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O dono de um império que recusou viver no luxo

Memórias de Duarte Ferreira na abertura das comemorações dos 150 anos do seu nascimento

Eduardo Duarte Ferreira preservou sempre o bem estar dos estar dos seus trabalhadores e nunca viveu no luxo apesar de ter construído um império económico.

Edição de 15.02.2006 | Sociedade
“Menos que ferreiro, se tiver saúde, não deixo de ser. Se puder ser mais alguma coisa, porque não tentar consegui-lo?”. A frase, dita em 1882, elucida bem a alma empreendedora de Eduardo Duarte Ferreira, o homem que revolucionou o sector metalúrgico e projectou o Tramagal a nível nacional. Sem nunca deixar de ser, e de proceder, como o filho do ferreiro da terra.Na sala onde estão hoje expostas miniaturas de debulhadoras, lagares, componentes de locomotivas, carros de combate e de bombeiros, mais de uma centena de pessoas ouviu o testemunho de Francisco Duarte Ferreira – neto do fundador da Metalúrgica Duarte Ferreira e um dos poucos parentes vivos do industrial que, em 1928, recebeu das mãos do então Presidente da República a condecoração de mérito industrial.Poucos sabem que Eduardo Duarte Ferreira correu grandes riscos financeiros e esteve por diversas vezes à beira da falência. Que construiu a sua primeira oficina, a forja, recorrendo já a um empréstimo bancário, arriscando sempre bastante ao longo do seu percurso empresarial.Em 1900 esteve mesmo com a corda na garganta e foi a sua esposa, Rosa, que salvou a situação, com 300 mil reis que tinha amealhado sem o industrial saber. Em vez de agradecer a dádiva, Duarte Ferreira gritou-lhe, questionando-a sobre o facto de ter tanto dinheiro em casa. Porque, como sempre dizia, o dinheiro não é para estar parado.Foi com esta lógica de investimento que acabou por construir um império. Sem nunca se sentir um imperador. Foi sempre um homem muito simples, que se recusava viver no luxo.Pelo contrário, preservava mais o bem-estar dos seus trabalhadores que muitas vezes o dele próprio. Basta dizer que o primeiro sistema de previdência do país foi criado no Tramagal, em 1927, pela sua mão.Eduardo Duarte Ferreira foi empreendedor, inovador e visionista, não para enriquecer, mas para deixar uma obra. E dar oportunidade aos outros. Que sempre souberam retribuir-lhe com estima e consideração.Como em 1929, quando a empresa passava por sérias dificuldades e o industrial só tinha duas hipóteses – despedir trabalhadores ou baixar os ordenados. Acabou por optar pela última, com o aval dos empregados.O cavalo que veio da Golegã“E quando a empresa conseguiu recuperar ele foi pessoalmente devolver a cada um os retroactivos que tinham ficado em falta”, conta o neto, adiantando ser um exemplo inédito de solidariedade empresarial em Portugal.Em termos pessoais o industrial marcou também muito Francisco Duarte Ferreira, que nasceu quando o avô já tinha perto de 80 anos “mas era um homem novo de espírito”.Entre as muitas histórias há duas que o neto jamais esquecerá, pela subtileza dos actos. “Um dia, tinha eu uns dez anos, deu-me um canivete e, depois de eu agradecer, voltou a tirar-mo. E enquanto me dizia que nunca se dá nada sem ser embrulhado embrulhou-mo numa nota de vinte escudos, muito dinheiro para a época”.Três ou quatro anos antes, o avô tinha-lhe feito uma promessa que o deixou sem dormir uns dias – levá-lo à feira da Golegã. “O diabo é que eu adoeci precisamente nessa altura e não pude ir”, refere Francisco Duarte Ferreira, lembrando a altura em que o avô, aos pés da cama, lhe perguntou o que de lá queria.“Um cavalo a sério”, respondeu-lhe o garoto. “E não é que trouxe mesmo? A minha mãe pôs-lhe o nome de Borboleta, mas os homens chamavam-lhe a Carriça. E eu tanto chamava por um nome como por outro, conforme estava ou não a minha mãe por perto”, diz o neto do industrial, arrancando uma sonora gargalhada da assistência.Francisco Duarte Ferreira só se apercebeu do poder do seu avô, aos 17 anos, no dia em que Eduardo Duarte Ferreira morreu. “Eu julgava que o meu avô era mesmo muito importante aqui no Tramagal e talvez em Abrantes, mas só me apercebi da sua abrangência e importância quando a morte dele apareceu na primeira página de todos os jornais nacionais”.Margarida Cabeleira

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