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O gosto bom do sangue

Edição de 26.06.2008 | Entrevista
Quando calha fazer algum pequeno golpe num dedo mantém a tendência de infância de chupar o sangue que escorre. Diz, com um sorriso maroto, que lhe sabe bem. Acrescenta que ainda lhe sabe melhor dar o seu sangue a quem precisa. Mário Gomes, 58 anos de idade, feitos a 25 de Maio, é Presidente do Grupo de Dadores de Sangue de Pernes e como trabalha para o Círculo de Leitores começa a sua actividade profissional quando a noite cai – “É quando as pessoas estão em casa”. Mas não é vampiro nem tem tendência para isso. A primeira vez que deu sangue estava na tropa e fê-lo na tentativa de gozar uns dias de licença. Só muitos anos depois voltou a pôr as veias à disposição. Nunca mais parou. Contabiliza já 47 dádivas.Não foi à guerra. A meio do serviço militar chegou a estar mobilizado para a Guiné. A especialidade era operador-cripto. Codificava e descodificava mensagens. Assim que recebeu a notícia sentiu agravar-se um problema de arritmia. Com mais umas doses valentes de café foi mandado para casa. Regressou a Pernes, onde sempre viveu. Continuou a trabalhar na fábrica de torneados da família. Mais tarde, quando os torneados deixaram de dar, teve uma loja de móveis. Nas horas vagas conduzia a ambulância da Misericórdia local. Foi nessas viagens que conheceu a esposa, Maria Aurora, uma enfermeira do concelho de Odemira, que prestava serviço no hospital de Pernes.No tempo de estudante fez o antigo 5º ano na Escola Industrial. Vinha todos os dias para Santarém numa camioneta da Ribatejana contratada pelos pais dos estudantes de Pernes. Na altura as câmaras municipais não tinham transportes escolares. A cidade era calma. Não havia desertificação. Com ele vinham trinta colegas. “Aqui há tempos a Misericórdia de Pernes contabilizou 150 jovens da terra com curso superior. Só três ou quatro é que trabalham na vila”, conta. Tem dois filhos. Um deles trabalha na Irlanda. Lá em casa só ele é dador de sangue. Recorda tempos de voluntariado à séria. Na política. Nas colectividades. Agora é diferente, explica. Bairrista até à medula lamenta que em Pernes exista alguma divisão em certas alturas. Diz que a culpa é da “politiquice”. Como é militante do PSD presume-se que assuma também a sua cota parte de responsabilidade. Tem uma voz aguda e é muito comunicativo. Sente-se que gosta de mobilizar. De fazer avançar as coisas. De promover o convívio. Nas recolhas de sangue organizadas pelo grupo a que preside não pára um segundo. Atende as pessoas que chegam, passa pela zona da recolha para saber se está a correr tudo bem. Dá uma mãozinha a assar as febras que irão reconfortar os estômagos dos dadores. Conversa com o pessoal da brigada do Instituto Português do sangue. Fala ao telemóvel sobre as próximas iniciativas. Dá o litro.

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