uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante

Falta vontade política para os biocombustíveis se imporem no mercado nacional da energia

Produtores e especialistas defenderam em Torres Novas mudança de estratégia e medidas claras
Edição de 05.09.2007 | Sociedade
“Há capacidade, há potencialidade e há qualidade. Falta haver os meios para resolver três problemas: competitividade do preço do produto, reconhecer a qualidade e capacidade do mesmo e ter capacidade de distribuição”. O assunto em questão era o fabrico de biocombustíveis e a conclusão ouvida por O MIRANTE, ao final da manhã de segunda-feira, pertence a Tiago Farias, professor do Departamento de Engenharia Mecânica do IST - Instituto Superior Técnico de Lisboa. O especialista visitou a Fábrica Torrejana de Biocombustíveis, com sede em Riachos (Torres Novas) e considerou-a um exemplo de “excelência”. Neste elo que envolve o combustível ambiental, já existe quem queira vender e quem queira comprar. Para Tiago Farias, só falta praticamente que o Governo assuma uma estratégia de implementação no mercado. Uma decisão difícil de tomar quando existem duas forças antagónicas em jogo: os limites de emissão de gases poluentes para atmosfera definidas pelo protocolo de Quioto, por um lado, e os grandes distribuidores de combustíveis por outro. E há ainda a carga fiscal sobre os combustíveis cobrada pelo Estado, que não poderá deixar de ser tida em conta.Para o professor do IST, está dado o primeiro passo para avançar com uma solução mais “amiga do ambiente” na locomoção dos veículos. A empresa de João Cardoso, situada na antiga destilaria de azeites, apresenta níveis de qualidade acima dos praticados em algumas fábricas do país. No entanto, é preciso mais para que o produto seja livremente introduzido no mercado dos transportes. Nesta área, será fundamental uma estratégia que demora a ser definida pela administração central. Os produtores de biodiesel estão limitados quanto à quota de produção e só podem vender aos grandes distribuidores de combustível. No caso da unidade torrejana, toda a produção é comprada apenas pela Galp Energia. “Tem uma vantagem: são cumpridores com os pagamentos”, sublinha o proprietário. No entanto, a fábrica tem capacidade para aumentar a produção e está também a investir no aumento da capacidade de armazenagem. “Neste momento temos excesso de capacidade de produção”, refere João Cardoso, “só que estou limitado. A legislação só me deixa vender a um entreposto ou a um grande distribuidor”. O empresário defende a abertura do mercado ao biodiesel.Enquanto os produtores pretendem vender, do outro lado da balança comercial, alguns consumidores querem já comprar mas não conseguem. “Há autarquias que estão a pensar em adoptar soluções de longo prazo, sustentadas”, anuncia Orlando Ferreira, director da Rodoviária do Tejo. A utilização do biocombustível seria possível nos transportes urbanos municipais, mas também as câmaras não sabem quando ou como poderão comprar o combustível ambiental. “O problema é saber se queremos o país para amanhã, ou se o queremos para os nossos netos”, afirma. “É preciso ter coragem para dizer: vamos por aí”, defende o administrador da empresa de transportes que incluiu a comitiva de visitantes à fábrica de Riachos. Para Orlando Ferreira, a questão ambiental está na agenda e precisa de ser definida pelo governo.O empresário João Cardoso já defendeu junto do executivo de Sócrates que a nova portaria para o sector inclua dois pontos considerados essenciais para os produtores – que a quota de produção seja aumentada e que os grandes distribuidores sejam obrigados a misturar uma percentagem de biodiesel nos combustíveis tradicionais. Para o dono da fábrica de Riachos, “há coisas que colidem, forças dentro do Governo que fazem com que não saiba para onde se há-de virar”.Tiago Farias explica, entretanto, que os preços praticados no gasóleo e gasolina em Portugal não têm razão de ser. “Esses produtos são mais baratos que a água. Dois terços do preço que pagamos são para impostos”. Existem ainda dúvidas se o biodiesel poderá ter um custo/preço competitivo. Segundo o especialista, a competitividade do produto terá que ser também definida ao nível mais alto da administração pública. “Haverá disponibilidade para o mercado, quando as regras do jogo tiverem mudado”.

Mais Notícias

    A carregar...