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O gosto pelo desafio

O gosto pelo desafio

Mariana Lopes Viegas, personalidade multifacetada com uma rica história de vida

Mariana Viegas nasceu na Amadora há 88 anos, mas fez vida em Santarém onde o seu marido era dono de uma farmácia. No Ribatejo encontrou uma sociedade muito fechada. Diferente daquela a que estava habituada e onde formou a primeira equipa feminina de hóquei em patins de que há memória. Foi professora só até aos 70 anos porque foi obrigada a reformar-se.

Edição de 27.09.2006 | Entrevista
Foi autora de banda desenhada, jogou hóquei, aprendeu árabe numa altura em que o papel das mulheres se confinava sobretudo às lides domésticas. Foram actos de rebeldia?Era o gosto pelo desafio. O interesse em concretizar o que gostava. Acompanhei sempre os meus irmãos em todas as actividades que eles faziam. Fui uma Maria-rapaz. Mas isso só foi possível porque tive a sorte de apanhar uma família muito unida e um pai com uma paciência extraordinária. Como é que o seu pai via a filha a jogar hóquei quando nessa altura só os homens praticavam esse desporto?Aceitou bem porque havia uma tradição da patinagem na família. Tínhamos um ringue de patinagem mesmo em frente da nossa casa, na Amadora. Em casa todos patinávamos. Era a nossa distracção. O meu irmão Álvaro Lopes fez parte de uma equipa de Portugal que foi campeã do mundo.Como surgiu a ideia de fazer a equipa feminina?Na altura a modalidade começou a ter um certo prestígio. E como via os meus irmãos a jogar juntei umas amigas e formámos uma equipa que jogava contra os rapazes. Competíamos contra equipas de juniores e umas vezes ganhávamos nós, outras ganhavam eles. Valia-nos muito a nossa guarda-redes que tinha a vantagem de ter um tamanho que ocupava quase a baliza toda. Já morreram todas… Era a menina querida da família?Quando nasci o meu pai já tinha 54 anos. Não era uma filha, era como uma neta. Era a mais mimada, a menina querida da mamã. Os meus irmãos foram para colégios internos e eu ficava por casa. Nas férias juntávamo-nos todos e era uma alegria. Fazíamos um jornal que mostrávamos à família. Cada leitura custava dois tostões.O espírito familiar ajudou a essa irreverência?Tínhamos um grande interesse pelo que era novidade.Sendo a sociedade da época muito conservadora, essa sua forma de encarar a vida nunca lhe trouxe problemas?Não! O meu pai era uma pessoa muito conceituada na Amadora, onde vivíamos. Foi ele que criou o bairro da Mina. Era como que o chefe de um clã. Éramos respeitados apesar das diabruras, que também não faziam mal a ninguém. Como é que chega a Santarém?O meu sogro passando um dia por Santarém vê à venda a farmácia Paiva Bastos. E resolve comprá-la para a mulher que era farmacêutica. Quando o meu marido (na altura ainda namoravam) acaba o curso de farmácia vem para Santarém tomar conta do negócio. E eu venho para casar com ele. Como era a sociedade escalabitana nessa altura?Quando vim já trazia a recomendação de que as pessoas de Santarém eram muito fechadas. Não me dava com ninguém, excepto com uma meia dúzia de pessoas que já eram amigas do meu marido. Não era sítio para se jogar hóquei e ter outras aventuras como na Amadora (risos). A integração foi muito difícil. Para onde foi viver inicialmente?Para a avenida Segundo Visconde de Santarém, no último quarteirão, no fundo do bairro, onde só havia ciganos à zaragata e miúdos à pancada na rua. Era a minha distracção.Foi em Santarém que começou a dar aulas…O meu sogro um dia veio com a proposta de ser professora particular das filhas de um conhecido. Que ainda hoje me tratam por tia. Depois comecei a trabalhar no Colégio de Santa Margarida e depois na escola industrial, onde estive 30 anos. Dei aulas no magistério primário. E sou da fundação da Escola Superior de Educação de Santarém. Como é que viu o envolvimento do seu marido, Francisco Viegas, na vida pública de Santarém após o 25 de Abril?Ele esteve muito bem. Santarém perdeu com a saída do meu marido, que presidiu à comissão administrativa que geriu a câmara municipal antes das eleições pós 25 de Abril. Esteve lá 30 meses sem receber ordenado porque tomou a opção de o devolver ao município. Eram 10 contos por mês. Quando foi para fazer as listas concorrentes às primeiras eleições autárquicas puseram-no em quinto lugar porque não tinha filiação partidária. E o seu marido desligou-se da vida política da cidade…Era o que Santarém merecia. Mas ele deu sempre tudo o que podia pela cidade. Por exemplo: a escola de música a ele se deve. E só não trouxe o conservatório que está em Aveiro por não se ter chegado a acordo por causa de um metro de terreno para montar a instituição. Já nessa altura Santarém perdia oportunidades.Todas! Perderam oportunidades únicas. Diziam que ele tinha mau feitio.Só para quem o tratava mal. Lidava mal com a mediocridade. Ele não deixava que os outros lhe metessem os pés em cima. Ele era pelos bons, pelos que desempenhavam as suas funções sem roubalheiras nem intrujices. Interessava-se pela política da cidade?Acompanhava-o muitas vezes. Após ter fundado o Rotary Club cheguei a viajar muitas vezes com ele para outros países, como o Brasil. Mas também não se envolvia na política? Nunca me envolvi nem nunca me filiei em nenhum partido.
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