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Em setenta anos foi a primeira vez que não foi à procissão

Irmão Hélder Ribeiro da Misericórdia da Chamusca retido em casa por questões de saúde

Ao fim de setenta anos a acompanhar a Procissão dos Fogaréus Hélder Ribeiro foi forçado a faltar. A saúde já não é a mesma. Agora o seu lugar é ocupado pelo filho Pedro.

Edição de 11.04.2007 | Cultura e Lazer
Começou a ir à Procissão dos Fogaréus quando era garoto. Teria os seus dez anos e ia com os amigos. Os pais não eram pessoas ligadas à Igreja. Hélder Ribeiro nem sequer era baptizado. Só muito mais tarde recebeu o sacramento. “Tinha 16 anos quando decidi ser baptizado. Eu participava com os meus amigos em iniciativas da Igreja e sentia-me constrangido. Falei com o meu pai e foi ele quem me escolheu os padrinhos”.Este ano, a ida à procissão foi interrompida. A dois meses de completar oitenta anos Hélder Ribeiro interrompe um ciclo. “Nos últimos anos já não fazia todo o percurso. Esperava em frente ao Clube e depois atalhava caminho para ir para outro lado. Praticamente só fazia o caminho do hospital até à Igreja da Misericórdia”, explica enquanto se ergue do sofá para nos mostrar a opa que a esposa, Lurdes, foi buscar a uma outra divisão.O antigo Chefe de Divisão Financeira e Administrativa da Câmara da Chamusca recebe-nos numa pequena sala. A luz que vem do quintal é coada por uma cortina de tule. A foto do casamento dos pais, Diamantino e Maria da Conceição marca presença ao lado da televisão. “O casamento foi pela Igreja porque foi antes de 1911. Só nesse ano é que veio a Lei do Registo Civil. Ou se casava pela igreja ou não se casava”, explica.A Procissão dos Fogaréus sai da Igreja da Misericórdia. Os lugares de destaque são ocupados pelos Irmãos que integram a Mesa Administrativa. Sempre foi assim. Eles abrem o cortejo e transportam a Imagem de Cristo. O nosso interlocutor tornou-se membro da Misericórdia aos 23 anos. Mais tarde foi eleito para a Mesa mas não ocupou o lugar muito tempo devido a uma incompatibilidade. “Naquele tempo as contas da Misericórdia eram visadas pela câmara municipal. Do Governo-Civil de Santarém fui alertado para o facto de, como Chefe de Divisão não poderia ser ao mesmo tempo membro da Mesa da Misericórdia”, conta. A situação foi ultrapassada após o 25 de Abril de 1974 com a alteração da legislação. O que cimentou a ligação de Hélder Ribeiro à Igreja foi o casamento. A esposa pertencia à Acção Católica. Ele acompanhava-a. Foi por amor? Foi por vontade de Deus? Quem sabe. O Irmão Hélder sorri e evita uma resposta directa. “Quando era mais novo não estava com tanta devoção na Igreja. Nas sextas-feiras da Quaresma havia sempre uma cerimónia na Igreja da Misericórdia que era a Coroa. Ainda hoje se faz mas não tem tanta gente como tinha naquela altura. Eu tinha 10 ou 11 anos. O meu pai soube que eu ia lá e avisou-me que me deixava ir lá mas que exigia que eu me portasse com respeito. Cumpri sempre”, explica, talvez para fazer o contraste com outros do seu tempo que iam à procissão só para ver as raparigas ou para andar na brincadeira com os archotes e as matracas de madeira que se tocam na abertura do cortejo. A certa altura da conversa pergunta: “Sabe em que altura é que a procissão deixou de ser à Quinta-feira para passar a ser à Sexta?” Não espera pela resposta. “A última vez que foi à quinta foi a 7 de Abril de 1955. Lembro-me porque foi quando nasceu o meu filho Pedro. Assisti à Procissão à noite e no dia seguinte fui vê-lo a Almeirim. A ordem para mudar o dia da procissão veio da Diocese. Não me pergunte porquê”. O percurso também não é o mesmo. Foi alterado quando o hospital mudou de instalações. É que um dos pontos de paragem do cortejo religioso é exactamente no hospital.Hélder Ribeiro acompanha-nos até ao portão e fica à porta a ver-nos partir. Se a Procissão passasse por ali ia encontrá-lo encostado à ombreira, provavelmente envergando a sua opa preta. Assim vai saber notícias do cortejo pelo filho Pedro que, por ser Meseiro da Irmandade, também já transporta a imagem do Senhor da Misericórdia.

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