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Pedir de porta em porta em honra de Nossa Senhora da Paz em Benavente

Pedir de porta em porta em honra de Nossa Senhora da Paz em Benavente

Comissão de festas e população lutam por manter viva tradição religiosa

Na semana que antecede a festa, actuais e antigos organizadores palmilham as ruas de Benavente para reunir fundos que permitam custear as despesas da festa que anima a vila de 3 a 7 de Agosto.

A tradição diz que no último sábado antes do início das comemorações em honra de Nossa Senhora da Paz, em Benavente, o juiz, o secretário e o tesoureiro da festa devem realizar o primeiro de dois peditórios pelas ruas da vila. O objectivo é angariar dinheiro para financiar esta festa religiosa e ajudar diversas instituições da vila.Anualmente, são nomeados pela comissão organizadora da festa – que todos os anos é diferente – um juiz, um tesoureiro e um secretário – os chamados festeiros - que ficam encarregues de organizar a festa do ano seguinte desde contratar os artistas e grupos musicais, a enfeitar as ruas, às largadas de toiros e até aos comes e bebes. Nada pode faltar.Ao início da tarde do passado sábado a tradição voltou a cumprir-se. Paulo Rocha, mais conhecido por Salsinha, António Calado e Domingos Godinho, respectivamente, juiz, tesoureiro e secretário das festas de 2007, juntamente com amigos e antigos elementos da comissão organizadora percorreram, a pé, debaixo de um sol abrasador, as ruas da vila em busca de donativos.Trajados a rigor com batas brancas por debaixo de uma capa azul-clara com golas redondas, também brancas, e uma medalha simbólica que confirma a sua participação nas festas mais religiosas de Benavente, os 15 elementos tocam a todas as campainhas procurando o donativo. Por mais simbólico que seja. Divididos em grupos de dois ou três elementos organizam-se para que não escape uma única habitação ou espaço comercial.A tradição de realizar um peditório para ajudar as festas em honra de Nossa Senhora da Paz perde-se no tempo e ninguém se recorda, ao certo, quando começou. “Há mais de 80 anos que existe esta tradição. Tenho 62 e sempre me lembro de assistir ao peditório e à eleição da comissão organizadora durante a missa realizada no domingo de festa onde o padre revela os nomes dos novos festeiros”, explica João Correia, secretário das festas em 1977, que este ano veio ajudar no peditório.“Desde que participei na organização, há 30 anos, que disse que nunca mais participava uma vez que isto é muito cansativo, dá muito trabalho e não aproveitamos o que a festa tem de melhor que é o convívio. Mas, este ano, o meu cunhado é o tesoureiro e pediu-me ajuda e não consegui dizer que não. Estou a recordar velhos tempos”, justifica adiantando ainda que a organização da festa antigamente era muito mais dura.“Tínhamos que ir buscar as tronqueiras e abrir buracos para montá-las. Íamos buscar a areia ao rio e, naquela altura, só as mulheres dos festeiros é que ajudavam. Andávamos a trabalhar até às três da manhã. Hoje está tudo muito mais facilitado e existe mais ajuda”.Natural de Benavente, Maria Augusta, já aguardava, dentro de casa, os representantes do peditório para assim poder contribuir para as festas de Nossa Senhora da Paz. “Todos os anos ajudo. Acho muito importante participar uma vez que a festa não se faz sozinha e é preciso manter acesa a tradição. Se todos ajudarmos, mesmo que seja com pouco, já é muito bom”, salienta.Também Guilhermina Farinha, de 79 anos, faz questão de participar numa tradição muito antiga e não prescinde de beijar a bandeira com a imagem da santa que juiz, tesoureiro e secretário trazem sempre na mão. “Não dou mais porque não posso. Desde pequena que sou devota de Nossa Senhora da Paz e ela é que me tem valido nos momentos de aflição. Todos os anos vou à missa e à procissão em sua honra”, conta, emocionada.Apesar de contribuir sempre para as festa da Senhora da Paz, Maria Emília Freitas tem noção de que esta é uma tradição que está a morrer aos poucos. “As pessoas já não se interessam com o significado religioso das festas. Só querem ver os músicos, comer, beber e fazerem disparates”, lamenta. Luís Salsinha foi eleito juiz da festa em 2000 e desde então ajuda todos os anos na organização e no peditório. “Sei o trabalho que isto dá e, por isso, faço questão de ajudar. Quantos mais formos a realizar o peditório mais rápido termina e torna-se menos cansativo para todos. Temos que ter espírito de entreajuda”, alerta.O antigo juiz tem consciência que a tradição das festas de Nossa Senhora da Paz não tem a mesma força que há 50 anos atrás. “Temos que acompanhar a evolução da sociedade. Benavente tem crescido muito nos últimos anos com imigrantes e pessoas que, por diversas razões, decidem moram na vila. Para a nova população estas festas não têm o mesmo significado que para aqueles que, como nós, nasceram e foram criados nesta vila ribatejana”, refere.Mas quem pensa que a ajuda para a festa é feita apenas com dinheiro desengane-se. Há quem goste de contribuir também com animais. É o caso de José Palmar que todos os anos oferece alguns porcos para serem assados durante os dias de festa. “A minha mulher queria acabar com a criação dos porcos mas eu gosto e todos os anos ofereço alguns. É uma forma de ajudar esta festa que está cada vez mais difícil por de pé”, revela.
Pedir de porta em porta em honra de Nossa Senhora da Paz em Benavente

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