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O menino que vendia copos de três nas tabernas de Lisboa

O menino que vendia copos de três nas tabernas de Lisboa

António Robalo é hoje uma referência no negócio dos cristais e porcelanas.

Aos 12 anos começou a fazer negócio vendendo nas tabernas copos de três que transportava num cesto de garrafas de champanhe. E o menino que guardava cabras na serra tornou-se empresário na capital. Ao terceiro ano era já o segundo cliente da indústria vidreira nacional. António Robalo, ‘patrão’ de um grupo com sede em Vila Franca de Xira, é hoje uma referência no mundo dos cristais e porcelanas, mas o seu percurso foi construído com “sangue, suor e lágrimas”.

Tinha 12 anos quando reparou nos homens que compravam copos para vender nas tabernas. Tinha chegado a Lisboa há poucos meses, para trabalhar com o pai, moço de armazém, mas a queda para o negócio começou a manifestar-se no jovem António Robalo. Trabalhava de segunda a sábado e decidiu aproveitar o domingo – dia em que as tabernas não fechavam – para explorar o negócio.“A minha primeira pasta foi um cesto de verga onde antigamente vinham as garrafas de champanhe. Arranjei umas amostras e comecei a visitar esses estabelecimentos”, recorda António Robalo que aos 71 anos ainda é o presidente do conselho de administração do grupo Robalo, que integra a Pollux. Hoje o seu nome é uma referência no negócio dos cristais e porcelanas.Já quando guardava cabras em Vidual, Pampilhosa da Serra, o menino tímido, maltratado pelas severas leis sociais que excluíam quem menos tinha, via para além dos montes que delimitavam a aldeia. Quando chegou a Lisboa para trabalhar com o pai não se deslumbrou com o admirável mundo novo que acabava de encontrar na capital. Concentrou-se em atingir os seus objectivos. “Para mim nada era impossível”, confessa. Apareceu de pronúncia acentuada e vestido de forma humilde. “As pessoas achavam piada. Só lhe sei dizer que saí do quarto para onde vim morar com o meu pai e das 9h00 às 12h00 já tinha ganho metade do ordenado que ganhava todo o mês a trabalhar”. Um mês de trabalho permitia-lhe ganhar 300 escudos [um euro e meio], dinheiro que era entregue na totalidade ao pai que geria as necessidades da família, dividida entre a cidade e a aldeia. A actividade paralela era um complemento para conseguir dinheiro para transportes e livros para terminar a quarta classe. Vivia com o pai num quarto na rua Alves Correia, paralela à Avenida da Liberdade. Mais tarde mudaram-se para uma parte de casa, quando se juntou mais família na capital. Só depois tiveram casa própria. Aos domingos António Robalo começou a visitar as tabernas, mas também as pastelarias onde encontrou um autêntico nicho de mercado. “Na altura usavam-se uns frascos para rebuçados. As confeitarias debitavam valores elevados aos clientes que preferiam comprar outras embalagens e devolver os frascos à fábrica”, conta. Do armazém António Robalo passou para uma loja de S. Bento como gerente. Depois da tropa surgiu a oportunidade de trabalhar como comissionista. Até que abriu uma loja em Algés com um irmão. “Comecei a ir às fábricas comprar vidros em quantidades superiores àquelas que as lojas comportavam. Como estava na praça, era vendedor comissionista e estava autorizado a isso, já ia vendendo umas coisas aos clientes”. Pouco tempo depois o irmão ficou com a loja e António Robalo aventurou-se como armazenista. E nasceu assim a empresa António Robalo, a comemorar 45 anos, “sonhada em 1964 com escritura em 1965”. O empresário alugou então uma pequena garagem e ao lado, numa cave, fez sala de exposições. “Comecei a comprar, revendia e entregava. Ia fazendo de tudo um pouco”. Especializou-se em porcelanas, vidros e cristais. Em Março ou Abril admitiu o primeiro funcionário. Chegou ao fim do ano com três pessoas na firma. No terceiro ano de actividade António Robalo era já o segundo cliente da indústria vidreira nacional. O primeiro cliente era a Brás e Brás, a grande empresa do ramo. Chegou a atingir a liderança como cliente da Vista Alegre.Em Algés as caves iam servindo de arrecadações. Chegou a 1973 com 11 pequenos armazéns. “Tinha vidro de uma fábrica num lado e porcelana noutro. Reunir para fazer a distribuição era quase impossível”. Nos bancos ia conseguindo empréstimos com base na reputação que tinha em praça. “Sempre fui incapaz de falhar. Cumpria a 100 por cento com as minhas obrigações e o que acordava com as pessoas”. A empresa foi abastecida pela indústria nacional até 1986, data em que devido aos problemas da indústria nacional teve que recorrer à importação. A sala de exposição ampla que hoje tem no Esteiro do Nogueira, a sede da empresa, em Vila Franca de Xira, onde concentrou a actividade, foi inaugurada em Fevereiro de 1988. É lá perto que funciona também um dos espaços abertos ao público com 4200 metros quadros espalhados por três pisos. O fundador da empresa – que surgiu com um capital social de 50 contos [250 euros], dinheiro das economias que fez enquanto vendedor comissionista – desde o início que investe em espaços para mostrar o produto. “Visitava os clientes e convidava as pessoas para ver as amostras. Vender sim, mas em casa”. Terreno ocupado no pós 25 de Abril Viviam-se os tempos quentes do pós 25 de Abril de 1974. O empresário António Robalo tinha acabado de comprar um terreno no Esteiro do Nogueira, na zona ribeirinha de Vila Franca de Xira, hoje sede do grupo com o seu nome.“Um dia venho do Porto e começo a ver umas estacas e uma placa: ‘terreno reservado ao bairro dos avieiros’. Arranquei tudo”, recorda António Robalo. “Perguntei-lhes se gostavam que chegasse a suas casas e colocasse papelinhos a dizer reservado para isto ou aquilo. Deram-me razão. Disse-lhes que poderiam fazer ali o bairro dos avieiros, mas que alguém teria que comprar o terreno”, conclui.“A linha de caminho de ferro deveria ser enterrada em Vila Franca de Xira”António Robalo considera que é medida importante para aproximar a cidade do rio“O ideal era enterrar a linha de caminho de ferro em Vila Franca de Xira”. Quem o diz é António Robalo, o patrão da “Pollux”, instalada na zona ribeirinha da cidade. “Isso permitiria uma ligação entre a cidade ao rio. Nem era preciso levar a linha enterrada desde a praça de touros. Poderiam ser enterradas algumas zonas. Para isso tinham que subir a quota de terreno. Não sou técnico, mas vejo muitos dramas para que isso seja feito”, sugere.A solução resolveria o problema dos acessos à zona ribeirinha que durante muitos anos condicionou a actividade da empresa. “Tínhamos que pedir autorização à família Palha para que os camiões passassem nos seus terrenos”, recorda.As entradas de Vila Franca de Xira têm que ser melhoradas, defende igualmente o empresário. “Quem vem da zona industrial tem acesso à auto-estrada virando à direita, mas ao sair da A1 não temos acesso à rotunda. É preciso seguir em frente e dar a volta. Não consigo compreender quem fez aquilo. Não sei porque se está a utilizar mais uma área da nacional podendo ter resolvido o problema com rotundas, por exemplo”.A loja do grupo aberta ao público foi pensada no âmbito da urbanização Nova Vila Franca. O empresário perdeu com a não concretização do investimento e admite que a localização não é de fácil acesso para o público. Decidiu avançar, mesmo sem urbanização, para não perder o investimento que já ali tinha feito.António Robalo cruzou-se com Vila Franca de Xira em 1973 por mero acaso. Um anúncio de um armazém em Lisboa atirou-o para o terreno perto do rio. Foi “Maneta”, o avieiro, quem lhe indicou o terreno. As 11 garagens onde concentrava a mercadoria em Algés estavam no limite. O empresário precisava de mais espaço para fazer crescer o negócio de revenda de porcelanas e cristais.Veio atraído pelo espaço, mais do que pela localização estratégica. “Comecei a olhar para o terreno e a sonhar. Fui sempre um bocado solitário a tomar as decisões. Não disse nada a ninguém. Nunca mais teria problemas de espaço, pensava. As minhas barraquinhas vinham todas meter-se aqui dentro”, conjecturou. A hipoteca foi transferida para o seu nome e o empresário propôs um plano de pagamentos com prestações trimestrais. “Só depois de ter tudo organizado é que dei conhecimento. Eu dava pulos de contente, mas chamavam-me louco por tudo isto era lezíria”.Da Pampilhosa da Serra para a capitalDeixou a aldeia de Vidual, na Pampilhosa da Serra, aos 12 anos, mas aos 71 o sotaque que arrasta denuncia-lhe as origens. António Robalo - o menino que guardava cabras no monte depois da escola - ocupa hoje uma secretária num gabinete de requinte da sede da empresa com o seu nome, em Vila Franca de Xira, uma referência no sector das porcelanas e cristais. Tem um fato riscado, alinhado, intocável, tal como as memórias dos tempos duros que cabiam a quem tinha poucos recursos numa aldeia serrana da década de cinquenta do século passado. Foi em Lisboa que o menino tímido da aldeia exorcizou traumas e tristezas. Depois de concluir a quarta classe na capital inscreveu-se no curso complementar de comércio, que não chegou a terminar. A sua formação foi feita na universidade da vida. “Conheço um pouco de tudo. Naquela altura a vida era muito difícil nas aldeias. E muito mais para as pessoas pobres. Costumo dizer que vivi na idade média. Mas não fui uma vítima, fui igual a muito outros”. No armazém, onde teve o seu primeiro emprego, conheceu médicos que lá iam comprar frascos para produtos químicos. “Um dos que conheci, com consultório na Braamcamp Freire, nunca levou um escudo por uma consulta e eu não tinha nada para dar a ninguém. São gestos de simpatia”, diz comovido. Um alto quadro do Exército também o encaminhou na altura de cumprir o serviço militar como escriturário no Terreiro do Paço, depois de ter passado por Cascais. Durante 20 anos almoçou no “Recanto do Ti Pedro”, uma referência em Vila Franca de Xira, encerrado há um mês. Foi lá que aprendeu a degustar o ensopado de enguia e a lampreia. Vivia então na Parede. Hoje reside numa quinta nos arredores de Vila Franca de Xira. “Sou do tempo em que só existia Marginal. Para ir para Vila Franca ou ia às 6h30 ou era um desastre”. A política nunca o fascinou. “Respeito toda a gente, à esquerda e à direita, desde que tenha formação e seja correcta”. Até aos 50 anos nunca tirou férias. Por duas vezes já se ausentou durante duas semanas. Foi uma vida de sacrifício, mas também de prazer porque sempre gostou de trabalhar. Os filhos, Paulo e António Manuel, sempre o ajudaram. A vida social foi substituída pelo trabalho, mas arranjou bons amigos. “As pessoas falam na sorte, mas também temos que ser nós a criá-la com muito trabalho. A sorte custa muito a conquistar”. O património que conquistou não tem valor. “Foi feito com sangue, suor e lágrimas”. É por esse motivo que aos 71 anos ainda se mantém à frente do grupo.
O menino que vendia copos de três nas tabernas de Lisboa

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