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“O nosso corpo é geometria”

A pintora vilafranquense Paula Teresa, apaixonada pelo Ribatejo, divide-se entre a arte e a matemática

Criar é estar mais perto da essência primordial, diz a pintora de Vila Franca de Xira, Paula Teresa. Fala da arte como quem fala de amor - a sua forma de expressão por excelência. Divide-se entre a pintura e a matemática e acredita que as duas realidades estão mais próximas do que se julga. “O nosso corpo é geometria”.

Edição de 06.11.2008 | Sociedade
“Pintar não é senão o reflexo da nossa alma”. Quem o diz é a artista plástica de Vila Franca de Xira, Paula Teresa, para quem pintar é uma forma de existir, “uma busca permanente de nós próprios”. Mas uma busca que culmina com a partilha dos sentimentos, emoções e reflexões. “A palavra expor, de exposição, aparece de uma dualidade: a de mostrar a obra, por um lado, e a de dar a conhecer a existência, por outro lado”, explica. Daí que, para Paula Teresa, os prémios que fazem mais sentido são aqueles que surgem do reconhecimento espontâneo do público. “Para mim é muito mais gratificante ter um livro de honra do que muitas menções honrosas”, diz. “Ver uma tela em branco e conseguir transmitir cada emoção, cada cheiro, cada sabor, daquilo que se viu enche a alma. Pintar não é reproduzir, é algo muito mais transcendental”, conta. Paula Teresa, para quem o Sol é um elemento primordial, pinta emoções boas e emoções menos boas, mas só mostra as boas, as outras guarda-as no seu atelier. Adora pintar os cavalos, os campinos e o Tejo. Mais ainda os contrastes que o rio faz com as lezírias. Gosta do ambiente da festa brava, mas não suporta ver espetar as farpas no animal. Pinta a óleo e a acrílico e a sua pintura é maioritariamente figurativa. Apesar de estar a passar por uma fase de “desconstrução do figurativo”. Uma evolução, diz. O azul é a cor predominante nas suas obras. Já o vermelho usa com menos frequência. “O azul é a cor do céu, do mar, é a cor da tranquilidade e da reflexão. É fria, mas leva-nos a reflectir”. Diz que a inspiração é um processo complexo. É aos sonhos que a vai buscar. “Vivemos num caos. Há falta de conversa entre as pessoas. Vivemos na era da Internet. Uma correria tamanha, um stress ainda maior que não nos leva a lado nenhum. Daí que os sonhos me inspirem, no fundo são aquilo que nós queremos da vida”. Paula Teresa assume-se como uma mulher de fé que adora viajar, conhecer sítios novos e culturas diferentes, mas incapaz de deixar o seu Ribatejo. “Vila Franca de Xira é o meu cantinho, era muito complicado deixá-lo”, comenta. Pinta desde meados da década de 90, impulsionada pelo GART – Grupo de Artistas e Amigos da Arte. Mas o bichinho da pintura já lhe tinha surgido há mais tempo. Era ainda criança e descobri-o nas aulas de Educação Visual. Entre 2004 e 2008 esteve parada. Durante este período, que foi de reflexão, diz na brincadeira que esteve grávida. “Foi um período de reflexão, um passo para poder evoluir”, explica. “O seu caminho actual está marcado por uma busca interior que a conduzirá a novas soluções plásticas e a novas vias expressivas”. As palavras são da presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maria da Luz Rosinha, dedicadas à artista plástica.Hoje, paralelamente à pintura, Paula Teresa dá explicações de matemática no seu escritório em Vila Franca de Xira. Diz que nos dias que correm é muito difícil viver só da sua arte. Acredita que há muito mais a aproximar a pintura da matemática do que a afastá-las. “Ambas são geometria. O nosso próprio corpo é geometria, no fundo, tudo é geometria. A matemática, ao contrário do que muita gente julga, não é só dois mais dois, há todo um processo criativo”, explica. Paula Teresa brinca com os números como brinca com as tintas e, para a pintora, a conta mais difícil de fazer é somar as alegrias, subtraíndo as tristezas e procurando que o resultado seja sempre constante: ser feliz. Tem muitos quadros espalhados pela casa e muitos outros em casa de amigos, familiares e particulares. Os seus maiores críticos são o marido e a filha Sara. “É deles que recebo as mais duras críticas, mas são eles também que com o seu amor incondicional e apoio me fazem crescer e evoluir”.O percurso de uma artistaPaula Teresa nasceu em Lisboa em 1967. Trabalhou em pintura em porcelana, lustrinas e artes decorativas. Tirou o curso de pintura na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa, sob orientação do mestre Jaime Silva. Estudou ainda com o mestre João Mário. É membro da GART e beneficiária da Sociedade Portuguesa de Autores. Está representada na Câmara Municipal de Peniche, Tavira, Arruda dos Vinhos e em várias colecções particulares em Portugal e no estrangeiro, desde Espanha até França, passando por Inglaterra, Canadá e Brasil. É detentora de vários prémios, nomeadamente de menções honrosas. Começou a expor em 1998, no Celeiro da Patriarcal em Vila Franca de Xira. Exposição no restaurante “A Kottada”Até dia 21 de Novembro as telas de Paula Teresa podem ser vistas no restaurante “A Kottada”, no Carregado. O espanhol Fernando Garcia Arguelles é o proprietário do restaurante e a par do requinte que serve às mesas promove também os artistas da região. “Tem feito um trabalho notável na promoção de vários artistas. É de louvar esta iniciativa”, explica Paula Teresa que já dedicou um dos seus quadros a este espaço.

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