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Pernes recupera tradição do “Enterro do Bacalhau” com quadras bem temperadas

Pernes recupera tradição do “Enterro do Bacalhau” com quadras bem temperadas

Manifestação de cariz popular que marca o fim da Quaresma não se realizava há quarenta e nove anos

No fim da Quaresma, farto de comer peixe por imposição religiosa, o povo sai à rua e depois de condenar o “bacalhau” aproveita-lhe o testamento para satirizar o que vai mal.

Edição de 11.04.2007 | Cultura e Lazer
A tradição do enterro do bacalhau na vila de Pernes, que não se realizava desde 1958, foi recuperada sábado, dia 7, com a presença da única figurante ainda viva que participou na iniciativa de há 49 anos, Angelina Gonçalves. O enterro, uma espécie de teatro de rua de sátira e crítica social voltou ao largo do Rossio que se encheu para assistir à iniciativa que marca o fim da Quaresma. Os figurantes saíram às 20h30 em cortejo da Sociedade Musical União Pernense em direcção ao largo principal da vila. Quatro carros onde estavam “instalados” o tribunal, o réu bacalhau, a Quaresma e a Páscoa. A viagem pelas ruas foi de meia hora. Depois os carros posicionam-se ao lado do palco onde começou por ser feita uma homenagem ao mar e aos pescadores. O “juiz” Vicente Batalha inicia a sessão batendo com o martelo de madeira na mesa. Dada a palavra ao advogado de acusação ele pede logo a condenação do peixe porque as pessoas “tiveram que o gramar durante 40 dias”, tempo de duração da Quaresma durante o qual não se podia comer carne). Segue-se a audição das testemunhas. O homem do talho pede que o bacalhau seja enterrado “sem demora”, outras realçando as piores características do réu. O juiz cai para o lado da acusação e manda enterrar o bacalhau. Um homem empoleirado em cima da fonte do largo solta gargalhadas enquanto decorre a farsa. Angelina Gonçalves, 92 anos, assiste atenta. Diz sentir-se feliz e emocionada por ver recuperada a tradição. Recorda que nos seus tempos o enterro era mais pobre porque não havia dinheiro para fazer fatos sumptuosos para os protagonistas. Após a sentença dá-se a palavra ao bacalhau que passa a ler o testamento. Começa por satirizar o que está mal na terra. São quadras lidas por Telmo de Jesus que faz o papel do malfadado peixe seco: “49 anos depoisao voltar à freguesiavi logo onde estavapelo cheiro a porcaria”. E continua o testamento em forma de crítica: “Ora é do Alvielados porcos e das galinhasaos senhores responsáveiseu deixo as minhas espinhas”. E criticando ainda os maus cheiros na vila por causa da poluição no rio Alviela, o bacalhau arrematou: “Quando se mexe na merda muito mais a merda cheira como sempre em Portugal a culpa morre solteira”. A crítica passou também pelas obras, algumas que não se fazem outras que não foram feitas como o povo gostaria. “O quartel da GNRé uma obra adiada e sem nó da auto-estradaPernes vai ficar lixada”. A Câmara de Santarém também não ficou imune à sátira, por causa da revisão do Plano Director Municipal:“O PDM não deixaconstruir onde se querouça senhor presidenteele custa assim tanto a rever?”.“O que anda a câmara a fazerestá com os olhos na lua?diz que não há dinheiroe a festa continua”. Por isso bacalhau deixou a sua cabeça à câmara “para eles cabeça terem para o concelho governar”. O enterro do bacalhau em Pernes, segundo relatos orais, terá decorrido ao longo do século XX. Uma manifestação entre o profano e o religioso que assinala o fim da Quaresma e a chegada da Páscoa e com ela os festejos na terra e do fim das abstinências. A iniciativa foi organizada pelo Grupo Cénico da Música Nova sob direcção e coordenação de Vicente Batalha e acompanhamento musical do grupo “Alminhas Danadas”.
Pernes recupera tradição do “Enterro do Bacalhau” com quadras bem temperadas

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