De rapaz tímido da província a cromo do Bollycao
Filipe Santos esteve fechado numa casa quatro meses sem ver o Sol nem a Lua
Catapultado de repente para fama pelo programa televisivo Operação Triunfo, Filipe Santos digeriu bem a ressaca que se segue à euforia. Diz que não é obcecado pela projecção mediática e diz que só vence na música quem trabalha. Porque vozes há muitas.
O que mudou mais na sua vida depois da Operação Triunfo?Tudo ficou diferente. Quando saí da Operação Triunfo já não podia ir ao supermercado porque as pessoas abordavam-me para me dar conforto…Sentia-se constrangido com essas abordagens?Sim, porque é muito estranho. Nós estamos fechados quatro meses dentro de uma escola sem ver o Sol e a Lua e de um momento para o outro saímos e está tudo diferente. Porque nos tornámos cromos do Bollycao, por exemplo, ou porque nos tornámos caras de embalagens de gomas. Todo o marketing que está em volta torna-nos figuras mediáticas. Uma pessoa até me chegou a dizer, depois de me abraçar no Metro de Lisboa, que eu tinha entrado na sua casa sem bater à porta, que fazia parte da família e que tinham um carinho especial por mim. Qual foi a manifestação mais estranha de que foi alvo?Há muitas abordagens estranhas e ainda continuam a aparecer. Uma vez apanhei um acidente na A1 na zona de Vila Franca, fiquei parado no trânsito, e começo a ouvir um carro de tunning com o som em altos berros que pára ao meu lado. De um momento para o outro abrem o vidro, sentam-se na janela e começam a gritar que me conheciam e que eu tinha uma voz do… e dizem uma grande asneira.Ser figura pública restringiu a sua liberdade.Muito. Gosto muito do Entroncamento porque as pessoas sempre me conheceram aqui e já estavam habituadas ao Filipe. Condicionou a sua vida devido a essa pressão? Havia sítios que evitava?Isso obrigou-me a ser mais rotineiro, apesar de gostar de andar muito de um lado para o outro. E costumo andar, só que mais raramente.Nunca usou truques como óculos escuros ou boné para passar despercebido?Não. O público português também não é fanático. Em Cabo Verde ainda hoje tenho a noção de que não posso sair à rua. Provavelmente lá faria isso. Mas cá não é preciso.Quer dizer que está fora de hipótese ir a Cabo Verde tão cedo?Não. Mas eles realmente ligam muito a essas coisas. É um povo espectacular.Como foi estar quase quatro meses enclausurado?Foi muito complicado… Não se fartou do espaço e das pessoas?Não. Tínhamos tanto em que pensar, tínhamos tantas aulas, tantos objectivos para transpor se quiséssemos chegar mais além… Acho que aproveitei ao máximo e dediquei toda a minha energia a lutar comigo próprio. Do que senti mais saudades foi do cafezinho, de coisas que se calhar as pessoas no dia a dia não pensam. Passei a dar muito mais valor às coisas simples da vida. Como estar numa esplanada a ouvir a água a cair, a ver o céu, a ver os carros e as pessoas a andar. Lá não tínhamos qualquer contacto com a natureza. A relação com os outros concorrentes era pacífica?Estávamos muito unidos. Ainda hoje somos, porque criámos amizades quase como se fossem de infância. Foi viver 24 horas sobre 24 horas com aquelas pessoas. De vez em quando encontramo-nos.Era capaz de se meter novamente numa aventura dessas?Não. É uma experiência única. Só deve ser vivida uma vez. Por isso é que, sabendo o feitio que tenho, aproveitei ao máximo e retirei todo o sumo que aquilo tinha para dar.Essa exposição foi fundamental na sua carreira?Foi muito.Foi o preço a pagar por toda essa exposição e os constrangimentos que viveu depois?Sim, mas a vida é feita de sacrifícios. E se pensarmos no sacrifício de estar numa escola em regime de internato e comparar com coisas tão piores na vida… Estava a viver um sonho, acordava todos os dias dentro de um sonho. Nunca pensou desistir?Passou pela cabeça de todos nós abandonar ao final de uma semana ou 15 dias. É aquele primeiro impacto. Perder aquelas pequenas coisas do quotidiano que nunca pensamos nelas.No seu subconsciente nunca chegou a desejar que fosse o escolhido nessa semana para ir embora?Há sempre aqueles desabafos de que depois nos arrependemos. Fui o mais nomeado e houve uma certa altura em que pensava: há-de ser o que Deus quiser. Porque é mesmo Deus que manda.É uma pessoa crente?Sou, muito. Temos um projecto de vida e quando chegar a altura, é. Nesse caso, fui até à final.“Não tenho a paranóia de ser esquecido”Não se sentiu como uma espécie de mão-de-obra barata nas mãos de uma grande produtora de espectáculo?Não vejo a Operação Triunfo como um programa de televisão. Foi isso que me levou a concorrer. Aquilo em primeiro lugar é uma escola, que tem objectivos, conteúdos e um currículo que todos temos de seguir, dado por professores. E cada professor tem o seu método. Só aquele elenco de professores era de luxo. Só tinha era que aproveitar estar numa escola daquelas de borla.Mas havia a faceta Big Brother…Não, porque os quartos não eram filmados. Big Brother no sentido em que vocês estão fechados mas estão a ser projectados no espaço público. Exacto. Há toda essa exposição e há as formas de promoção para o programa ganhar audiências. Lembro-me de uma capa do jornal 24 Horas que relatava que eu e a Rosete Caixinha tínhamos um caso.E não tinham?Não, éramos apenas grandes amigos.Não teve nenhum caso lá dentro?Não tínhamos tempo para isso, nem espaço…O que faziam nos períodos em que não estavam a ser filmados?Estávamos na biblioteca a ler, a ouvir música. Aquilo era um luxo. Estávamos num paraíso.Só faltava a liberdade.Pois…Tinha consciência que esse era o preço a pagar?Sim. A Operação Triunfo vendeu mais de cem mil discos. Ganharam alguma coisa com isso?Ganhámos e ainda hoje estamos a ganhar, porque há os discos que ainda se vendem, os direitos de autor… Não enriqueci mas deu para ganhar algum e acabar o curso.É uma pessoa tímida?Sou.A sua forma de estar perante o público não mudou?Espero que não. Continuo a sentir alguma ansiedade antes de entrar em palco. Depois liberto a tensão através da música. Há muitos talentos que ficam pelo caminho porque nunca tiveram uma montra dessas para os projectar.Também há muitos que ficam pelo caminho e passaram por programas do género. A música tem de ser vista como um trabalho. Tem que se trabalhar a sério. E acho que muitos encaram a música como uma forma de ganhar dinheiro fácil. Não se preocupam em criar algo de novo, em ter trabalho. Aqueles que são compositores conseguem vencer, mais cedo ou mais tarde. Agora, vozes há muitas… É um adepto da transpiração e não só da inspiração.Sim. Este projecto demorou três anos a ser posto de pé. Não temeu que durante esses três anos a sua projecção se diluísse?Não tenho essa paranóia de ser esquecido. Nem penso muito nisso.
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