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Palhaço Pantufa há mais de trinta anos a fabricar gargalhadas

Personagem criada por António Júlio, actor multifacetado e sonhador

A Bienal de Palhaços e Artes Circenses decorre no fim-de-semana em Santarém. O MIRANTE aproveita a oportunidade para conhecer melhor o mais popular palhaço da cidade.

Em criança António Júlio via os palhaços no circo e sonhava com os seus botões que se lá estivesse dentro conseguia fazer melhor. “Quando ia ao circo a minha loucura eram os palhaços”. O seu potencial talento só acabou por ser posto à prova muitos anos mais tarde, no início da década de 70, quando com Carlos Oliveira (o conhecido Chona) formou em Santarém a dupla Pantufa e Farófia. “Eu era o Pantufa”. Era e é. Chona saiu do Veto Teatro Oficina para fundar o Teatrinho de Santarém mas António Júlio não perdeu o balanço que já havia ganho. Sozinho ou com outros parceiros continua a fazer rir crianças e adultos com a alegria contagiante da personagem criada por si, sempre acompanhada da velha mala de viagem e da estridente buzina.Aposentado há alguns anos, desde que fechou o stand de automóveis onde era vendedor, António Júlio Rodrigues dos Santos, 65 anos, não tem mãos a medir. É palhaço, contador de histórias, actor do Veto Teatro Oficina. A sua dedicação à arte da representação vem de há muito. Iniciou-se com 14 anos no Grupo de Teatro Amador da Juventude Operária Católica, em Santarém, com o drama “O Ser Humano”. Foi apresentador de espectáculos, encenador, carpinteiro de cena, autor, aderecista. Um autêntico homem dos sete ofícios que reconhece a metamorfose que se regista em si quando veste a pele de Pantufa. Só os olhos azuis ficam iguais. O fato onde predominam o azul celeste e a berrante cor de laranja são já imagens de marca. As pinturas faciais e a peruca fazem o resto. Até o estado de espírito muda. Às vezes, ao fim de semana, apetece mais ficar em casa do que palmilhar uma série de quilómetros (a sua fama já chega longe) para fazer um espectáculo: “Já cheguei a pensar que dava dinheiro para não ir. Mas quando chegamos e começamos a fazer os traços na cara acabou. Esquece-se tudo”.Pantufa assume-se como um “palhaço pobre”. António Júlio diz que não podia ser de outra forma. Não se trata de preconceitos ideológicos, mas garante que não conseguia vestir a pele do chamado palhaço rico. “O Pantufa foi sempre o tipo de palhaço que eu queria. O palhaço rico é mais normal. Eu gosto de ser mais anormal. Gosto de andar com coisas velhas, roto, todo escavacado. É um sonho de miúdo que foi crescendo”.E que continua a crescer e a aperfeiçoar-se todo os dias, por muito que se dominem as técnicas ou esteja apurado o espírito de improvisação. Porque fazer rir é muito fácil - “Basta dizer um palavrão”. Mas divertir sem recorrer a essas muletas já não é para todos. “Temos que fazer sair cá para fora o que a gente sente, mas com muito cuidado na linguagem”. Até porque do outro lado estão crianças.Pantufa é uma espécie de alter ego de António Júlio e dá-lhe motivos de orgulho de sobra. Do currículo consta um primeiro prémio no Festival Mundial de Arte, Música, Dança e Teatro em Nova Iorque em 1980. Foi homenageado na Bienal de Palhaços e Artes Circenses de Santarém em 2000. A próxima Bienal realiza-se já este fim-de-semana, mais uma vez organizada pelo Teatrinho de Santarém, mas este ano, para variar, sem Pantufa. “Não há qualquer problema, continuamos todos amigos”.António Júlio diz que enquanto puder vai ser o Pantufa. “Os anos para mim não contam”. O actor gosta de olhar para o lado positivo da vida. “Somos muito bons a antecipar e a arranjar problemas, muitas vezes onde não os há”. É para ajudar a combater esse fado lusitano que vai continuar a contar histórias em escolas e festas e a semear ilusões entre as crianças. Porque enquanto houver crianças vai haver palhaços – “Ai pois vai!”. Mesmo sabendo que têm uma forte concorrência por parte da classe política – “todo o político faz rir”.

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