uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
Palmira Alves passou quarenta anos a escrever à máquina

Palmira Alves passou quarenta anos a escrever à máquina

A “Dona Tecla” continua a abrir as portas do estabelecimento diariamente

Avessa às novas tecnologias, a dactilógrafa de 78 anos prefere os teclados das máquinas de escrever aos dos computadores. O trabalho já foi mais, mas continua a escrever cartas, contratos de arrendamento e a preencher impressos de IRS para os seus clientes.

Edição de 18.07.2007 | Identidade Profissional
Palmira Alves, mais conhecida em Tomar pela “viúva do Manuel António” por uns, ou por “Dona Tecla” por outros, está inscrita como trabalhadora independente desde Fevereiro de 1967. Na altura, juntou-se ao marido e iniciou uma actividade que não mais quis parar. Requerimentos para a autarquia, requisições para as finanças, cartas, eram alguns dos serviços que prestava com a sua máquina de escrever. Hoje, aos 78 anos, continua todos os dias a abrir as portas da velha loja. “Só estou a contar parar lá para o Verão do próximo ano, isto se a saúde deixar”, diz com ar sorridente.O sorriso é uma presença constante nesta mulher cuja memória vai até aos pormenores das datas. “Sempre fui boa com os números”, confessa. Começou por trabalhar no Grémio da Lavoura de Tomar e de Ferreira do Zêzere (Ferreira do Zêzere), de onde é natural e onde conheceu o marido. Casou aos 17 anos. Ele era mais velho 26 anos. “Na altura, era empregada do meu marido. Eu gostei dele, ele gostou de mim e pronto, foi assim”. Ainda ocupou um lugar nas tecelagens da Fábrica da Fiação em Tomar, mas acabou por optar por tirar um curso de dactilografia e juntar-se a Manuel António. A vida acabou por dar uma volta de 180º com o falecimento do marido. Na altura, Palmira Alves foi obrigada a assumir o negócio. “O meu marido deu baixa de actividade em 1969 e eu colectei-me no mesmo dia”, revela. Com dois filhos para acabar de criar, sozinha fez mexer um negócio que lhe deu rendimentos suficientes para conseguir comprar uma casa “no ano da revolução”. Tirou a carta de condução com 50 anos e comprou um carro – primeiro conseguiu adquirir um em segunda mão, mas depois comprou um novo que ainda mantém e usa para as suas viagens com as amigas. Além dos serviços de dactilografia, Palmira Alves foi durante 33 anos mediadora de seguros. Chegou a ter 1.200 clientes. Deixou a actividade há pouco tempo, porque já não sentia forças suficientes para tratar dos processos. “Dá muito trabalho”. Mas antes de vender a carteira de clientes, assegurou-se que os seus fregueses iriam ser bem tratados.Durante 78 anos de vida, Palmira Alves guarda memórias de uma Tomar antiga que viu desenvolver-se. Ainda recorda o tempo em que o mercado era realizado às portas do edifício da Câmara de Tomar. Assistiu ao erguer da estátua de D. Gualdim Pais no centro da Praça da República, quando decidiram remover a imagem do fundador da cidade do local esquecido onde estava – a Cerrada dos Cães. “Ainda há pouco tempo, quando estiveram a fazer obras no edifício dos serviços municipalizados, chamaram-me para desvendar uma inscrição que encontraram. Dizia “O Celeiro” e era o nome de uma das lojas que existiram naquele prédio”, conta orgulhosa. Lembra também o facto de ser prima direita do compositor Fernando Lopes-Graça e que chegou a privar com ele. O músico costumava vir passar temporadas a Tomar, à casa dos pais junto à Rua dos Arcos. “Quando ele vinha de férias, vinha carregado com o piano”, ri. Já Palmira nunca tirou férias, porque não tinha vagar. “Antigamente, quando chegava para abrir a porta do estabelecimento, já tinha filas de gente à minha espera”. Hoje, os dias de Palmira Alves são mais calmos. Mantém as portas abertas das 09h00 às 17h30, mas quando precisa de faltar já não se importa, porque o trabalho é pouco. Continua a escrever cartas, contratos de arrendamento e a preencher impressos de IRS para os seus clientes. Tudo com recurso à máquina de escrever, porque nunca conseguiu adaptar-se às novas tecnologias. No meio de quatro paredes verdes, gastas pelo tempo, e atrás de um balcão de madeira, mantêm-se prontas a trabalhar duas enormes máquinas de teclas que manuseia sem dificuldade. São as suas parceiras do tempo, imóveis e fiéis. À porta, surgem velhos clientes de outros tempos. “Ó Dona Palmira, como é que faço com os recibos da casa?”. Está dado o mote para dois dedos de conversa sobre a vida, para gastar algum tempo que já vai sobrando. Qual é o segredo de se manter tão dinâmica? “Com esta idade ainda aprendo a fazer as coisas. Tenho uma cabeça muito boa”, revela.
Palmira Alves passou quarenta anos a escrever à máquina

Mais Notícias

    A carregar...