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Um carpinteiro que só descobriu a vocação depois dos trinta

Um carpinteiro que só descobriu a vocação depois dos trinta

Foi ao longo da formação que Paulo Brito aprendeu a gostar da profissão

Paulo Jorge Brito Pereira experimentou meia dúzia de empregos mas só encontrou a sua vocação depois dos 30 anos, quando se inscreveu no curso de carpinteiro de limpos ministrado no Centro de Formação Profissional de Tomar.

Edição de 25.07.2007 | Identidade Profissional
“Estava farto de trabalhar em coisas que não me davam prazer”. É assim que Paulo Brito resume o facto de nunca ter ficado muito tempo no mesmo emprego, sempre à procura de uma profissão que o fizesse sentir realizado. Depois de ter terminado a escola começou a trabalhar num pronto-a-vestir, a vender roupa mas depressa viu que não era por ali que passava o seu futuro. O serviço militar obrigatório veio mesmo na altura certa para deixar aquele emprego. Depois da tropa esteve numa casa de móveis, onde fazia de tudo um pouco, mas também aí não parou muito tempo, decidindo emigrar para a Suiça.No país dos relógios e do chocolate trabalhou seis anos, como ajudante de cozinha num restaurante. Até gostava do trabalho mas as saudades de Portugal fizeram-no regressar. O bichinho da profissão ficou no entanto e hoje é Paulo que costuma cozinhar em casa. Quando tem tempo, porque nunca há horários para quem trabalha por conta própria, como diz.Já em Portugal entrou para uma empresa de telecomunicações, a montar estações de antenas (torres) em todo o país e também no estrangeiro, nomeadamente na Bélgica, onde esteve quatro meses. Ao fim de ano e meio “fartei-me de andar com o saco às costas”. Nessa altura Paulo Brito decidiu parar um pouco e pensar o que queria fazer da sua vida. Foi ao Centro de Formação Profissional de Tomar à procura da sua vocação e acabou por se inscrever num curso de carpinteiro de limpos. Foi ao longo das 900 horas de formação que Paulo Brito aprendeu a gostar da profissão. Diz que o curso lhe foi muito útil porque o ensinou a trabalhar com diverso tipo de maquinaria mas garante que, nesta profissão, a prática vale tudo. “Quando saímos temos a base mas todos os dias vamos aprendendo sempre algo mais”.Já como carpinteiro de limpos – faz portas, aduelas e móveis de cozinhas, coloca chão e tectos falsos e executa pequenas reparações em madeiras – trabalhou para diversos patrões e experimentou ser patrão dele mesmo por mais de uma vez. Há dois anos, com 38 anos de idade, decidiu arriscar mais uma vez o trabalho por conta própria. O último patrão começou a ter menos trabalho e o carpinteiro “saltou fora” antes de ficar sem ordenado. O que não o impediu de ficar amigo do agora ex-patrão, que o ensinou a fazer móveis de cozinha. É na sua oficina que ainda faz alguns trabalhos, que requerem mais maquinaria e espaço de manobra. Paulo Brito não tem oficina própria, trabalha na garagem do prédio onde mora e transporta tudo o que precisa na carrinha que adquiriu, onde mandou colocar publicidade ao seu trabalho. É por aí que consegue alguns clientes embora confesse que a angariação de trabalho acontece muito no boca a boca. “Quando o trabalho é bem feito o cliente fica satisfeito e passa a palavra”, diz o carpinteiro. Foi o que lhe aconteceu no último trabalho, em Abrantes. Um vizinho do cliente para quem estava a assentar chão acabou por abordá-lo para executar o mesmo tipo de trabalho lá em casa. “Fiz logo o orçamento, que foi aprovado, e pronto, fiquei com mais um cliente”, diz o carpinteiro com um sorriso. A rede de clientes vai sendo alargada em termos geográficos. Já fez trabalhos no Seixal e prepara-se para executar um serviço em Oliveira do Hospital. “Quando começa a escassear trabalho na zona tem de se procurar mais longe”, justifica, enquanto mostra as máquinas com que habitualmente trabalha – uma serra circular com paralela, para “desfiar” ripas de madeira, que corta a direito, em esquadria, na vertical e na horizontal; uma outra serra circular de braço extensível, para cortar peças maiores; tupias (máquina que faz os buracos para as dobradiças), tico-ticos e aparafusadores.A carrpintaria de limpos não é, como o nome indica, um trabalho sujo, mas faz muito pó. Por isso Paulo Brito usa equipamento de protecção apropriado como óculos e auriculares. Dos filtros para pôr na boca e nariz já desistiu – “os de papel não prestam os químicos não me deixam respirar”. Paulo começa sempre o dia de trabalho às oito da manhã mas nunca sabe quando acaba. Apesar disso, diz ter finalmente encontrado a sua vocação. “Mudar agora, só com o euromilhões”.
Um carpinteiro que só descobriu a vocação depois dos trinta

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