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Na região só a cidade de Tomar tem música

Cantar fado como se cantava há 40 ou 50 anos é que é artificial

A única cidade da região que tem alguma música é Tomar. As outras não inspiram. Falta-lhes alma. Em Santarém o único som que se ouve é o do eco das nossas próprias palavras no meio de ruas desertas.

Manuel Fernandes Vicente, professor de matemática no Entroncamento, correspondente do jornal Público e um dos fundadores do semanário Notícias do Entroncamento, tem cerca de três mil discos antigos, em vinil, e outros tantos CD. É um apaixonado por música. Por músicas. Pela descoberta de músicas diferentes. “A minha mulher e as minhas filhas dizem-me que oiço coisas muito estranhas”.Exagero, concerteza. Os gostos não são assim tão estranhos. Pelo menos a avaliar pelos nomes que lhe chegam primeiro às cordas vocais impulsionados pelo cérebro. São variados mas não estranhos. Começa pelos portugueses, quase cronologicamente. Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Luís Góis, Rádio Macau, Mão Morta, Silvestre Fonseca, Clã, Jorge Lima Barreto, Rão Kyao. “Vou bater a muitas freguesias”, confessa. Prossegue numa muito diminuta lista, aqui já organizada por cidades. (ver texto ao lado) “Gosto muito da música de S. Francisco; do Rock alemão, da música de Caterbury, do Cajun da Louisiana e baixo Mississipi, de guitarra clássica. Às vezes ainda vou buscar um disco à prateleira. Mas gosto, sobretudo de descobrir novos sons. A minha última paixão é a música cigana dos Balcãs”.Nunca teve a tentação de tocar um instrumento. “Só toco no botão ‘start’ do gira-discos ou do leitor de CD. Mas ainda não perdi a vontade de aprender guitarra clássica para tocar algumas peças que me fazem sentir uma emoção profunda”.Quando começa a falar de música entusiasma-se. Volta ao tempo da pré-adolescência quando perto de Castelo Branco, onde nasceu, fazia concursos de conhecimentos musicais com o amigo Manuel Gil. “Era o meu grande companheiro. Morreu na guerra do Ultramar. Se calhar foi a sua falta que me levou a fazer o livro. Sinto uma vontade de escrever e falar sobre música mas em boa verdade - e ninguém ficará ofendido com o que vou dizer - não tenha aqui ninguém para essas conversas”. Quando estudou em Coimbra, Manuel Fernandes Vicente, encontrou outros interlocutores. Éramos três amigos. Passávamos muitas noites até às 4 e 5 da manhã a ouvir música, a falar de música, sem qualquer outro objectivo que não fosse analisar. Reflectir sobre coisas novas. Um desses companheiros tinha nascido em berço de ouro e tinha possibilidades de trazer coisas lá de fora. Frank Zappa quando ninguém conhecia Frank Zapa, Pink Floyd, Taste, as primeiras coisas do Rock alemão”.O jovem Vicente lia jornais e revistas da especialidade. Melody Maker, New Musical Express. Por vezes o espanhol Disco Express. “Sempre procurei acompanhar a música de vanguarda. Pesquisar coisas que iam à frente. Mas quando um músico ou um grupo entravam no “main-stream” eu desinteressava-me. Ainda hoje é assim”. No roteiro do livro “Música nas Cidades” não há nenhum capítulo dedicado a uma cidade do Ribatejo. “Aqui da região talvez Tomar seja a cidade que tem mais rasgo. Criou os Quinta do Bill. Teve o Jorge Rivotti, nos anos sessenta havia a Filarmónica Fraude. É uma cidade com história. Uma cidade que inspira. E há os Templários, lá está!”.E Santarém? “Em Santarém nada pode acontecer. Nem música. Muito menos música!”, diz de pronto. Depois conta uma história igual às muitas que muita gente já contou. “Quando as minhas filhas eram mais novas íamos muito para Leiria. Sábados de tarde, domingos. Era uma cidade cheia de vida; cheia de alegria, de energia. Elas sentiam-se felizes ali. Um dia decidi fazer-lhes uma surpresa e levei-as a Santarém. Eu já lá não ia há algum tempo. Quando entrámos no Centro Histórico deparámo-nos com um deserto. Num Sábado à tarde de Outubro ou Novembro estava tudo fechado. As ruas estavam desertas. Nós ouvíamos o eco das nossas palavras. Fomos até às Portas do Sol sem ver ninguém. No retorno viemos por outras ruas e sempre o mesmo eco. Um eco de solidão. De deserto. De uma cidade sem alma”.Por razões diversas elogia Torres Novas. “Não posso deixar fazer uma referência à programação do Virgínia, que tem levado à cidade coisas fabulosas. Passam por ali verdadeiras pérolas. No último ano vi ali espectáculos que mereciam mais público. As pessoas da região ainda não se aperceberam do que estão a perder”, afirma. Manuel Fernandes Vicente é contra os purismos. Considera-os artificiais. É por isso que ouve com interesse as novas vozes do fado. Mariza, Mafalda Arnauth, Mísia, Cristina Branco, Ana Moura. A cidade evoluiu, o fado evoluiu, o Mundo evoluiu. Continuar a cantar fado como se cantava há 40 ou 50 anos é que é artificial. “A música é o espelho do que as sociedades produzem, com todas as tensões, com todos os sonhos, todas as contradições que a cidade comporta. Com as suas etnias, as suas clivagens. Está tudo na música”.

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