
“Os autores de província foram sempre tramados”
António Valdemar critica macrocefalia da capital e desinteresse dos média nacionais pelo país real
Jornalista com a carteira profissional número 24, homem de cultura, estudioso da gastronomia, António Valdemar é um homem sem papas na língua nem peias na escrita. Nesta entrevista, aproveitando a sua presença recente na redacção de O MIRANTE, em mais uma sessão de “Encontros no Jornal”, critica os moldes actuais do Festival de Gastronomia, surpreende-se com o número de jornais editados em Santarém e diz que José Rodrigues dos Santos não pode ser considerado um escritor.
Santarém tem alguma relevância em termos culturais a nível nacional?Tem desde sempre, desde o Afonso Henriques…Mas já terá tido épocas mais pujantes.Isso do claro/escuro não é apenas da pintura do Rembrandt. É parte indissociável de qualquer história, seja ela qual for. Santarém tem tido os seus claros e escuros.Qual é a fase actual?Isso vocês sabem melhor do que eu. Aqui, sou um passageiro em trânsito.A distância por vezes é favorável a esse tipo de apreciações...Isso já dizia o Eça de Queirós. As coisas vistas de longe têm uma fisionomia mais risonha. Santarém foi durante os séculos XIX e XX um viveiro de cultura. Há personalidades das mais diferentes áreas, da cidade e do distrito, afirmadas a nível nacional e internacional. Algumas das quais sem terem nada a ver com a cidade e com o distrito. Como é o caso do Saramago.Os autores de província têm as mesmas oportunidades que os de Lisboa ou Porto?Não têm. Os autores de província foram sempre tramados. A não ser que tenham promoção ou tenham amigos. Ou estejam ligados a editoras que hoje são multinacionais e que podem fazer de um Rodrigues dos Santos um escritor…Isso é uma crítica?É. Porque não a hei-de fazer?Não se pode chamar escritor a José Rodrigues dos Santos?Não.E a Miguel Sousa Tavares?Já é melhor, mas também não é nada por aí além. O Miguel tem outra raça e também outra genealogia. Já é uma prosa e uma construção com raízes cromossomáticas.“O director do Festival de Gastronomia não admiteas mais pequenas críticas”Que afinidades tem com esta região?Começo por vir a Santarém à Feira do Ribatejo, pelo Diário de Notícias. Foi a minha primeira identificação com a região, no começo dos anos 60. Apanho a feira, com o Celestino Graça, depois apanhei as cheias e também o São Martinho na Golegã. São os meus anos 60 de Ribatejo.Mais tarde regressaria.Nos anos 80, quando o professor Veríssimo Serrão, de quem sou amigo há muitos anos, funda o Politécnico, venho dar aulas de comunicação social. Estive em Santarém dois anos e meio e até foi uma coisa um pouco incómoda. Tinha alunos muito mais velhos do que eu, como o António Cacho, que iria agora fazer 90 anos, o padre Poças, ou o engenheiro Mourão.Há um terceiro período que corresponde ao Festival de Gastronomia.Do fim dos anos 80 até 2000 faço a cobertura do festival para o Diário de Notícias, sucedendo ao Melo Lapa, com quem me dava muitíssimo bem. Até que… O ambiente não era muito agradável. O Carlos Abreu (director do festival) não admite as mais pequenas críticas e eu fiz algumas observações que foram mal recebidas. E não havia assim nada de especial…O Festival de Gastronomia ainda tem alguma coisa a dar?Não sei. Aquilo está muito industrializado. O modelo está um bocado esgotado. Acho, em primeiro lugar, que um festival de gastronomia tradicional deve ser mesmo tradicional. Já nessa altura, quando comecei a verificar que havia transgressões aquilo que é a comida regional, fui para o ajuste de contas…Em que sentido?Peguei no livrinho do festival e decidi chamar os bois pelos nomes. Abri no dia da Serra da Estrela, que tinha um queijo francês, o que era uma coisa inconcebível. Depois apanho um leitão que tinha 10 quilos… Aquilo não era leitão, era porco. Fiz uma página no Diário de Notícias sobre gastronomia que o Carlos Abreu, bem, ficou… Mas depois as relações restabeleceram-se.Continua a frequentar o Festival de Gastronomia?Frequento como cliente. A minha mulher é aqui da zona, de Assentiz (Torres Novas), e apareço também quando tenho um convite de uma região de turismo. O que acha dos moldes actuais do festival?Verifico que já querem fazer comida de imaginação e outro tipo de gastronomia que não se enquadra nos moldes deste festival. Se querem que a gastronomia seja património cultural, terá de obedecer a regras tradicionais e aquilo que dá o carácter e a marca de uma identidade ao nível dos aromas, dos sabores e dos paladares. Acho legítimo fazer uma recriação disso, mas não naquele local.

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