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Ribombante Serafim das Neves

Edição de 22.11.2006 | E-mails do outro mundo
Li esta semana que há estudantes japoneses a suicidar-se para escapar às praxes. É uma notícia horrível mas por vezes as desgraças dão-nos uma outra perspectiva da vida. Assim que larguei o jornal corri para a rua na expectativa de ser confundido com um caloiro e poder retornar a casa, ao fim do dia, com o cabelo empastado de bosta, as roupas inutilizadas para todo o sempre e a cara pintada a marcador fluorescente. Não tropecei em nenhum carrasco de capa e batina mas não desisto de levar com um penico de estrume de jerico nas trombas para me revigorar e alegrar. Vivam as praxes! Gritei a plenos pulmões pela cidade de Santarém para me penitenciar das mil vezes que as denegri. Nos Politécnicos de Santarém e Tomar as praxes são terapêuticas. Os caloiros riem que nem uns perdidos. Divertem-se mais que no Carnaval. Uma tarde a sofrer sevícias sabe-lhes melhor que três noites em Benidorm a partir mobílias nos hotéis e tem a vantagem de ser à borla. Ali ninguém se mata e se se mata é por mais um banho de água gelada numa fonte qualquer. Quem é que não dá tudo por um bom duche revigorante de lodo e beatas de cigarros?!! Quem é que não gosta de ter uma caloira de joelhos a seus pés simulando que nos está a fazer aquilo que nós sabemos?!!! Andamos sempre a dizer mal de Portugal porque não queremos abrir os olhos. Quando este meu e-mail for lido em Tóquio vais ver o que acontece. Aquela rapaziada vai a correr para a Internet pedir transferência para os Politécnicos da região. O Pires da Silva e a Lurdes Asseiro quando virem as matrículas a subir até ficam de olhos em bico. Qual processo de Bolonha, qual carapuça!!!Uma outra possibilidade é a de intercâmbio. Um protocolo de geminação. Um acordo de jumentização ou lá o que é!! Como aqueles que as câmaras municipais fazem com cidades estrangeiras longínquas para poderem organizar umas excursões de vez em quando. A Cabo Verde, à Roménia, à Alemanha, a Cuba. Imagina uma geminação entre Santarém e Osaka, por exemplo. Quem é que não gostaria de ir com a secretária ao Japão?!! Viagem de trabalho preenchidíssima com visitas, reuniões, eventos sociais e tardes livres…muitas tardes livres. Eu até já me contentava com uma estadia de uma semana noutro destino qualquer mas está tudo ocupado. Já andei a ver mas as comitivas dos intercâmbios internacionais estão mais que completas. Não há qualquer hipótese de abrir uma vaga antes de 2050, disseram-me. Arranjar uma borla numa viagem de geminação é mil vezes mais difícil do que chegar ao topo de uma lista de espera para uma operação num hospital português. Eu compreendo a existência de lugares cativos nas comitivas das geminações. É um factor essencial para o sucesso levar reputados especialistas na matéria. Pessoas que saibam utilizar os talheres certos numa recepção. Que saibam dizer boa tarde e obrigado na língua do país anfitrião. Que sejam capazes de guardar segredo sobre os dossiers em negociação. Esta parte então é importantíssima. Basta uma palavra para se desmoronar o trabalho de anos e anos de recepções e banquetes de boas-vindas. Uma inconfidência e lá se vão os planos de trocas comerciais entre Casais Revelhos e Vulcana Pandelle. Entre o Bom Florido e Oiseaux-sur-Loire. Serafim, tu sabes bem que o segredo do sucesso de alguns concelhos tem passado pelas geminações. O Cartaxo teria alguma vez tantos nós de auto-estrada se não fosse geminado com Puccioasa? O Entroncamento seria a capital dos comboios sem a geminação com Villiers-sur-Marne? Torres Novas ostentaria tanta rotunda sem o intercâmbio que mantém com a Ribeira Grande? O sotaque do presidente da câmara de Abrantes seria o mesmo sem a influência dos seus gémeos espanhóis de Arnedo? E nem digo mais nada para não me chamarem exagerado.Um quebra-ossos bem geminado doManuel Serra d’Aire

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