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Carrilhão de meio milhão de euros em silêncio há um ano

Carrilhão de meio milhão de euros em silêncio há um ano

Fiéis de Alverca acusam pároco de “extremismo”

O carrilhão da Igreja dos Pastorinhos, em Alverca, está em silêncio há quase um ano. A população, que primeiro estranhou o som do instrumento, fala agora num abaixo-assinado a exigir o “regresso” dos sinos. O pároco recusa-se a prestar esclarecimentos.

Edição de 11.12.2008 | Sociedade
Junto à Igreja dos Pastorinhos, em Alverca, reina um clima de desagrado porque o maior carrilhão da Europa, símbolo da freguesia de Alverca e fruto da visão do pároco José Maria Cortes, não toca regularmente desde Setembro de 2007, data em que os moradores dizem ter ouvido os últimos acordes dos 72 sinos que ornamentam a torre de quase 50 metros.“Estar incomodado com o facto do carrilhão tocar todos os dias não significa que este se tenha de calar para sempre”, dizem os moradores. Os fiéis e alguns residentes da zona, ouvidos pelo O MIRANTE, lamentam que o instrumento (cujo custo de construção rondou o meio milhão de euros) não seja utilizado, sobretudo em datas festivas como o Natal ou a Páscoa. Do clima de desagrado saem dedos apontados ao pároco da igreja, José Cortes, que continuadamente recusa prestar declarações sobre o assunto a O MIRANTE.“O padre é um homem de extremos. Quando a igreja abriu tocavam carrilhão todos os dias, até enervava. Agora nunca se ouve, nem mesmo em dias de festa. É uma tristeza...”, refere Maria Dias, moradora num prédio junto ao templo. Actualmente o único som que a torre sineira emite é o toque do relógio às meias horas e uma pequena melodia às 18h00, nada que se compare com uma peça musical de carrilhão. A sexagenária recorda ao nosso jornal que a afinação do instrumento foi “terrível, porque chegavam a tocar o mesmo sino várias vezes por dia”, mas que ultimamente “até era suportável”. O carrilhão de Alverca tem sido alvo, nos últimos anos, de várias polémicas, e há quem defenda que foram elas as responsáveis pelo estado em que este se encontra actualmente (ver caixa). “Nos meses seguintes à inauguração tocavam-no quase todos os dias e a todas as horas. Isso é que foi um abuso tremendo, quer para quem aqui trabalha e vive. Mas daí até deixarem completamente de o tocar parece-me de muito mau gosto”, refere Inês, proprietária de um estabelecimento comercial na zona. Outros moradores equacionam a hipótese de voltar a criar um abaixo-assinado a solicitar ao sacerdote o regresso dos concertos em algumas épocas festivas. “É um desrespeito por quem ajudou a pagar aquilo. A minha sobrinha é madrinha de um dos sinos, deu mais de 1000 euros à igreja e agora não o tocam?”, queixa-se Alfredo Vaz, que acusa a paróquia de “esbanjar dinheiro a rodos”, dando o exemplo de um pinheiro gigante de natal proveniente da Escandinávia que ali esteve exposto em 2005. O descontentamento pela actual situação é extensível ao interior do templo. “Deus me perdoe, mas parece que o padre se quer vingar das pessoas, que tanto protestaram que agora não ouvem nada. Mas sabe pedir umas notas em todas as missas para pagar isto!”, remata Deolinda Pereira, enquanto acende uma vela na entrada da Igreja dos Pastorinhos. O templo, que serve os 35 mil habitantes da cidade, custou quase quatro milhões de euros, valor que a paróquia deve à banca (sem contar com outros dois milhões de euros da igreja do Espírito Santo, no Sobralinho). No Centro Paroquial de Alverca um “contador de donativos” mostra que apenas 20 por cento do investimento já foi amortizado. Trimestralmente vence uma mensalidade de 40 mil euros e a dívida deverá ficar saldada num prazo de 15 anos. As duas igrejas estão avaliadas em dez milhões de euros.O presidente da Junta de Freguesia de Alverca, Afonso Costa, confirmou que desde 2007 que não há concertos de carrilhão porque “nos anos pares fazem-se mostras de teatro e nos anos ímpares toca-se o carrilhão”. O autarca diz no entanto que esse é um assunto que diz respeito à paróquia. Se a intenção do pároco for mesmo a de só tocar o colossal instrumento nos anos ímpares, então o som dos sinos só voltará a ser ouvido na cidade de Alverca em 2009.Uma obra polémicaNo dia 1 de Maio de 2005, depois de meia década em construção, foi inaugurada a Igreja dos Pastorinhos, uma obra colossal com imagens da Virgem Maria, Jacinta e Francisco oferecidas pelo santuário de Fátima e transportadas para Alverca num helicóptero “Puma” da Força Aérea Portuguesa. Foi inaugurado também o maior carrilhão da Europa e o terceiro maior do Mundo. Porém, como se viria a verificar nos meses seguintes, a estrutura acabaria por trazer mais amargos de boca do que sorrisos. Logo nas primeiras afinações. Em Dezembro de 2005, tal como O MIRANTE noticiou, chegaram as primeiras reclamações de moradores, que apelavam ao pároco José Maria Cortes para reduzir o que consideravam ser o “barulho” do instrumento. Alguns falavam em mudar de casa. Outros admitiram usar tampões para os ouvidos. A frequência de concertos diminuiu e, meses depois, outra polémica atingiu o coração da Igreja dos Pastorinhos: Ana e Sara Elias, as duas carrilhonistas, foram surpreendidas por uma mudança inesperada das fechaduras do elevador que dá acesso ao instrumento. “Foram-nos fechadas as portas sem qualquer justificação. Estamos completamente afastados”, afirmou na altura Ana Elias a O MIRANTE. O sacerdote manteve-se em silêncio em relação ao carrilhão, instrumento que fora apoiado por diversas entidades e empresas. A paróquia admitiu que não possuía fundos suficientes para promover uma temporada de concertos. Com o apoio da Central de Cervejas, em Julho de 2007, o carrilhão voltou a tocar até ao mês de Setembro, altura em que os moradores dizem ter deixado de o ouvir.
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