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“As pessoas vêm a Fátima como vão ao Benfica”

Edição de 26.06.2008 | Entrevista
Chamam-lhe padre mas a Igreja Católica demarca-se das suas práticas. Sente-se um proscrito?A Igreja Católica é um grupo de homens. Eu sou um homem da Igreja de Deus, em relação à qual a Igreja Católica se foi desencaminhando. É bom fazermos essa distinção. Mas utiliza práticas e rituais da Igreja Católica.São práticas que já existiam antigamente. A Igreja Católica tem muito pouco de novo. Nós é que pensamos que veio trazer uma grande revolução. O senhor é cristão mas não é católico?Não. Sou um padre profundamente católico.Mesmo que a Igreja Católica não o reconheça como tal?Não tem nada que reconhecer, eu é que tenho de os reconhecer a eles. Tornou-se incómodo?Obviamente. Tornei-me incómodo intelectualmente. Porque a Igreja Católica não tem muito a ver com o evangelho, mas sim com o que estão aqui agora a fazer, com os negócios…O senhor também parece ter aqui um bom negócio?Qual negócio?Este, como exorcista.Não é um negócio. Sou reformado da América, fui professor universitário.Não precisa disto para viver?Nada, absolutamente nada. As pessoas dão o que querem.Não é uma provocação abrir consultório em Fátima, o símbolo da Igreja Católica em Portugal?Não, não. Estava à espera que alguém falasse, mas ninguém falou. Está de relações cortadas com a Igreja Católica, com as suas hierarquias?Não. Ando a tratar para aí quarenta padres, como é que podia cortar relações?Quem está do lado certo de Deus, o senhor ou a hierarquia católica?Penso que sou eu. A Igreja é uma política. Porque a igreja primitiva, a Igreja de Deus, não era bem isto.Isto o quê?Só para dar um exemplo: estamos aqui em Fátima e se Nossa Senhora apareceu ela pediu penitência e oração. Pois a fé desta gente é tão grande que lhe respondeu com uma catedral de 80 milhões de euros. São pessoas que não acreditam. Porque se acreditassem em Fátima respondiam de outra maneira.O senhor acredita nas aparições?Prefiro não dizer nada sobre isso. Sou um homem que vou lá, mas tenho as minhas dúvidas… Eram três criancinhas, duas morrem não se sabe bem porquê e há uma que não podia falar com ninguém. Para qualquer homem de Deus que se sinta responsável isto é incómodo. A Igreja Católica é uma seita, como é a Jeová, a Protestante. Aqui a pergunta será: qual é a seita que se parece mais com a verdadeira religião de Cristo?E qual é, na sua opinião?É duvidoso. A Igreja que se aproximar da Sagrada Escritura é a verdadeira. O resto somos nós que inventamos santos, criamos santos…Os santos não existem?Existem pessoas boas. Como o Papa João Paulo II, com quem convivi, ou a madre Teresa de Calcutá, que eu via na Comunidade Europeia.Trabalhou na Comunidade Europeia?Estive lá como representante da ONG (organização não governamental) suíça Christian Solidarity Internacional. A madre Teresa era uma pessoa que me perguntava muita vez: “Será que Deus existe realmente?”. Porque qualquer cristão deve fazer essa pergunta.E o que respondia?Não dizia nada. A dúvida dela era a minha. Tem dúvidas acerca da existência de Deus?Na existência de Deus não, mas sim no Deus que nos vieram apregoar. Deus é o mesmo em toda a parte, chame-lhe o nome que se quiser. Deus é uma energia positiva. Como analisa as promessas dos peregrinos em Fátima, os esforços que fazem?Hoje em Fátima há poucos peregrinos e muitos turistas. O vir a pé não é um dado adquirido de sacrifício e devoção. Eu vejo-os passar. Muita gente até utilizará a vinda a Fátima para outras coisas.Como por exemplo?Muitas coisas que nem se devem dizer. Antigamente quando alguém vinha a Fátima não trazia carros de apoio, não trazia cãezinhos, não trazia telemóvel, não trazia namoradas. Há uma grande diferença entre um peregrino e um turista. As pessoas vão ao Benfica porque se sentem bem. E vêm a Fátima pelas mesmas razões. As pessoas só vêm cá porque se sentem bem.

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