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Cidades do concelho de Vila Franca de Xira são dormitório para milhares de pessoas

Cidades do concelho de Vila Franca de Xira são dormitório para milhares de pessoas

Quase 19 mil pessoas deslocam-se todos os dias para Lisboa e fazem vida na capital

Milhares de pessoas vivem nas vilas e cidades do concelho há anos, mas não têm nenhuma ligação com as comunidades locais. Alguns não sabem o nome do presidente da junta nem conhecem os serviços locais. Póvoa, Forte da Casa, Vialonga e Alverca são dormitórios às portas de Lisboa.

Edição de 11.04.2007 | Sociedade
Chegam à estação de comboios ou à paragem de autocarro logo pela manhã cedo. Os olhos estão ainda semi-cerrados do sono que ficou por dormir. Alguns têm o passo lento e arrastado de quem acabou de sair da cama, outros a velocidade de quem se apressa para o início de mais um dia de trabalho longe de casa. De acordo com os dados do último Recenseamento Geral da população, realizado em 2001, 18.981 pessoas deslocam-se diariamente do concelho de Vila Franca de Xira para o local de trabalho ou para a escola em Lisboa. Margarida Grilo vive na Póvoa de Santa Iria há 53 anos e há mais de 40, desde a entrada no liceu, que Lisboa é o seu destino diário. Todos os dias da semana sai de casa de manhã cedo e só volta já depois das 22h00, já para dormir. Os fins-de-semana ultimamente são passados na cidade onde vive, preenchendo as manhãs livres com pequenos-almoços na Quinta Municipal da Piedade. Margarida Grilo é também frequentadora da Biblioteca Municipal mas ainda assim diz que sente pouca ligação à comunidade onde vive. “O nome do presidente da junta? Não faço ideia!”, confessa. “Usufruo de alguns equipamentos mas a cidade motiva-me pouco”, explica a moradora. “Fazem imensa falta espaços onde a pessoa se possa sentar calmamente a ler ou apenas a descansar”, sugere.Por ser o último ano do curso de Engenharia Informática, que frequenta na Universidade Nova de Lisboa, no Monte da Caparica, João Marques, de 22 anos, é presença rara na cidade onde mora há já 17 anos. “Venho aqui para dormir todas as noites e o máximo que faço é sair para beber um café com os amigos que aqui tenho”, diz o jovem. João diz-se muito afastado de tudo o que se passa na sua cidade. Confessa que o interesse em saber mais é pouco mas diz reparar que as iniciativas que existem são muito pouco divulgadas. “Só agora descobri que houve um Festival da Juventude da Quinta Municipal da Piedade”, lamenta. Para o jovem, dinamizar a zona ribeirinha da cidade poderá ser uma das soluções para combater a ideia da Póvoa de Santa Iria como uma cidade dormitório.A mesma ideia é partilhada por Célia Henriques, uma jovem povoense de 23 anos que divide agora o seu tempo entre o emprego em Alverca e a faculdade em Lisboa. O tempo livre é quase nenhum. No pouco tempo que tem, Célia opta por passá-lo em zonas perto de praias ou em centros comerciais na zona de Lisboa. “Nem sequer costumo ouvir falar de nenhuma iniciativa de carácter cultural para jovens aqui na Póvoa”, afirma. Para Célia, “a falta de espaços culturais para jovens” é o principal problema da cidade.Ainda mal chegaram as 8h00 da manhã e já João Esteves está a sair da sua casa, no Forte da Casa, para mais um dia inteiro passado em Lisboa. Entre o trabalho e as aulas de mestrado, são cerca de 13 as horas que o jovem de 22 anos passa na capital. Mas não é apenas por isso que João vê no Forte da Casa uma vila dormitório. “O Forte da Casa não é suficientemente atractivo para uma pessoa da minha idade”, afirma. “Tem bons equipamentos desportivos mas não tem uma biblioteca, um cinema ou um bar decente”, enumera o jovem. Para João, a única ligação que tem ao Forte da Casa são as memórias do tempo em que ali brincava na rua com os amigos ou do tempo que ali passou na escola. Não fosse a newsletter que por vezes recebe na caixa do correio vinda da junta de freguesia e talvez João não soubesse o nome do presidente da junta. “Não presto atenção à vida política local”, confessa. Uma boa biblioteca seria aquilo que faria João passar mais tempo no Forte da Casa. Enquanto isso, João vai continuar a eleger Lisboa para viver e o Forte da Casa como o lugar que o acolhe ao fim do dia.Juntas de Freguesia preocupadas em atrair cidadãos para a zona onde vivemA criação, na passada quinta-feira, de um Serviço de Mediação de Conflitos é uma das apostas da Junta de Freguesia da Póvoa de Santa Iria no sentido de disponibilizar aos cidadãos os serviços de que necessitam sem terem que se deslocar a outra cidade. “É um serviço para resolver conflitos entre vizinhos ou questões de condomínio, por exemplo”, explica o presidente da junta de freguesia, Jorge Ribeiro (PS). O novo serviço é gratuito e funciona, por marcação, na sede da Junta de Freguesia. Para além disso, a Junta de Freguesia está a ultimar um projecto de dinamização dos espaços da cidade ao fim-de-semana com práticas desportivas variadas, em conjugação com programas da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Para Jorge Ribeiro “não é fácil lidar com o problema na Póvoa de Santa Iria” uma vez que “a proximidade com Lisboa torna a concorrência desleal”. “Em Lisboa há um grande número de atractivos que aqui não temos mas procuramos apostar sobretudo na divulgação do nosso património histórico”, acrescenta o autarca.Também o presidente da Junta de Freguesia do Forte da Casa, António José Inácio (PS), se revela preocupado com a questão da “vila-dormitório”. Para o autarca, uma das soluções poderá passar pelos novos serviços que irão abrir no Lezíria Park. “Está a ser feito um esforço entre a junta de freguesia e os operadores para que sejam recrutadas pessoas da freguesia para ali trabalharem”. Deste modo, o presidente espera fixar alguns cidadãos na freguesia. Para além disso, a criação de espaços verdes é outra das formas encontradas para combater o problema. Para além dos dois parques de lazer já existentes, vai ser inaugurada, no próximo dia 28 de Abril, a 2ª fase do Parque Urbano do Forte da Casa, com 11 mil metros quadrados de zona verde.
Cidades do concelho de Vila Franca de Xira são dormitório para milhares de pessoas

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