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O mecânico do tempo

João Silva é relojoeiro em Vila Franca há 37 anos

Hoje os relógios já não têm segredos para João Silva. Começou a “estragá-los” quando era ainda um jovem adolescente e passou o resto da vida a arranjá-los.

Edição de 26.07.2006 | Identidade Profissional
Com a ajuda preciosa da pinça João Silva monta peça por peça um relógio mecânico com mais de 30 anos. Quando termina de colocar a última minúscula peça e o relógio começa a funcionar o coração do relojoeiro acelera e o brilho nos olhos é indescritível. Uma emoção que se repete com cada relógio que arranja. Na relojoaria no centro de Vila Franca de Xira onde trabalha há 37 anos João Silva, 61 anos, divide o seu tempo entre o atendimento ao público, a gravação de peças e, claro, o arranjo de relógios.Mecânicos ou electrónicos, de pulso ou de algibeira ou mesmo de sala passam pelas suas mãos sábias que os conhece de cor. Os mecânicos são, no entanto, os “meninos dos olhos” do relojoeiro. João Silva diz que para além da qualidade ser superior, desmontar o relógio, descobrir o problema e resolvê-lo é “um prazer enorme”. Mudar o óleo é, normalmente, o principal problema que surge nos relógios de corda. Reparar este tipo de relógio demora à volta de quatro horas que são sempre especiais para João Silva. Os relógios de sala são outro desafio para o relojoeiro. É necessário mais de um dia de trabalho para reparar estes engenhos que na maioria das vezes trabalharam mais de 40 anos sem nunca terem tido um problema. Foi na pequena vila de Febres, em Cantanhede, que se apaixonou pela actividade. Em terra de fortes tradições de relojoaria, João Silva não fugiu ao “seu destino” e afirma convicto que nasceu para ser relojoeiro. O facto de o seu pai ser ourives ambulante foi mais uma influência que levou João Silva a “mexer e a estragar relógios” com apenas 12 anos. “ Primeiro estragava-os depois punha-me a arranjá-los com o pouco que sabia. Tinha muita vontade de os compor”, recorda o mecânico.Pouco tempo depois deixou a sua terra e mudou-se para Samora Correia, onde reside ainda hoje. Com um mestre de Salvaterra de Magos aprendeu o essencial da arte. Recompor um relógio depois de uma queda, arranjar a corda partida dos clássicos mecânicos ou mudar o óleo foram algumas das coisas que aprendeu com o mestre de Salvaterra. Mas muitas outras aprendeu por sua conta, com “muitas invenções” e também algumas actualizações, sobretudo quando entrámos na era dos relógios electrónicos. “Se só aprendemos aquilo que os outros nos ensinam não evoluímos”, assevera João Silva. A paixão pelos contadores do tempo leva o relojoeiro a ter a sua pequena colecção em casa. São mais de 60 na sua maioria de pulso e de algibeira mecânicos. Alguns foram comprados, outros oferecidos e ainda outros adquiridos por trocas. Entre eles estão dois especiais: um de algibeira com 60 anos e um de pulso com cerca de 40 anos. A sua qualidade e engenho deliciam João Silva que não raras vezes se deleita a desmontar e a montar peça a peça. Contudo a vasta colecção não é apenas para ficar em casa. Frequentemente muda de relógio, adaptado quer à ocasião quer à disposição. Em 37 anos de actividade são muitas as histórias que João Silva recorda. Uma delas foi particularmente marcante. Há cerca de 30 anos um menino com oito anos foi até a relojoaria pedir que lhe compusessem um relógio mecânico que deixara cair. Depois de o analisar, João Silva descobriu que o pequeno havia tentado compô-lo e ao abri-lo com um canivete danificara ainda mais o relógio. Confrontado com a situação, o menino negou que o tentara abrir e só admitiu quando o relojoeiro lhe disse que se não tivesse mentido lho teria arranjado gratuitamente. João Silva enterneceu-se com o seu olhar aflito, um olhar que ainda hoje recorda, e acabou por concertar o relógio. Sara Cardoso

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