diversos autarcas regionais e, principalmente locais e, ainda, toda uma panóplia de jornalistas e empresários da restauração. Situação sobejamente conhecida esta, mas cujas denúncias permanecem essencialmente nos bichanares privados dos “espíritos santos de orelha” e nas públicas, mas aleatórias e inconsequentes, conversas de café.É que, tendo em conta a importância e as características que este evento hoje adquiriu, muitos dos nossos fazedores de opinião, participam de alguma forma deste complexo de ramificações de interesses (que, aliás, com a clientela municipal se entrecruza como que em simbiose) ou, se não participam, esperam, ainda, vir a participar.Na verdade, a eternização do poder na nossa administração local, constitui, hoje por hoje, a condição mais importante do desenvolvimento de um crescente clientelismo, cujas relações evoluem, frequentemente, da imoralidade para a ilegitimidade e, desta, para modelos corruptivos mais ou menos ilegais!É que, se o poder é uma tentação, a absolutização do poder que a eternização permite, é uma absoluta tentação! É claro, que todos nós, até prova em contrário, somos obviamente impolutos e incorruptíveis! Capazes, perfeitamente, de resistir a tentações!Desde que elas, naturalmente, não sejam irresistíveis!E enquanto isso, quais filhos de um deus menor, asfixiados já pela competição galopante das grandes superfícies, os restaurantes de Santarém encaram tal período como o “temporal” maior de um “inverno” cada vez mais duro e interminável!Apesar de completar agora um quarto de século de existência e constituir, hoje, o maior certame do género e referência gastronómica nacional, não se vislumbra, de facto, na restauração escalabitana, quaisquer indícios de uma influência positiva daí decorrente, mesmo que mixuruca. Antes pelo contrário!Fechado sob si próprio, virado para o mediatismo que sustenta os “jobs” tão apetecidos, sem mecansimos de interacção com a cidade (e muito menos com o concelho), o Festival virou, desde sempre, às costas à urbe que o acolhe e donde emana!Apesar, assinale-se, do mesmo ser organizado por uma Associação constituída especificamente para o efeito, composta (em termos autárquicos), em 14 partes mais 1 pela Câmara Municipal de Santarém e em 14 partes, menos 1, por todos os restantes municípios pertencentes à Região de Turismo do Ribatejo!E apesar do objectivo maior de qualquer autarquia ser, supostamente, a defesa dos interesses concelhios. Neste caso, em particular, supostamente a defesa dos interesses gastronómicos scalabitanos!Supostamente, claro!

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