Edifício da Fundação Álvaro Guerra continua arrendado à câmara e paróquia
Projecto foi anunciado há seis anos com pompa e circunstância em Vila Franca de Xira
A Fundação Álvaro Guerra, criada para ajudar a perpetuar a memória do escritor vila-franquense, foi apresentada há seis anos, com a presença de nomes sonantes da cultura portuguesa, mas o edifício que vai albergar o projecto continua parcialmente arrendado à câmara e à paróquia.
O edifício junto à Igreja Matriz de Vila Franca de Xira, que deveria acolher a Fundação Álvaro Guerra, um projecto apresentado há seis anos na cidade com a presença de nomes sonantes da cultura portuguesa, continua parcialmente arrendado à câmara municipal e à paróquia.A casa, onde Álvaro Guerra viveu parte da sua vida, alberga a Comissão Unitária de Reformados, Pensionistas e Idosos (Curpi) desde 1982 do lado da Rua Miguel Bombarda. No lado do Largo Conde de Ferreira, nas imediações da Igreja Matriz, funciona o secretariado da paróquia de S. Vicente de Mártir. Parte do espaço usado pelos seniores no rés-do-chão do edifício já foi libertado, como confirma a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, mas a mudança não está prevista para breve. O MIRANTE apurou que a comissão deverá ser instalada num novo edifício no centro da cidade, a poucos metros do actual, na Rua Miguel Esguelha, mas uma estrutura antiga ainda permanece no local e está emparedada para evitar actos de vandalismo.Nas instalações da Curpi um espaço de convívio arranjado por voluntários, bebe-se um café, come-se um rissol e os anciãos matam o tempo com baralhos de cartas. Não há sinal do projecto da fundação que era também um sonho do escritor e diplomata. A presidente da Fundação, Helena Guerra, que foi companheira do escritor falecido em Abril de 2002 e que reside em parte do edifício, prefere guardar para mais tarde explicações sobre o assunto. A única filha de Álvaro Guerra, Catarina Rabaça Guerra, fruto do primeiro casamento, um dos nomes que consta nos estatutos da fundação, queixa-se que tudo foi feito à sua revelia. Disse a O MIRANTE que não chegou a ser contactada sobre qualquer intenção de criar uma fundação para perpetuar o nome pai ou tão pouco informada sobre uma exposição que chegou a ser organizada em sua memória. As divergências familiares estão a ser resolvidas em tribunal. Em Outubro de 2003, no Celeiro da Patriarcal, em Vila Franca de Xira, foi apresentada a fundação e anunciada a intenção de a instalar no prédio próximo da Igreja Matriz, onde o escritor viveu na última fase da sua vida, mas que já tinha pertencido anteriormente a uma avó e duas tias. Segundo o protocolo assinado na altura com a câmara os objectivos da fundação passariam por “preservar e difundir a obra do escritor e promover actividades de carácter cultural e artístico”. Entretanto já foi colocada uma placa com o nome do escritor na casa onde nasceu e já foi dado o nome à escola primária que frequentou próximo da Igreja Matriz e à Travessa do Alecrim no centro da cidade.Entre os convidados da cerimónia de lançamento da fundação estiveram dezenas de amigos de Álvaro Guerra, incluindo os antigos presidentes da República Mário Soares (conselheiro da fundação) e Ramalho Eanes (presidente honorário), o então ministro da Cultura, Pedro Roseta e a esposa do então Primeiro-Ministro, Margarida Sousa Uva. Baptista Bastos, Júlio Graça, Arquimides da Silva Santos, o actor Raúl Solnado, o apresentador de televisão Fialho Gouveia, o cartoonista António e o matador de toiros Mário Coelho estiveram nas primeiras filas. Mas o público anónimo também esteve presente.A escritora Agustina Bessa Luís, uma amiga e admiradora de Álvaro Guerra também nomeada conselheira da fundação, elegeu como seu romance preferido as “Razões do Coração”. “Quem melhor nos desconhece, melhor nos interpreta”, dizia Álvaro Guerra.Os rostos da fundaçãoA Fundação Álvaro Guerra é liderada pela antiga companheira do escritor, Helena Guerra. O vice-presidente é Pedro Jaime e Vasconcelos. O comandante Vítor Alves, Mário Mesquita e o escritor José Jorge Letria completam o quadro de administradores e o “núcleo duro” da fundação. Os generais Ramalho Eanes e Fernando Moura de Carvalho são presidentes honorários. O antigo Presidente da República Mário Soares lidera uma lista de conselheiros onde se incluem a escritora Agustina Bessa Luís, José Blanco, o realizador António Pedro Vasconcelos, o toureiro Mário Coelho, Fernando Barata, Alberto Mesquita, a professora Maria José Vitorino, Fernando Silva e o cartoonista António, entre outros.Escritor, diplomata e jornalista Álvaro Manuel Soares Guerra - nascido em Vila Franca de Xira em1936, onde morreu em 2002 - foi escritor, diplomata e jornalista, mas desenvolveu também um percurso político importante. Combateu na Guiné na Guerra do Ultramar e desde cedo se manifestou contra o salazarismo. Após um ferimento regressou a Portugal, mas acabou por rumar a França evitando as perseguições da PIDE. Regressou depois ao país e ligou-se ao jornalismo. Colaborou no “República” e participou na fundação de “A luta”.Após o 25 de Abril de 1974 desempenhou funções de director de informação da RTP e foi assessor do Presidente da República Ramalho Eanes. Iniciou, depois, uma carreira diplomática que o levou à antiga Jugoslávia de 1977 a 1984. Na qualidade de embaixador passou, também, por locais como Nova Deli, Kinshasa e Estocolmo.A obra literária destaca-se pela publicação da chamada “trilogia dos cafés” – República, Central e 25 de Abril - onde, a partir de conversas desenvolvidas no mais castiço café de Vila Franca, relatou fases marcantes da história de Portugal vividas numa vila ribatejana. O primeiro romance “Os Mastins” foi prefaciado pelo conterrâneo Alves Redol. Num outro registo a obra “Crónicas Jugoslavas”, marcada pela experiência diplomática, valeu-lhe o Grande Prémio da Crónica da Associação Portuguesa de Escritores.O escritor natural de Vila Franca de Xira era também um aficionado. “A escrita é um desafio, tal como a tourada. Gostaria de fazer da minha vida uma tauromaquia”, confessou.
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