Abrigo de emergência que se torna definitivo para algumas crianças
Quem vê o sorriso de esperança destas crianças não imagina que sofreram torturas, abandono e carências alimentares. São crianças com pai e mãe biológicos, mas órfãs do amor e carinho que encontraram na instituição.
Quinta-feira, fim de tarde. As crianças começam a chegar, vindas da escola. Entram e trocam os sapatos pelo conforto dos chinelos ou pantufas. Enquanto uns tomam banho, outros aguardam a sua vez distraindo-se com a televisão ou algum brinquedo. Parece uma casa normal mas não é. É o Centro de Acolhimento Temporário (CAT) da Associação para o Bem Estar Infantil de Vialonga (ABEIV), que acolhe neste momento 21 crianças que, por diversos motivos, foram retiradas às famílias e aguardam agora que lhes seja traçado um novo projecto de vida.“Tão bonita! Posso morar aqui para sempre?”. Vítor Cardoso recorda ainda as palavras do primeiro menino que inaugurou o CAT. A inauguração da casa aconteceu no dia 30 de Dezembro de 2004. Aqui vivem histórias dramáticas de quem é ainda novo demais para as compreender. Há casos de maus-tratos físicos graves, nalgumas situações até de tortura, de negligência, carências socio-económicas e de abandono. Cada menino tem um duro passado nas costas e prepara-se aqui para o desafio de construir um futuro diferente. Mas esse futuro não é fácil de construir. O objectivo do CAT é ser um lar transitório para as crianças, enquanto aguardam a definição de um novo projecto de vida. Uma criança não deve passar mais de seis meses no CAT. Porém, há crianças que fazem daquele centro a sua casa desde a inauguração.Famílias biológicas mantêm contacto com as crianças As famílias podem visitar as crianças todas as semanas, mais do que uma vez, caso queiram, durante cerca de uma hora por cada visita. Porém, são poucas as famílias que o fazem. As crianças passam semanas e por vezes até meses sem receberem visitas dos familiares. Há também aqueles que quando vêm nem sequer esgotam a hora. “Parece que vêm por obrigação”, lamenta o presidente.A Playstation que receberam de prenda de Natal, oferecida por Vítor Cardoso, é um dos seus passatempos preferidos, especialmente por causa do Karaoke, capaz de os entreter durante horas. Na sala de actividades, o “Baú das Trapalhadas” está cheio de roupas, sapatos, colares e outros enfeites com que se mascaram e brincam ao faz-de-conta. Todas as salas têm as cores vivas dos quadros pintados pelos meninos, pendurados na parede. Lá fora também não falta espaço para brincadeira e há um churrasco e um forno para os mais velhos fazerem pão. Chegados ao Verão, são até presenteados com uma piscina insuflável colocada no quintal. Para além de todo o divertimento dentro de casa, as saídas do CAT são frequentes. Visitas ao Jardim Zoológico, idas ao cinema, ao Musical do Noddy, ao Estoril Open ou passeios no campo são apenas alguns exemplos das actividades que entretêm estas crianças.O ambiente da casa é acolhedor e nenhum dos meninos hesita em dizer que está feliz com a casa que o acolhe. Mas a adaptação nem sempre é fácil. O CAT já registou duas tentativas de fuga que aconteceram logo no início da estada das crianças. “É uma coisa que só se resolve com muita conversa. Sobretudo conversa entre eles, deixando-os trocar experiências”, explica o presidente. Sempre que possível, Vítor Cardoso, “o Vítor”, como é carinhosamente tratado pelos miúdos, janta sozinho com todos eles. “Temos conversas entre amigos”, confidencia.Um mês foi o tempo mínimo que uma criança já passou no CAT. Foi o caso de Pedro, um menino vítima de maus tratos que o CAT acolheu apenas durante o tempo suficiente para arranjaram um voo que lhe permitisse voltar para a Guiné. Um episódio que, apesar de breve, nenhum dos responsáveis irá esquecer. Cláudia Henriques é técnica de serviço social no CAT há dois anos. A sua ligação com os meninos é muito próxima. Cláudia vai às consultas médicas e às reuniões de encarregados de educação na escola. Na sua memória tem já várias histórias que gostaria de não ter conhecido. “Marcou-me muito a história do L.”, lembra. “Fomos buscá-lo à maternidade e vinha ainda com o pescoço marcado porque a mãe tentou estrangulá-lo”. Mas L. não foi o único caso a marcar a ainda curta carreira de Cláudia. Vitor Cardoso lembra também D. e R., dois irmãos aqui chegados depois de terem incendiado a barraca onde viviam com o tio toxicodependente. E o caso de Z., que vivia na linha do comboio. “Viviam em estado de completo abandono. Eram os próprios que punham o despertador para ir à escola, caso quisessem ir à escola”, relata o presidente, referindo-se a alguns dos meninos que o CAT acolhe e a quem ensinam agora as regras que antes não tinham.A entrada no CAT marca, para estas crianças, o início de uma nova vida. “A partir do momento em que uma criança aqui entra, começa o processo de esquecer o passado e trabalhar para o futuro”, diz Vítor Cardoso. Para o presidente, as entradas e saídas de crianças no centro são “uma luta interior”. “Quando saem, custa-me muito vê-los partir mas ao mesmo tempo estou feliz porque sei que vão para a sua nova vida”, explica. O novo projecto de vida poderá passar pela reintegração na família, pela adopção ou pela institucionalização em lares de infância e juventude.Não tarda o sol desaparece por detrás das nuvens. Vêm aí um fim-de-semana maior: três dias por ser Páscoa. Quando saem do banho já têm a roupa estendida em cima da cama, pronta a ser vestida. As malas já estão feitas e os meninos vão saindo à medida que as famílias chegam para os vir buscar. São as Famílias Amigas, voluntários que os acolhem em sua casa, em períodos de fins-de-semana e férias, para lhes mostrarem, ainda mais, o que é ser-se amado.
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