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A história de uma burla que aconteceu na Chamusca

Edição de 25.07.2007 | Sociedade
A dona Rosa mora na rua principal da Chamusca e num dia do passado mês de Abril estava a lavar o degrau da porta quando um carro de média cilindrada parou à sua porta e um tipo bem posto, de meia idade, lhe acenou lá de dentro dando os bons dias e dizendo que trazia cumprimentos da filha da Dona Rosa que mora no Entroncamento. Num curto espaço de tempo o homem estacionou o carro, dirigiu-se à porta e com a efectividade que não se diferencia num homem cheio de boas ou más intenções, perguntou à dona Rosa como é que ela, com mais de 80 anos, ainda tinhas costas para andar a lavar o chão. Rendida à conversa, o que veio a seguir foi um recado da filha de Dª. Rosa, com quem ela tinha ido ao banco dois dias antes, o que era verdade, e que mandava dizer que as notas de cinquenta euros iam sair de circulação e que era preciso que fossem trocadas de imediato.“Ai Jesus, acho que tenho ali umas três, exclamou a dona Rosa que, entretanto, já tinha saído da ombreira da porta para o hall de entrada e levado atrás de si o homem de fato azul escuro bem aparentado e com ar de quem estava ali para fazer o bem e o bonito.Depois de se dirigir ao lugar onde guardava o dinheiro, uma boa parte dele junto nos últimos anos para pagar uma cirurgia aos olhos, a dona Rosa assustou-se quando percebeu que o individuo não tinha ficado à sua espera no hall de entrada e que sorrateiramente a tinha seguido até á sala onde foi conferir as notas que tinha guardadas.Depois de ver como o mealheiro da dona Rosa estava bem recheado, e de com ela ter comentado que não é fácil juntar assim tanto dinheiro nos dias de hoje, a mulher lá explicou ao gatuno, com a voz mais doce deste mundo, que o dinheirito era para pagar uma operação à vista, que andava desgraçada, e que para isso ainda faltavam algumas centenas de euros.Sorridente, bem disposto, atencioso quanto baste para que todas as palavras disfarçassem as más intenções dos seus actos, o homem inventou de repente a necessidade de ter de recorrer a uma esferográfica que a Dª. Rosa haveria de ter lá por casa para ele tomar nota de uns apontamentos. Depois de largar o pacote do dinheiro em cima da cómoda, e de virar costas para ir buscar a esferográfica que estava em cima de uma mesa mesmo ali à mão de semear, passou o tempo suficiente para que a dona Rosa deixasse de ver o intruso e o pacote com as notas de euros que ainda há poucos minutos estavam em segurança na gaveta a cheirar a roupa lavada da sua cómoda antiga.Quando correu à porta, na convicção de que o homem que se fez passar por bancário ainda podia não ser o gatuno que ela já estava a imaginar, só viu carros a passarem na estrada, e nem sombras do suposto bancário e do veículo que alguns momentos antes tinha ficado estacionado à sua porta, a prejudicar o trânsito, num troço da estrada nacional que atravessa a vila, e onde dois carros, quando se cruzam, deixam apenas uma nesga de alcatrão para quem circula a pé.Depois de ter passado dois meses na casa da sua filha, no Entroncamento, a recuperar do trauma que lhe causou a visita do ladrão, Dª. Rosa regressou a casa e já começou outra vez a juntar dinheiro para a cirurgia aos olhos.Agora já está mais avisada quanto à visita de estranhos. O degrau da porta continua por lavar desde essa altura, apesar de ser um trabalho que ela normalmente fazia em dois ou três minutos. Logo naquele dia havia de ter coincidido com a passagem na estrada do burlão. Dona Rosa já avisou, e fez questão de repetir para quem a quis ouvir numa roda de mulheres que, numa destas tardes, se encontraram numa mercearia da vila: “se a vista não me faltar entretanto, já tenho atrás da porta uma marreta para o caso de alguém mais alguma vez se atrever a passar do degrau da porta para dentro sem a minha autorização. Hei-de acertar-lhe bem na cana do nariz que é para ele sair de lá de forma a deixar um rasto de sangue para a polícia o poder encontrar”, brincou.

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