Ainda se fabricam acordeões à moda antiga em Ferreira
Leonel Carreira Rocha é um dos últimos resistentes de uma arte em vias de extinção
O artífice recebe encomendas de todo o país. A construção de um instrumento pode demorar quatro meses.
Chama-se “Atelier do Acordeon” e situa-se em Ferreira do Zêzere aquela que será, porventura, uma das últimas fábricas de acordeões do país, instrumento musical que marca forte presença no folclore português. Para além de Leonel Carreira Rocha, 68 anos, que trabalha no fabrico de acordeões há quase 40 anos, altura em que aprendeu o ofício numa fábrica em Itália, apenas se tem conhecimento público da existência de outro artífice em Portugal que pratica esta arte, no sul do país, em Tavira. O artífice diz que recebe encomendas de todo o país uma vez que para além de restaurar, consegue montar um acordeão de ponta a ponta e consoante o gosto do cliente. A ajudá-lo na oficina conta com Isabel Gomes, 49 anos, que ali trabalha há 18 anos e do filho desta, Bruno Gomes, um jovem de 23 anos a quem um dia o artesão pensa passar o testemunho. No “Atelier do Acordeon”, durante muitos anos apenas conhecido como “a oficina do Sr. Leonel”, pode visitar-se três divisões distintas: a oficina/carpintaria, a sala de montagem de acordeões e a de exposição, onde se encontram à vista dezenas de exemplares únicos para venda. O processo de construção obedece a algumas etapas e, em média, demora quatro meses a ficar pronto. O custo do restauro de uma peça destas, trabalho bastante minuncioso, pode chegar acima dos 2.500 euros. “Começamos pela construção do molde da caixa, colocamos em seguida os componentes que fazem parte de toda a mecânica do acordeão, como é o caso das notas musicais e do fole (que vai fazer com que o acordeão emita as várias sonoridades), e afinamos”, explica Leonel Carreira Rocha. Segue-se o processo de ornamentação que consiste no revestimento deste instrumento em celulóide de cores vistosas, como vermelho, azul ou preto. Na sua oficina, tem por isso à disposição do cliente vários tipos de celulóide e também dezenas de adornos que vão compor o resultado final. Todos os materiais são importados de Itália, inclusivamente os pregos que utiliza. Para Leonel Carreira Rocha, a qualidade da madeira é fundamental para que o resultado final atenda ao esperado pelo que o artesão elege a tília ou nogueira para fazer a caixa que, no fundo, é o esqueleto de todo o acordeão. Regra geral, a decoração é previamente escolhida pelo cliente existindo para o efeito um conjunto de moldes em alumínio, a partir dos quais se faz o desenho. Leonel Carreira Rocha faz questão de assinar todos os acordeões que fabrica com as suas iniciais e já vendeu instrumentos a nomes sonantes do mundo musical como Eugénia Lima ou Rodrigo Maurício. O apego ao acordeãoPara os seus fabricantes, cada peça que fazem é única pelo que quando reconhecem um dos seus num programa de televisão ou numa actuação de folclore ficam radiantes. Por vezes, é com dificuldade que vêem os instrumentos onde investiram centenas de horas de trabalho partir com os seus donos. Na memória de Isabel Gomes há um acordeão que teima em persistir. Tratava-se de um exemplar que foi decorado, de forma minunciosa, com borboletas. “Quando o levaram para França, levaram também um pedacinho de mim”, confessa. Já Leonel Carreira Rocha não esquece o primeiro acordeão que fez com a intenção de o guardar para si e que só vendeu porque o cliente insistiu bastante. O instrumento está nas Caldas da Rainha, em casa de um grande amigo e, desde então, nunca mais teve tempo de fabricar outro, a seu gosto, para uso pessoal. É que Leonel Carreira Rocha, para além de fabricar também gosta de tocar acordeão. Aprendeu com o avô e o pai. O jovem que tem a trabalhar consigo na oficina, Bruno Gomes, de 23 anos, também é um exímio tocador (desde os dez anos que o faz) e até dá formação musical na área aos mais jovens. Com formação em Gestão de Empresas, será ele o continuador da tradição para não deixar morrer o fabrico de acordeões em Ferreira do Zêzere. “Há quem diga que o acordeão é o instrumento mais difícil de tocar porque temos que usar as duas mãos e manusear o fole ao mesmo tempo. Mas depois de se aprender não é difícil”, assegura enquanto toca um fandango.
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