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Mãe no ano da morte de Catarina Eufémia

A história de Gertrudes confunde-se com a história do Partido Comunista Português
Edição de 26.07.2006 | Entrevista
Em que ano nasceu o seu filho? A pergunta é feita a Gertrudes Paulino, uma das mulheres da resistência antifascista em Portugal, natural de Vila Franca de Xira. A mulher faz um silêncio. E depois lembra-se. Foi no ano da morte de Catarina Eufémia. 1954.As referências de Gertrudes Paulino, “Maria” para os camaradas dos tempos de clandestinidade, são as marcas da história do Partido Comunista Português. A vida de Gertrudes Paulino confunde-se com a vida do partido que sempre honrou.Partiu aos 22 anos para a vida clandestina. A sua família, constituída na sombra, à semelhança de muitos outros lares portugueses, foi sacrificada em nome da revolução. Aos três anos de idade a filha foi viver com familiares. Reencontrou-a mais de 20 anos depois. O filho foi enviado aos sete anos para estudar na União Soviética. Local que “Maria” revisitou em férias para ver o filho.No armário envidraçado no apartamento do oitavo andar numa torre da Estrada da Luz, em Lisboa, onde vive sozinha, “Maria” guarda ainda muitas recordações das visitas ao leste da Europa. O cachimbo búlgaro, as bonecas russas que se multiplicam, a alegoria à mãe pátria, estátua erigida à mulher soviética como resistente à entrada do nazi fascismo.Sobre a mesa da sala jaz ainda a máquina de costura portátil que a costureira utilizou até há pouco tempo. Os vestidos e as cortinas são fabricados à moda antiga. Tal como nos tempos de clandestinidade. “Agora já não faço porque não vou gastar tudo”, diz do alto dos seus 83 anos. A primeira foto de estúdio que tirou foi já depois do 25 de Abril. Para fazer o Bilhete de Identidade. “La Unidad de La Classe Obrera” é o livro com mais destaque da estante onde há uma foto de Saramago. E de Álvaro Cunhal, que privou com o seu companheiro de sempre, Manuel da Silva.A imagem da camponesa revolucionária com o cravo na mão, da autoria de Cipriano Dourado, salta à vista ao fundo da sala, que parece ter parado no tempo. Tal como a mulher saudosista que a habita. “Maria” ainda não regressou dos tempos da revolução. Desligou-se das origens. Da lezíria de Vila Franca onde se atrevia a passar à beira dos toiros. Da casa onde residiu e privou com a família de Redol. Continua a habitar um lugar secreto. Onde a luta tem um lugar cativo.

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