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“Nunca estou suficientemente acomodado”

As raízes aristocráticas e a sede de aventura
Como se cataloga ideologicamente: é um homem de esquerda, de direita, conservador ou liberal?É sempre um pouco difícil de definir isso em pessoas como eu, com uma base de formação conservadora e uma tradição familiar grande. Porque também senti desde muito jovem que isso não constituía uma limitação. Era muito mais um estímulo de actualização e de dinâmica para uma liberdade daquilo que eu entendesse ser. Dava-me muito mais liberdade ter esse berço do que se não o tivesse. Tinha um resguardo que permite voar mas que também permite saber onde está a casa.O senhor é uma pessoa ciosa das suas raízes aristocráticas.Sim, sim. Absolutamente.Nos anos quentes pós-25 de Abril nunca esteve tentado a afrontar as raízes e militar na extrema-esquerda, como fizeram tantos filhos de boas famílias?Nem é a questão de ser tentado. Nunca tive necessidade. Até por um espírito liberal e de centro esquerda do meu trisavô Passos Manuel, e pela relação de trabalho do meu pai a nível da agricultura com as forças comunistas em Alpiarça, sempre fomos habituados a uma grande abertura de espírito para qualquer tipo de classes. E até posso dizer que foi uma grande satisfação para o meu pai, que morreu em 1977, nunca ter tido um confronto em Alpiarça, que como se sabe era um espaço muito particular nessa época.Numa entrevista definiu-se como um rebelde. Quais são as suas causas?Essa rebeldia vem em função do que disse atrás. É no fundo a pessoa ter consciência de que embora estando numa família de formação conservadora isso não deve ser limitativo para as rebeldias de independência que deva considerar necessárias à sua afirmação. E não houve resistências por parte a família?No meu caso tive que me confrontar com desejos que os meus pais tinham para uma certa formação, que eu não segui. Com os desejos que eu realizasse o meu trabalho aqui, por exemplo, ou em Alpiarça. E eu nem aqui nem em Alpiarça. Fui para o Japão. E por aí fora… Mesmo quando devia continuar uma vida académica tradicional de ser professor e atingir a cátedra, constatei, no pós-25 de Abril, que estava numa torre de marfim. E abandonei isso para seguir uma vida activa cívica. Nunca enveredou pelo caminho aparentemente mais cómodo?Penso que não. De tudo o que fiz acho que foram todos projectos de grande dificuldade. O grande fascínio para mim é ter grandes projectos, difíceis. E logo que estão alcançados, e felizmente penso que os tenho alcançado, quando se entra na área administrativa do processo deixo de estar e alguém vem substituir-me. Nunca estou suficientemente acomodado.“Esta casa não éfácil de habitar”Pode dizer-se que Pedro Canavarro nasceu em berço de ouro. Como foi a sua infância?Foi muito boa. Passei-a toda aqui em Santarém, nesta casa onde hoje é a sede da Fundação Passos Canavarro.Aprendeu a tocar piano e a falar francês?A tocar piano não, mas aprendi a falar francês e inglês. E tinha uma vida agradável, uma vida de estudo como qualquer jovem daquela idade. Com a possibilidade, por ter uma casa com espaço, de os meus pais me abrirem as portas para ter aqui os meus companheiros da altura, sobretudo do liceu, para nos divertirmos. Jogávamos à bola, fazíamos concursos hípicos com canas, fazíamos teatro. Tomava banho ao Tejo?Não. Por ser um homem muito mais ligado à terra, e por ser Touro como horóscopo de nascimento, a grande dimensão aquática assusta-me. A água atrai-me apenas como necessidade existencial, por estar habituado a ter aqui diariamente o Tejo à frente, embora obrigando-me, se quiser sair desta casa, a lutar contra a corrente. E por isso, parecendo que não, esta casa não é muito fácil de habitar. Tem uma soma de contradições e de energias muito intensas. Até que ponto é que o influenciam?Influenciam muito. Nada se passa de importante na minha vida de que eu não tenha que prestar contas a esta casa. Sempre assim foi.Quando fala de energias está-se a referir a quê?Estou a referir-me à história do espaço, que foi conquistado por Afonso Henriques, o único rei que a habitou. Tem toda essa força histórica de uma etapa de conquista. Tem a força política do Passos Manuel, um homem moderno e reformista que consegue passar transversalmente todos os períodos da nossa história. E tem toda a carga romântica do Garrett. É através das Viagens na Minha Terra que se inicia toda a literatura romântica em Portugal.Falou em energias contraditórias, mas só revelou as positivas.As energias contraditórias passam pela dialéctica entre aquele jardim em que se entra, extremamente simpático porque é fechado. A pessoa sente-se protegida. Entra-se ao portão e deixa-se a cidade para trás. A energia oposta é a da paisagem, que obriga a uma dialéctica entre esse estar de introspecção e a aventura. E para fugir a esse bem-estar e lançar-se à aventura até tem que se lançar contra a corrente do rio.Vive sozinho aqui?Neste momento vivo sozinho, porque a minha mãe faleceu há um ano. Vivia numa parte da casa.Viver numa casa destas sozinho deve meter respeito.É preciso alguma coragem, por uma única razão: a pessoa tem que se encontrar muito consigo própria estando só. Não acredito em fantasmas (risos) …Ter nascido numa casa como esta e no seio de uma família como a sua obrigou-o a ser um homem de cultura? A ligação à cultura foi natural ou induzida pelo ambiente que o rodeava?Foi uma coisa mais natural do que propriamente induzida pelo meio ambiente. Tenho irmãos, tenho muitos primos, fomos todos educados da mesma maneira, mas esse despertar pela cultura e o relevo dado a esta casa foi-lhe dado por mim. É um facto. A sua condição social também o ajudou na vida? Ser neto de Passos Manuel deve ter algumas vantagens.Permitiu levar a cabo a fundação, mas todo o percurso da minha vida não foi feito por ser trineto de Passos Manuel. Não foi por isso que fui escolhido para as mais diversas missões.O seu pai era agricultor. Nunca pensou em seguir-lhe os passos?Gosto muito da terra e da agricultura. Nunca trabalhei a terra mas vivi a administração da terra. E se tiver de escolher entre a terra e o mar escolho a terra. João Calhaz e Alberto Bastos

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