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A mulher que aos sete anos já vendia roupa

A veia comerciante de Cristina Vital vem de nascença e é hereditária

Desde criança que se lembra de passar todas as horas livres na loja de fazendas que o pai tinha. Não é de estranhar que lhe tenha seguido as pegadas e hoje seja ela própria proprietária de um estabelecimento de roupas e acessórios, em Tomar.

Edição de 19.03.2008 | Identidade Profissional
“A primeira coisa que vendi foi um chapéu-de-chuva a uma cigana, tinha sete anos”, diz Cristina Vital enquanto compõe a sua loja com a nova colecção de Primavera/Verão. Abre o baú das recordações para dizer que não se lembra de ter feito mais nada na vida a não ser vender roupa. Além de estudar, claro. Mas até os estudos ficaram para segundo plano muito cedo. Aos 14 anos sai da escola sem acabar o 9º ano porque, como diz, o que gostava era de trapos e para isso não era preciso ser licenciada.A morte do pai, quando tinha apenas nove anos, abalou-a profundamente e enraizou ainda mais a vontade de seguir a profissão do progenitor e um dia ter algo a que pudesse chamar seu. A loja que funcionava como a sua segunda casa acabou por fechar portas pouco tempo depois de o pai a deixar.Quando largou os estudos trabalhou em várias lojas de roupa da cidade, algumas das mais conceituadas. Ia ganhando experiência enquanto sonhava com o seu próprio estabelecimento. Aos 17 anos fez um interregno na sua vida e partiu para a aventura – foi viver com o irmão mais velho (Vital) para o Algarve. “Ele era guarda-redes de futebol e foi para o Portimonense. E eu segui-o”. Durante dois anos não fez nada, a não ser ver montras. Voltou a seguir o irmão quando ele foi para o Sporting. Viveu em Lisboa apenas meia dúzia de meses, o suficiente para arranjar amigos que a ajudaram a realizar o seu sonho. “Eu, a minha cunhada e a mulher do Rui Águas juntámo-nos e abrimos uma loja de roupas em Tomar”. Era uma casa pequenina, na rua de São João, mas rapidamente ganhou fama por ter vestuário diferente. Cristina diz que sempre considerou que as mulheres da região se vestiam de forma muito conservadora e quis sacudir essa tradição. Ainda hoje considera que no norte do país as mulheres vestem de forma mais descontraída e não sentem tanto o peso da idade.Na sua loja, que entretanto passou para uma casa maior, mantendo-se na mesma rua, Cristina sente ser sua obrigação contribuir para transformar e alterar a forma de vestir de quem ali entra. “Há mulheres que a idade se nota pela forma como vestem”, diz, adiantando que se pode vestir coisas diferentes, que realcem as qualidades físicas das pessoas, sem ser preciso abrir os cordões à bolsa. “Não é preciso gastar fortunas para andar na moda. O segredo está às vezes num simples pormenor”.Quem ali entra sai sempre satisfeito. É por isso que, como diz, mais que clientes tem amigas. “Sou incapaz de vender uma peça que acho que não fica bem à cliente mas arranjo-lhe sempre alternativa”. Não a afecta nada desarrumar as prateleiras para encontrar a peça de roupa certa para a cliente. “Estamos cá para isso”, diz com um sorriso nos lábios. Cristina não esquece com quem trabalha e lhe dá uma preciosa ajuda nas alturas de mais movimento. “Tenho uma excelente ajudante, nem todos podem dizer o mesmo”.Acérrima defensora do comércio tradicional a lojista sempre fez questão de ter o estabelecimento na zona histórica da cidade. “Luto muito pela manutenção do comércio tradicional, tem uma relação muito mais personalizada com os clientes. Os grandes centros comerciais são muito impessoais, não existe qualquer empatia entre quem vende e quem compra”, refere. Uma atitude, confessa, que seja eco das suas origens. De quem praticamente nasceu dentro de uma loja de fazendas.

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