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Um agricultor “inventor” que se preocupa com a reciclagem e a segurança

Um agricultor “inventor” que se preocupa com a reciclagem e a segurança

Álvaro Ramos é um ferroviário reformado que começou a estimular a criatividade aos 11 anos

Invenções ou aperfeiçoamento de equipamentos já inventados. Ao longo da vida Álvaro Ramos não deixou nunca de soltar a sua imaginação e dar forma ao que ela lhe foi ditando, utilizando a sua habilidade manual.

Pêssegos, laranjas, damascos, pêras, ameixas, morangos e framboesas. Álvaro Simões Ramos começa por mostrar uma colorida e diversificada taça de frutas, todas elas provenientes de culturas da sua horta, no lugar de Curvaceiras, Paialvo, em Tomar. A mesma onde tem espalhadas, um pouco por todo o lado, maquinetas que nasceram da sua imaginação. Todas feitas a partir de materiais recicláveis e com vista a ajudar nos trabalhos agrícolas. Natural de Árgea, uma aldeia de Torres Novas, Álvaro Ramos, 64 anos, reformou-se há cerca de onze anos do ramo ferroviário, altura em que começou a dedicar-se ao fabrico de máquinas e ferramentas agrícolas, para proveito próprio. “O objectivo é facilitar o trabalho do campo mas a minha primeira preocupação é sempre a questão da segurança”, explica. Porque um dia alguém se magoar com uma engenhoca sua é um risco que não quer correr. Assim, não surpreende que os morangos estejam plantados em tambores de máquinas de lavar loiça ou roupa ou que um motor de uma das maquinetas provenha de uma motorizada velha.“Trabalhar com imaginação faz bem ao coração”, defende com humor. Na horta, uma maquineta de um tom amarelo-torrado desperta a curiosidade. É uma máquina de semear milho. A invenção conta sete anos. A parte de trás foi construída a partir de uma moto-enxada que estava prestes a ir para a sucata. Mais tarde, o agricultor aplicou-lhe o cilindro que serve de roda dianteira e adaptou ao engenho o motor de uma motorizada velha. De ambos os lados tem depósitos que se abrem para deixar cair o milho. “Em vez de ser manual, esta máquina tem um motor auxiliar, que semeia dois regos de cada vez e tapa-os logo”, explica, salientando as características artesanais do invento, destinado a uma gerar uma produção caseira. “Esta máquina faz o dobro de trabalho de uma máquina manual de semear milho e, como tem um motor, é uma tarefa que não exige muito esforço da minha parte”, acentua. Outra das peças que mostra é um “amontoador de batatas”. Exemplifica para mostrar como é simples mas funcional. A ferramenta composta por um cano de ferro com uma espécie de pá aplicada, abre os regos para ali se colocar as batatas. Existe ainda uma outra ferramenta que serve para arrancar as batatas e que, ao mesmo tempo, regula a fundura da concha. “O tractor vai a andar no rego e isto vai espetado no chão e arrancando as batatas ao mesmo tempo, que ficam ao cimo da terra. Podiam andar aí quinze pessoas a arrancar batatas que não me davam vencimento”, diz. Normalmente, este tipo de máquinas tem o vértice virado para cima e ao centro a peça que se fixa ao tractor, atirando batatas para um lado e para o outro, esfolando-as. Para evitar essa situação Álvaro Ramos criou esta ferramenta, a partir de uma charrua de compra, embora ainda não esteja satisfeito. “Vou fazer uma peça giratória que faça vibrar a parte de trás para limpar a batata. Quero que esta caia limpinha, em cima da terra, sem nenhuma ficar enterrada”, explica. Já tem o esquema estudado mas precisa de tempo aperfeiçoar a ideia. Normalmente não demora muito tempo para conseguir pôr em prática o esqueleto que tem na cabeça. Outra maquineta, esta de grandes dimensões, tem como base um antigo depósito de vácuo de um dos vagões da CP ao qual foi adicionado um filtro, para não entupir, e uma mangueira normal. Tem como objectivo facilitar a tarefa de pulverização. “Meto cem litros de água e depois três quilos de pressão de ar comprimido. Atrela-se ao tractor e depois é só abrir a água. Não ando com pesos às costas e gasto cem litros de água, enquanto com um pulverizador normal só leva 10, 15 litros”, explica.Álvaro Ramos inventou ainda a máquina onde fez os mosaicos que colocou na entrada da horta. Trata-se de um sistema com um balancé que, após ganhar balanço, comprime e compacta o cimento numa forma previamente escolhida. “Apesar de ser um processo artesanal cada mosaico demorava um minuto a fazer”, explica. Também a “rede tremida” com o qual veda algumas das plantações foi composta a partir de uma engenhosa máquina composta pelo motor de uma máquina de lavar e diversos materiais reaproveitados de outros utensílios. Para conceber as suas engenhocas, Álvaro Ramos tem em sua casa uma oficina e carpintaria composta por máquinas que também por ele foram criadas. É ainda visível o apreço de Álvaro Ramos por tudo o que é ferramentas antigas. Tem numa garagem de sua casa centenas de peças e ferramentas ligadas à actividade agrícola, algumas com mais de cem anos. Um espaço criado, sobretudo, a pensar nas gerações futuras. “Há muitas coisas que aqui estão que os mais novos nem sabem que existem se não lhes for explicado”, refere. Peças antigas que pretendem, acima de tudo, retratar o “sacrifício dos antigos” que trabalhavam com ferramentas simples e artesanais, algo a que o agricultor dá muito valor.
Um agricultor “inventor” que se preocupa com a reciclagem e a segurança

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