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O enfermeiro de Alpiarça trata da saúde aos jogadores do Sporting

Mário André é um confidente dos atletas que diz tratar quase como filhos

Está há cerca de 20 anos no Sporting como enfermeiro, clube de que se tornou sócio pelo carinho com que foi recebido. Mário André, natural de Alpiarça, diz que o segredo para a ligação de tanto tempo ao clube tem a ver com a sua maneira de ser: não se meter em assuntos para os quais não é chamado. Tratou centenas de atletas num consultório na sua terra natal, onde às vezes o que ganhava nem dava para pagar as despesas.

Edição de 07.03.2007 | Entrevista
Como é que se torna enfermeiro? Já tinha essa intenção em criança?Queria entrar na Escola Agrária. Quando fui para me inscrever faltava-me média a matemática. Nessa altura vejo um folheto da Escola de Enfermagem de Santarém, que ia abrir pela primeira vez um curso geral de enfermagem. Tratei logo dos papéis e entrei. Nem tinha a noção do que era o curso que comecei em 1974 e acabei em 1977. Comecei a trabalhar nos Hospital de Santarém onde estive cinco anos. Saí no ano em que se faz a transferência para as novas instalações. Fui depois para o Centro de Saúde de Alpiarça e mais tarde aparece o trabalho no futebol. Como as minhas saídas eram constantes fui para o Centro de Saúde de Santarém que tinha mais pessoal e onde podia faltar. Quando é que começa a exercer as funções de enfermeiro no futebol?Um dia o treinador Mário Lázaro convidou-me para o Águias de Alpiarça. Criou-se então um departamento médico que incluía o médico Mário Silva, em 1982/83. Instalou-se alguma aparelhagem que ainda hoje está a ser usada. Abriu então um curso para enfermeiros no Sporting, ministrado por Manuel Marques. Quando me fui inscrever já não tinha vaga e foi o Manuel Miranda do Céu, que era director do ciclismo do Águias e tinha boas relações com o Sporting, que conseguiu meter-me no curso. É sportinguista?Sou. Fiz-me sócio em 1986, quando fiz o curso de enfermeiro no clube. Não foi por imposição, mas a forma de estar das pessoas do clube e a maneira como fui acarinhado não me deixava outra alternativa. Não começou logo a trabalhar no Sporting.Na altura ofereceram-me um part-time, mas não aceitei porque o vencimento que me davam não compensava. Ainda passei pelo União de Almeirim que estava na 2ª divisão. A saída de Alpiarça não foi pacífica. Passados dois anos fui chamado para o Sporting. O meu horário de trabalho era das 17h00 às 20h00 todos os dias. Durante cerca de cinco anos não ganhei um tostão. Ou melhor, o que ganhava não dava para as despesas. Para se ser enfermeiro de uma equipa de topo é preciso ter bastantes conhecimentos…A Internet veio facilitar muito a nossa actualização em termos de conhecimentos. Só temos que aplicar a experiência para fazer a triagem das informações importantes. Passo algum tempo a pesquisar quais são as novas tecnologias e outras técnicas que estão a ser usadas. A quem é que deve o que hoje sabe?Ao Sporting, porque se não tenho lá entrado não teria acesso a tanta coisa nem tantos conhecimentos com tenho hoje. Mas os primeiros tempos não devem ter sido fáceis…A enfermagem no desporto não era compreendida. Era considerada uma actividade menor. As pessoas perguntavam o que é que fazia um enfermeiro no futebol. Hoje já se tem consciência que onde existe uma pessoa existe a necessidade de cuidar. E essa é a base da nossa actividade. Nos primórdios o massagista era o barbeiro ou o coveiro. Havia uma ideia depreciativa do técnico de saúde que trabalhava nesta área. Não começou logo na equipa principal?Comecei o percurso nos escalões jovens de futebol do Sporting além de outras modalidades. A subida foi a pulso, tive que mostrar disponibilidade e vontade. Nunca saía do clube às 20h00 quando terminava o meu horário. Chegava a casa à meia-noite porque ia ajudar nas modalidades jovens que começavam a treinar após as oito da noite. Teve que haver muita entrega, dedicação e actualizações constantes porque o meu trabalho estava sempre a ser avaliado. Quando vai com a equipa para o estrangeiro aproveita para passear?As pessoas pensam que a minha vida é um deslumbramento. Mas quando vou com a equipa levo os aparelhos, monto a sala de tratamentos e passo o tempo com os jogadores. Às vezes dou um passeio pelo jardim do hotel, nada mais, porque os jogadores precisam de mim por perto. Praticamente só fico a conhecer os aeroportos e os hotéis.Tem cuidados especiais com as mãos?Não, porque hoje trabalha-se muito com as máquinas, com a tecnologia. Mas recordo que o grande mestre da enfermagem desportiva, Manuel Marques, tinha um extremo cuidado com as mãos. Chamavam-lhe o massagista das mãos de ouro. Não cumprimentava quase ninguém, sempre que acabava o serviço punha luvas para proteger as mãos porque considerava que estas eram o segredo da actividade.As pessoas vão bater-lhe à porta para lhe pedir conselhos ou tratamentos?Durante alguns anos tive um gabinete aberto em Alpiarça que tive de o fechar recentemente por falta de disponibilidade. Chegava a trabalhar até às duas da manhã. Neste momento estou a fazer um curso na Escola de Enfermagem de Santarém para poder ser passar de bacharel a licenciado.Quem é que tratava nesse seu consultório?Principalmente desportistas que tinham lesões que se arrastavam no tempo. Para aquilo que trabalhava ganhei muito pouco, mas não me chateio com isso. Cheguei a não levar dinheiro quando sabia que as pessoas eram pobres. Não consigo ser um bom comerciante. Em vez de me preocupar apenas com as lesões pensava também na vertente social, no facto da pessoa poder ou não pagar. As pessoas agradeciam oferecendo-me por exemplo fruta da sua horta ou uma garrafa de vinho.Como é que as pessoas de Alpiarça o tratam?Por meu menino, por Mário Rato, alcunha por que era conhecido o meu pai e que herdei.Ser bem disposto, divertido, faz parte do seu trabalho?Se tiver uma atitude negativista na vida isso é ampliado no desporto de uma forma tremenda. As pessoas que trabalham no desporto têm que ser alegres, com espírito de conquista. Já foi convidado para a política?Participei activamente no 25 de Abril, o meu pai esteve preso pela PIDE. Ele foi sempre um democrata, não era político, era contra o sistema. Fui convidado para integrar listas da CDU em Alpiarça, dei o meu apoio e nunca tive nenhuma acção de relevo. Não milito em nenhum partido, sou um socialista não no aspecto partidário mas sim ideológico. Defendo que desenvolvimento económico não pode ser feito à custa das desigualdades sociais. Como é que vê o estado actual do seu concelho?Alpiarça deu um salto. Reconheço que se desenvolveu. Mas gostaria que houvesse uma oposição mais consistente.

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