O rapaz que se esqueceu de assinar o cartoon
António. O nome apareceu pela primeira vez em 1974 no jornal “República” por um acaso. Os desenhos do jovem cartoonista, natural de Vila Franca de Xira, eram enviados sem assinatura para o periódico e o conterrâneo e jornalista Álvaro Guerra decidiu que o espaço não poderia voltar a aparecer em branco. Começava assim uma carreira com mais de 35 anos do artista, grande parte feita no jornal Expresso. António Antunes, 54 anos, filho de comerciantes, conformou-se com o baptismo e trilhou assim ao longo do tempo uma relação com os leitores do jornal com os quais estabeleceu códigos. Vive em Lisboa e tem o seu gabinete de trabalho no atelier de design que criou há mais de 20 anos. Numa altura em que ainda não poderia dar-se ao luxo de viver da crítica social. O atelier fica perto da Mesquita a quem o artista chama ironicamente de “vizinho do lado” para abordar a questão dos fundamentalismos religiosos. As fotografias dos dois filhos, um arquitecto que vive em Vila Franca e uma engenheira química que está a especializar-se na Holanda, ocupam o espaço cheio de uma organização desorganizada onde se consegue encontrar. Não há fotografias de mulheres, mas há muito que António se deslumbrou com o sexo feminino. Nunca casou, mas é um homem de paixões. Já não é o artista de pasta ao ombro que desenhava nos cafés para impressionar as raparigas. A forma de engate encapotada é hoje um tipo de exibicionismo que o aborrece. Dispensa ser conhecido no café e incomoda-se de ser reconhecido pelo público no Alentejo a meio de um almoço. Aborrece-o esta condição de personagem meio pública meio privada. O artista, que se completou na Escola António Arroio e que deixou a meio o curso de Belas Artes, tem pena de nunca ter feito um desenho infantil. Aprendeu a ler e escrever antes de ir à escola. Foi um aluno brilhante. Em Vila Franca de Xira não levou o primeiro prémio de um concurso de desenho porque o júri não acreditou que tivesse sido o autor da obra. Foi uma das primeiras injustiças que sentiu o jovem, que seria para sempre atormentado pelo fantasma da Guerra Colonial. Teve tudo preparado para fugir para França, mas o destino poupou-o. Intitula-se como designer gráfico, cartoonista e animador cultural em part-time. Coordena um grupo de criativos que colaboram no atelier. O seu último filho é o World Press Cartoon. Um dos projectos é fazer uma exposição de escultura, uma arte que o ocupa nos momentos de menos tensão. Não tem um horário para criar, mas os prazos são disciplinadores. Tem uma televisão no gabinete e jornais amontoados. A sua mente vive em permanente criação. Três vezes por semana faz 40 piscinas por dia e no Inverno gosta de dar um pulo à neve. De voz rouca e aparente timidez, que se dilui no primeiro minuto de conversa, garante que o que mais lhe custa é quando as pessoas da sua idade falam do seu tempo. “Como se as pessoas tivessem tempo! O meu tempo ainda é hoje”.
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