O jovem artista que adivinhou a revolução
Pressentiu as brechas que se abriam no regime porque o primeiro desenho foi publicado exactamente a 16 de Março de 1974 no jornal “República”…O 16 de Março foi uma coincidência porque o desenho já lá estava há um mês ou dois, mas a leitura desse tempo já lá está. Está lá escrito que alguma coisa vai quebrar. O 16 de Março é uma tentativa de golpe, mas antes disso pairavam coisas no ar. Percebia-se que o regime perdia energia todos os dias e que estava a dar as últimas.E para o jovem António era essa a maneira de se expressar.Uma das coisas que me levou aos jornais foi dar àquilo que eu sentia algum sentido social. Mesmo que fizesse uma grande pintura qual seria a vida que poderia ter? Na melhor das hipóteses faria uma exposição ou venderia a alguém que a colocaria numa parede. Assim as coisas não existem. Os jornais ofereciam-me a possibilidade de me expor socialmente. Era como que me sentisse a participar nesse movimento colectivo através dos jornais. Quando ficou claro que queria ser artista?Fui crescendo. Repare, o meu primeiro desenho aparece publicado a 16 de Março. A 23 de Abril entro no serviço militar. Costumo dizer que era o tipo que faltava para as coisas mudarem todas. O que é ridículo, como é óbvio, porque com dois dias de tropa não fiz nada. Durante um tempo não pude fazer nada porque estava longe de Lisboa. Voltei para Lisboa e retomei os desenhos na imprensa com alguma irregularidade. Depois acabei o serviço militar e voltei a trabalhar em publicidade onde já tinha trabalhado antes dos jornais. O cartoon era uma aventura que iria até onde fosse possível, mas por outro lado tinha uma profissão. Não foi à guerra, mas retrata-a em muitos trabalhos. É-lhe particularmente dolorosa?A guerra é sempre uma chatice. Apesar de haver guerras que se justificam porque as pessoas estão encurraladas e têm que sair dessa situação. Até agora o homem não foi capaz de viver sem guerras. Esperemos que algum dia se consigam formas de dirimir os conflitos de forma equilibrada sem passar por aí. Vemos agressões claras, arrogâncias, prepotências. Continuo a detestar isso. Acho a guerra um método perfeitamente medíocre. Se algum dia chegarmos a um ponto civilizacional em que consigamos resolver os conflitos prescindindo da guerra será para mim uma coisa muito positiva.Acredita que pode ajudar a mudar o mundo?Não sou assim tão optimista em relação ao nosso papel. Acho que somos um grão de areia nesta engrenagem. Na ínfima parte daquilo que podemos influenciar acho que é preferível fazer a não fazer. Tento alertar as pessoas em relação à crueldade da guerra. E à crueldade de algumas guerras em particular que são completamente injustificadas na forma como se desenrolam. Mas nós somos animais, os animais são violentos, a natureza é violenta. Algumas guerras ainda são piores que outras porque têm que ver com processos de dominação, de agressão e de humilhação que não deveriam existir. Como é que se caricaturaria a si próprio?Já o fiz. Foi um pouco doloroso. É contra natura. Não apetece repetir. Não tenho distanciação. Estou muito dentro de mim. É como se tivesse um anjo bom e um anjo mau.Agrada-lhe a ideia da perpetuidade dos trabalhos que ficarão quando desaparecer?Eu próprio já deitei alguns desenhos fora porque acho que não merecem viver. Acho mais importante marcar o meu tempo do que fazer vaticínios acerca do que vai acontecer depois de morrer. Só tenho pena de que haja projectos que não consegui concretizar porque Portugal é pouco dinâmico. Há coisas que quis fazer e não fiz. Não encontrei comprador. Na mudança de século tinha um projecto para fazer as figuras do século XX. Era um conjunto de três álbuns com desenhos e crónicas. Não vou assistir a outra mudança de século… Nisto Portugal é fértil. Obriga a grande desgaste. Para fazer um projecto tem que gastar o quádruplo da energia para o conseguir. Há pessoas difíceis de caricaturar?Tudo é caricaturável, mas é evidente que há personagens piores que outros. Quer por características fisionómicas quer por um certo cinzentismo. Hoje já não vejo a caricatura como o jogo anatómico. Preciso de um pouco de sal e pimenta. Deve ser um gozo anatómico cheio de intencionalidades, de sentido. Não basta fazer só uma coisa engraçada. Não sou um tipo engraçado, a não ser quando estou com os amigos.Não é condição fundamental para ser cartoonista…É preciso ter sentido de humor, que é outra coisa. O humor é uma construção mental. Quando estou com os amigos em círculos que estou à vontade aí o humor corre a jorros…
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