O bandarilheiro que se tornou artesão tauromáquico
Francisco Palhota iniciou-se nesta arte depois de ser despedido
O serralheiro mecânico de profissão, Francisco Palhota, aventurou-se na arte de construir peças inspiradas na tauromaquia depois de ficar sem emprego. Foi bandarilheiro e não esconde a paixão pela festa brava.
Francisco Palhota, o artesão tauromáquico residente em Vila Franca de Xira, trabalhou toda a vida como serralheiro mecânico. A paixão pela festa brava levou-o a tirar a alternativa de bandarilheiro, em 1975, na Feira do Ribatejo, em Santarém. A ideia criativa de construir peças taurinas surgiu há cerca de oito anos, depois de ter sido alvo de um despedimento colectivo da fábrica onde trabalhou vários anos no Porto Alto (Benavente). Antes de estar desempregado já fazia uma peça ou outra nos tempos livres. Com mais disponibilidade passou a dedicar-se a esta arte a tempo inteiro. Confessa que já fez perto de uma centena de peças. Todas com um simbolismo tauromáquico. A peça de que mais gosta e que mais o marcou é o punho de estoque, símbolo dos bandarilheiros.Francisco Palhota, natural de Salvaterra de Magos, onde nasceu há 61 anos, conta que a inspiração não tem hora. A maioria das vezes surge, à noite, quando está deitado. É rara a noite em que não sonha com toiros, corridas ou tentas. Também acontece muito ir no meio da rua e surgir uma ideia. Do nada. Basta olhar para a paisagem ou para as pessoas. “Isto nasce com a pessoa e quando somos apaixonados pela festa brava não pensamos em mais nada”, explica com orgulho.Uma peça demora em média cerca de três horas a fazer. Quando está de volta de uma peça o artesão nem dá pelo tempo passar. Fica tão entretido na oficina que construiu no quintal da sua casa que, muitas vezes, esquece-se de almoçar ou jantar. “Como vivo sozinho não tenho ninguém me lembre que são horas de comer, por isso, vou ficando até as obras ficarem prontas e nem reparo nas horas”, conta.O antigo bandarilheiro conta que o próximo projecto a colocar de pé é uma pousada do campino em miniatura em homenagem à colectividade azambujense com o mesmo nome. Vai depois tentar vendê-la àquele município. É assim que Francisco Palhota ganha a vida. Realiza exposições onde mostra o seu trabalho e vende as suas peças. Quando lhe pedem também faz troféus. As peças de “Melhor Pega” e “Toiro mais bravo” numa corrida do ano passado na praça de toiros do Campo Pequeno, em Lisboa, são de sua autoria. Trabalha em chapa de inox, xisto, mármore, latão e cabedal. Actualmente encontra-se em negociações com várias autarquias para realizar mais exposições. Como a imaginação não pára o artesão também executa peças com adereços tauromáquicos para os pratos de espetadas que vão à mesa nos restaurantes. “Sempre são mais uns trocos que entram e as pessoas acham piada porque é diferente e original”, refere.Francisco Palhota recorda com nostalgia o tempo que enfrentava os toiros, sem medos, nas arenas. Nunca teve nenhum acidente grave. Apenas algumas mazelas. Mas não se esquece a corrida que realizou na praça da Nazaré, distrito de Leiria, em que o toiro lhe deu uma cornada. “Dei uma voltareta de dois ou três metros para o ar. A sorte é que depois de marrar ele foi para a frente. Se tivesse recuado é que não sei o que podia acontecer. Nesse dia tive medo”, recorda com saudade.Francisco Palhota lamenta a diminuição do número de aficionados nos últimos anos. E aponta o elevado preço dos bilhetes como um dos factores fundamentais. Além disso, os jovens têm outros divertimentos que os afastam das praças e da festa brava. Festa que o ex-bandarilheiro não falta é ao Colete Encarnado. Convive com os amigos e fala sobre o que mais ama: os toiros. Não perde os fados. Muito menos as largadas. Apesar da coluna não permitir grandes aventuras, Francisco Palhota confessa que ainda gosta de ir para dentro da manga esperar o toiro. Em jeito de confissão explica que, antes de morrer, quer fazer uma réplica da ponte de Vila Franca de Xira. “É o ex-libris da cidade onde vivo há muito tempo”, explica com uma pontinha de emoção.
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