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Portugueses cada vez mais dependentes do exterior para comer

Cereais, grão e peixe entre os alimentos cujas importações aumentaram substancialmente

Plantações artesanais, produções pequenas, IVA elevado e preços pouco competitivos. É este o retrato da agricultura nacional.

Edição de 12.06.2008 | Economia
Os portugueses estão cada vez mais dependentes do exterior quando chega a hora de pôr a comida na mesa: 85 por cento dos cereais vêm de fora e as leguminosas só cobrem 13 por cento das necessidades. Num país de alimentos importados, o vinho, ovos e mel ainda são produtos da terra. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), entre 2003 e 2006 o consumo de cereais manteve-se estável: os portugueses consumiram cerca de 1.330.000 toneladas de cereais por ano. Com um mercado nacional a produzir cada vez menos, os vendedores precisaram de recorrer ao mercado externo. Há 18 anos, os campos nacionais de cereais e arroz produziam quase metade do que os portugueses consumiam. Treze anos depois, a produção destes produtos diminuiu, cobrindo apenas 27,4 por cento do consumo anual. Quando se analisa apenas os cereais produzidos em 2006 a situação é ainda mais preocupante: apenas 16 por cento das necessidades são colmatadas pela agricultura portuguesa. Dados do INE indicam que o país importa mais de 90 por cento de trigo e de cevada, cerca de 70 por cento do milho e mais de 60 por cento de centeio. Hoje, “as farinhas têm de ser importadas porque não há quantidade suficiente nem para fazer o pão e os bolos”, lembrou Domitília Lopes da Silva, secretária-geral da Associação Nacional de Comerciantes e Industriais de Produtos Alimentares. “Muitos agricultores deixaram de produzir”, lembrou a responsável da associação que em poucas palavras ilustra a situação da agricultura portuguesa: plantações artesanais, produções pequenas, IVA muito elevado e preços pouco competitivos.“Houve gente que abandonou o campo rumo às grandes cidades à procura de uma vida melhor, porque perceberam que era impossível competir com os estrangeiros. Além disso deixámos de ter muitos produtos porque a União Europeia disse que não era para plantar mais, como aconteceu com os cereais”, recorda. Existem outros alimentos nacionais que começam a perder importância face ao mercado externo sem que ninguém pareça dar conta, como é o caso do feijão seco e do grão-de-bico. Há quase duas décadas, os portugueses produziam mais de metade das leguminosas secas necessárias. Já em 2003, 87 por cento era importado.Apesar de os agricultores estarem a produzir menos, os produtos nacionais continuam a ter procura, segundo a presidente da Associação de Comerciantes e Mercados de Lisboa, Luísa Carvalho. “Nós temos um pouco de tudo, mas a produção é escassa e os preços não são competitivos”, afirmou Luísa Carvalho, contando que os operadores dos mercados recebem queixas de quem não consegue encontrar nas bancas o que é “nacional”.Por enquanto, está garantida a produção nacional de arroz, que cobre 80 por cento das necessidades. Também o mercado do mel é referenciado pelo INE como conseguindo responder a todos os pedidos dos portugueses, assim como os ovos que até ultrapassam as necessidades. A azeitona, o leite e seus derivados apresentam valores muito próximos do necessário, rondando os 95 por vento.Os dados do INE revelam que nas bancas há cada vez menos pescado nacional: se em 1990 representava 79 por cento do consumo nacional, em 2003 não chegava para cobrir metade das necessidades. Também no que toca às “carnes e miudezas” assiste-se a uma redução da presença destes produtos nas prateleiras dos supermercados que chegaram a representar noventa por cento do necessário na década de 90. Hoje, quase um terço já vem de fora.

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