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Edição de 21.06.2006 | Opinião
Nestas páginas, já demonstrei alguma ingratidão pelo jornal “Tal & Qual”.Certa vez, referi-me a uma notícia, onde se dava uma interpretação muito peculiar quanto à filha de uns amigos meus, de Benavente. O casal estava satisfeito com a assistência médica no Hospital Pediátrico D. Estefânia. Foram apanhados casualmente na unidade médica.Mas a leitura da notícia deixava transparecer um calvário de sofrimento, próprio de quem tem imensas razões para se queixar.No entanto, também devo dizer que sou leitor do Tal & Qual há 26 anos. Ou seja, desde o primeiro número desta publicação, fundada por Joaquim Letria. O profissional tinha alcançado um retumbante sucesso com um programa televisivo no segundo canal da RTP, numa altura em que nem todos tinham acesso ao mesmo.Cessada a emissão semanal do programa, Letria deu o respectivo nome a um novo semanário, por ele dirigido.Tenho lido ininterruptamente todas as edições, sem nunca falhar, o que tem tornado as minhas sextas-feiras mais bem dispostas.Meu avô designava este periódico por “jornal humorístico”.Mas, na verdade, é mais do que uma publicação com notícias divertidas.Em muitas ocasiões, tem sido o primeiro a denunciar situações que não devem permanecer ocultas. Foi pioneiro no jornalismo de investigação.Este jornal revelou o caso Dona Branca, a idosa que aceitava depósitos, remunerando-os à taxa mensal de 10%, segundo um esquema de pirâmide. Os bancos portugueses eram todos estatais e não existia um mercado concorrencial, que permitisse a oferta de produtos competitivos.Um dia, o negócio iria rebentar e muita gente sairia prejudicada, inevitavelmente.Graças à divulgação, a actividade foi paralisada por forma a não se tornar nefasta para um número ainda maior de pessoas.Mais tarde, o Tal & Qual chamou a atenção para uma senhora francesa, residente em Cascais. Ela tinha uma agência imobiliária.Porém, não passava de uma burlona, que fingia vender imóveis que não lhe pertenciam, apoderando-se de dinheiro dos compradores interessados.O jornal destruiu-lhe o negócio.A senhora processou judicialmente os jornalistas.Evidentemente, eles foram absolvidos.O tribunal até os elogiou, dizendo que eles tinham prestado um importante serviço, prevenindo futuros incautos.Numa perspectiva diferente, já de meras notícias pelas quais os leitores se interessam e que fazem vender jornais, o “Tal & Qual” publicou peças que os outros não se atreviam a dar à estampa.Foi assim com o caso amoroso entre o Primeiro-Ministro Sá Carneiro e Snu Abecassis.O mesmo sucedeu com o drama vivido pelo respectivo sucessor no cargo, António Guterres. Ele enfrentava os complicados problemas de saúde da sua mulher, acompanhando-a com a máxima discrição, sem querer tirar dividendos políticos ou de imagem pública.Estas notícias respeitavam a um problema normalmente discutido pelos juristas.Em princípio, as figuras públicas não têm direito a manter a sua vida privada afastada do conhecimento geral: os restaurantes que frequentam, as obras que fazem em casa, as idas às compras, uma deslocação ao hospital, o local onde passam férias e as amizades que cultivam.Tais indivíduos apenas podem conservar o segredo da vida íntima. É o que concerne aos aspectos muito confidenciais do âmago de cada um de nós.Ora também os familiares mais próximos das figuras públicas têm de suportar uma certa invasão da sua vida privada, na medida em que haja uma relação com essas pessoas mais conhecidas.Bem… fui relatando estes episódios para esclarecer que não sou tão crítico como poderia parecer relativamente ao estilo jornalístico do Tal & Qual.Pelo contrário, até me divirto com a sua leitura e, frequentemente, reconheço como muito úteis certas informações dadas em primeira mão.Na última edição deste jornal, as páginas centrais eram dedicadas aos conflitos entre vizinhos. Muitas vezes, tais situações terminam em tribunal.Nesta matéria, também conheço alguns casos.Mas terão de ficar para a semana que vem.* Juiz (hjfraguas@hotmail.com)

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