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“Santarém é das regiões mais fechadas do país. Aqui reina o cinzentismo. As pessoas têm medo de ser atrevidas”

Após ter aceite todos os desafios que lhe foram colocados pelo PSD António Campos está preparado para ser deputado

António Campos foi autarca, director da Segurança Social de Santarém e é presidente da comissão executiva da NERSANT. Tem 47 anos e é militante do PSD. Na última batalha eleitoral interna esteve do lado de Manuela Ferreira Leite. É um crítico do cinzentismo que diz existir no distrito e está contra o sistema de quotas que vai lançar os partidos políticos numa verdadeira caça à mulher no próximo ano. Assume que quer ocupar um lugar de Deputado no Parlamento.

Edição de 04.09.2008 | Entrevista
Já foi autarca, director da segurança social, membro de todos os órgãos dirigentes da JSD e do PSD. O próximo passo é ser deputado?No PSD nunca recusei nenhuma nomeação. Nenhum combate. Já fui também membro da Junta de Freguesia de Marvila e na altura era presidente da concelhia do PSD e aceitei o desafio de ser o número dois da lista de candidatos. E também tive oportunidade de ser deputado em 2004 mas optei por continuar o trabalho na Segurança Social.Não vai deixar fugir a próxima oportunidade.Ser deputado para poder ajudar no trabalho político em termos distritais no Parlamento acho que é interessante. Nessa perspectiva acho que sim. Para ser mais um no Parlamento isso não me atrai.Acha que tem capacidade para ser deputado?Tenho. Qualquer pessoa que anda na política a sério tem condições para ser deputado. Não há nenhum diploma que ateste essa capacidade. Depende do trabalho que se faz e da confiança que as pessoas têm em nós.O facto de ter sido mandatário distrital de Manuela Ferreira Leite pode ajudar a que tenha um lugar na lista de candidatos a deputados?Vou dizer que sim, mas também vou lembrar que fui o quinto na anterior lista de candidatos. Se para o ano for o terceiro ou o quarto na lista, isso não significa que seja resultado de ter sido apoiante de Manuela Ferreira Leite.Uma vez que está sempre disposto a aceitar os desafios políticos que lhe são colocados pelo PSD, aceitaria ser candidato a presidente de uma câmara municipal em vez de ser candidato a deputado?Santarém está entregue e bem entregue ao dr. Moita Flores. É o meu concelho de residência e onde milito. Aí não se põe a questão. Nunca me foi colocada a questão de ser candidato noutro concelho.E se for colocada?Se fosse interessante para o partido e se eu considerasse que tinha condições, não me vejo a dizer que não. Mas isso teria que ser considerado pelo partido. Não estou aqui a dizer que estou disponível para ser candidato. Mas se for importante serei solidário com o PSD.A figura principal do partido no distrito, Miguel Relvas, apoiou Pedro Passos Coelho. Isaura Morais (presidente da Junta de Freguesia de Rio Maior) foi mandatária de Pedro Passos Coelho. Que efeitos é que isso pode vir a ter? Isaura Morais pode ter perdido a possibilidade de ser a próxima candidata do PSD à Câmara de Rio Maior, por exemplo?Não. De maneira nenhuma. Ela participou e bem num processo interno do partido, de acordo com as suas convicções. Se as pessoas não tomam posições quando são chamadas a tomá-las, quando o vão fazer? Eu não olho para as pessoas como tendo apoiado este ou aquele candidato. Pode haver pessoas que o façam, eu não. E Miguel Relvas?A situação é a mesma. Era incompreensível que o Miguel fosse penalizado por ter apoiado o Pedro Passos Coelho. Ele é um dos rostos do PSD do distrito de Santarém a nível nacional. É reconhecido. E fez trabalho político importante a favor da região, quer como deputado, quer como membro do Governo. Ele terá o meu apoio para ser, se quiser, o cabeça de lista pelo distrito nas eleições legislativas do próximo ano. Qual é a solução para mudar os rostos do distrito? Para provocar o aparecimento de novas ideias?O problema é da própria região, que é caracterizada por algum cinzentismo. As pessoas têm medo de ser atrevidas. De ousar. Quando alguém não alinha no politicamente correcto chovem as críticas. As pessoas preferem estar caladas ou dizer apenas o que os outros esperam que elas digam. Esta é uma sociedade muito fechada. Das mais fechadas do país, no meu entender.Falta massa cinzenta?Não é bem isso. Penso que há muita gente daqui com valor. Pessoas inteligentes. Mas que preferem sair daqui para se afirmarem. Para respirarem. E vamos encontrá-las em lugares de destaque noutras regiões. E depois temos uma situação curiosa. As pessoas que mexem com o distrito e que têm voz, são pessoas que não são daqui. Não nasceram cá. Não são condicionadas pelo peso social desta sociedade. Eu sempre fui muito irreverente e muito directo e por isso sempre fui incompreendido aqui. Não tenho receio de assumir o confronto e isso não é bem visto aqui.Não é daqui, portanto. Não. Sou natural de Moçambique. A minha família é toda madeirense.DEPUTADOS DA NAÇÃOO PSD aqui em Santarém está também num período de silêncio, como a líder nacional, Manuela Ferreira Leite. Concorda com esta situação?Concordo. Os cidadãos estão um pouco cansados de ver os líderes do PSD a falarem por tudo e por nada. Há que falar quando for necessário e sobre assuntos verdadeiramente importantes. O próprio primeiro-ministro não fala todos os dias. Só fala quando entende que deve falar.A maior dificuldade do líder distrital do PSD, Vasco Cunha, não é estar demasiado ligado ao Cartaxo, onde foi vereador? Ele não é muito conhecido no resto do distrito. Ainda por cima é um pouco reservado.O Vasco Cunha tem feito um bom trabalho como presidente da Distrital. Um trabalho reconhecido, pelo menos internamente. Ele tem a confiança dos militantes. Isso viu-se nas eleições do ano passado. Ele tem feito uma coisa interessante e que eu sempre defendi: tem promovido visitas dos deputados aos concelhos. No mínimo, uma vez por mês.É um trabalho interessante mas enquanto a lei eleitoral estiver como está acaba por ser um trabalho para inglês ver. Um deputado, independentemente do círculo eleitoral por onde é eleito, é um deputado da Nação. Do País. Representa todos os cidadãos e não apenas os do local por onde é eleito.O modelo é este. Temos que nos adaptar ao modelo que temos. A vinda dos deputados ao distrito é sempre importante. Sejam eles do PSD ou de outro partido. Numa primeira perspectiva o deputado representa o distrito onde foi eleito.O senhor sabe que não é assim. Numa primeira perspectiva representa o País. Não há círculos uninominais porque os partidos não querem. Enquanto isso não acontecer não há deputados de uma determinada região ou círculo eleitoral.Sob o ponto de vista da lei é assim. Mas politicamente, não. Os deputados têm uma responsabilidade política de conhecerem os problemas de quem os elegeu e de os tentarem resolver. Temos que optimizar o modelo que temos.Concorda com esse modelo?Acho que está ultrapassado e deve ser repensado. Passados todos estes anos do 25 de Abril há necessidade de fazer crescer a democracia.Mas não acredita que venha a ser alterado. Já anda a ser repensado há década e meia. Deve haver maturidade suficiente para, no futuro, poder ser alterado. Claro que quando se fala em círculos uninominais os partidos pegam logo no esquadro e no compasso para ver onde conseguem ter mais ou menos hipóteses. Isso não tem facilitado a evolução para um novo modelo.Caça às mulheres por causa da lei das quotasQuem escolhe os candidatos aos cargos políticos de eleição são pequenos grupos de cidadãos que integram os directórios dos partidos políticos. Isso não é limitativo da democracia tendo em conta que hoje a militância política diminuiu significativamente em relação aos anos pós-25 de Abril de 1974?Nós portugueses criticamos tudo e mais alguma coisa. É o nosso estilo. Os partidos deviam trabalhar mais para alargar as suas bases para que as decisões, em vez de serem tomadas por quarenta, fossem tomadas por quatrocentos. O partido quanto maior é mais qualidade tem em termos das decisões políticas que toma. Não defendo primárias à americana. O nosso modelo não é mau. A comissão política concelhia indica o nome. A assembleia de militantes - onde estão todos os militantes mesmo os que não têm as quotas pagas – aceita ou rejeita o nome. Qualquer pessoa pode militar no PSD sem pagar quotas?Mas ao fim de quatro anos os que não pagam as quotas deixam de ser militantes activos. A partir daí não podem participar.Qualquer pessoa pode militar no PSD sem pagar quotas durante quatro anos?Sim. É um desafio. Fica o convite. Mas a obrigatoriedade é de pagar as quotas de dois em dois anos.No próximo ano vai haver uma autêntica caça às mulheres por parte dos partidos, uma vez que em todas as listas de candidatos vai ser obrigatório incluir uma mulher em cada três candidatos. Como vê essa situação? Eu não sou adepto das quotas. Compreendo que as mulheres tenham mais dificuldade em participar na vida política mas julgo que este modelo vai ter efeitos perversos. Pode empobrecer a democracia ao impor pessoas pelo sexo e não pelas suas qualidades. Há mais mulheres que homens em Portugal. Isso é verdade mas não significa facilidade no cumprimento desta regra para a constituição de listas. Nas freguesias rurais, por exemplo, vai ser muito complicado. Eu tenho experiência porque já andei a trabalhar na constituição de listas para as assembleias de freguesia. Algumas vão permitir que os nomes delas figurem nas listas mas salvaguardando, desde logo, que se forem eleitas não vão tomar posse. E também vai ser curioso ver todas as mulheres da família de determinados candidatos nas listas. Sim. Isso vai acontecer, certamente.Concorda com a marcação das eleições legislativas e autárquicas no mesmo dia?Para o país era melhor que fosse no mesmo dia. Regiões sim... mas devagarEste é um país centralista. E nada indica que a situação se venha a alterar. Nem a chamada descentralização Miguel Relvas, com a criação de Comunidades Urbanas e Áreas Metropolitanas, foi concretizada...Há vida para além de Lisboa. Os Governos deviam ter capacidade de descentralizar. Deviam mas não o fazem. Quando Miguel Relvas foi secretário de Estado da Administração Local foram feitas as leis mas não se deram competências. Não havia uma genuína vontade de descentralizar.O processo de legislar em Portugal é complicado. Vem primeiro a lei, depois os normativos, os despachos. Eu penso que havia grande vontade de concretizar aquela descentralização. Era um modelo evolutivo. A partir do que existia, que eram as associações de municípios. A culpa foi da burocracia.Numa primeira fase foi efectivamente um problema relacionado com a legislação. Numa segunda fase foi um problema político. O actual governo deixou cair o modelo.E como viu aquela situação de termos, no governo Santana Lopes, uma secretaria de Estado da Agricultura na Golegã?Pois…Era algo consistente? O princípio até podia estar correcto. Se fosse em Santarém… não vejo mal nenhum. A não ser que seja tudo uma decisão de fachada e continue a ser tudo decidido em Lisboa.Era o caso?Foi uma decisão.Considera-se um regionalista?Primeiro deve haver uma descentralização que crie condições para criar uma região. Não me envolveria num movimento a favor da regionalização como ela tem sido defendida. O último modelo, por exemplo, criava caciques em vez de regiões. Por exemplo: os cidadãos elegiam apenas metade dos deputados regionais. Os restantes eram eleitos pelas assembleias municipais. Eu sou contra.Ribatejo e Oeste ou Lisboa e Vale do Tejo?Lisboa e Vale do Tejo.É ADMISSÍVEL QUE A CÂMARA SAIA DO CNEMA O presidente da Câmara de Santarém tem tido uma posição de afrontamento em relação a não haver entendimento entre a câmara e o CNEMA que permita potenciar aquele espaço. É um erro?A câmara foi um dos grandes pilares da construção do CNEMA. Aquela estrutura não tem correspondido às expectativas. Há que questionar a gestão. Na maioria das situações o presidente Moita Flores esteve bem porque o papel dele é defender os interesses do seu concelho. Faz sentido a câmara vender a participação que tem no CNEMA se não conseguir entendimento com a CAP?A câmara, enquanto investidor e accionista, se vir que a empresa não está a dar a resposta desejada e se não tiver condições para alterar essa estratégia só tem uma coisa a fazer que é sair. Claro que esta não é a melhor opção para a cidade. O entendimento deveria ser possível mas já se percebeu que CAP e câmara defendem modelos muito diferentes de potenciação do CNEMA. E em relação à constituição da empresa Águas do Ribatejo?É quase o mesmo. O modelo inicial não defendia os interesses de Santarém. O concelho estava a servir de âncora para que outros pudessem ter água mais barata, sem que daí beneficiasse grandemente. O presidente Moita Flores esteve bem.O senhor é presidente da Comissão Executiva da Associação Empresarial da Região de Santarém - NERSANT. Como está a vida dos empresários da região?Havia expectativa que o QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) pudesse trazer respostas adequadas às empresas. Na minha opinião o QREN deveria apoiar a inovação, modernização, competitividade, internacionalização e também a obtenção de financiamentos. O que falhou foi a parte do financiamento. Muitas empresas, para poderem fazer investimentos, recorrem à banca. O juro é elevado e as margens com que as empresas trabalham hoje são curtas. As empresas estão a ser esborrachadas entre o empréstimo bancário para investir e as margens que ficam do negócio. Isto cria preocupação e incomodidade. Se estas empresas não tiverem resposta a nível do QREN vão desaparecer nos próximos anos.Quando foi director da Segurança Social defendeu que cargos como aquele deveriam ser de nomeação política. Mantém essa opinião?Mantenho. Os lugares regionais que implicam implementação de políticas definidas pelos governos devem ser ocupados por pessoas da confiança política do Governo. E essas pessoas devem abandonar os cargos quando sai o ministro que as nomeou. Tem continuado a acompanhar a Segurança Social Distrital que dirigiu?Alguma coisa. Dá-me a sensação que muitas decisões que, no meu tempo, eram tomadas aqui, passaram a estar concentradas em Lisboa. E há coisas que eu iniciei que não tiveram continuidade. Iniciei um processo de certificação dos serviços de acção social. Era uma coisa única no país. Muitos centros distritais estavam na expectativa de ver o resultado para decidirem se avançavam para processos idênticos. Após a minha saída o processo parou. Fiquei triste uma vez que era um processo que iria melhorar o serviço ao cidadão.A Segurança Social tem gasto milhões em processos de inserção mas os resultados são mínimos. Não é um desperdício?Há pessoas que não se querem inserir. Vamos ser demasiado rigorosos e apoiar apenas os que querem inserir-se na sociedade e serem úteis? É evidente que cada governo fará as suas opções políticas mas não pode abandonar as pessoas. Tem que fazer um esforço muito grande para fazer a inserção, criando ocupações, mas não se pode abandonar quem não tem capacidade nem motivação.

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