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“O museu do Neo-realismo é demasiado grande para o objecto de estudo”

A jornalista e escritora de Vila Franca de Xira, Maria João Martins, é crítica sobre os espaços culturais da cidade onde nasceu

Vila Franca de Xira precisa de mais que um museu do Neo-realismo para ter uma política cultural. As iniciativas devem ser mais divulgadas e é preciso trazer mais gente ao concelho, diz a jornalista e escritora vila-franquense Maria João Martins, 42 anos, que apesar de radicada em Lisboa, onde trabalha, continua atenta ao pulsar da cidade que já foi conhecida como “Vila Vermelha”. Ana Santiago

Edição de 05.08.2009 | Entrevista
Já teve oportunidade de visitar o Museu do Neo-realismo de Vila Franca de Xira em reportagem antes da abertura. Depois disso já lá voltou?Sim, na altura do sável (risos). Fiquei muito bem impressionada com o espaço arquitectónico. O museu resgata a memória política e literária de Vila Franca de Xira extra tourada o que é importante. Muitas pessoas não sabem, mas a cidade já foi conhecida como a “Vila Vermelha” pela resistência ao fascismo. E foi um projecto arquitectónico com muitas críticas.Não podemos passar a vida a defender castelos, a não ser que se trate de especulação imobiliária, como acontece com o centro comercial. Em frente a uma estação de comboios maravilhosa está uma aberração. Isso sim choca-me bastante. O edifício do museu acho é um belo exemplar de arquitectura portuguesa contemporânea. E a questão da programação? Entrou-se em grande ritmo e já se abrandou.O tema é um pouco limitado no tempo. Já não existe Neo-realismo. Existe um médico da minha infância e um grande amigo da Póvoa de Santa Iria que é Arquimedes da Silva Santos. Não há muito mais. É difícil continuar a levar ao museu investigadores e estudiosos do Neo-realismo porque estão a acabar.O nome é demasiado restrito?Pode ser o museu do Neo-realismo, mas tem que construir na programação pontes com outras coisas ou o projecto morre depressa. O problema que encontro naquele museu é que é demasiado grande para o objecto de estudo. Há muito a ideia – e o museu podia combater isso – de que o Neo-realismo é uma literatura de pobrezinhos. As pontes para a contemporaneidade podem ajudar a desmontar isso. O termo Neo-realismo é usado como pejorativo. Infelizmente não está fora de moda e continua a haver condições sociais para alimentar o Neo-realismo. E porque é que as sessões são tão pouco participadas? É um museu que está numa cidade pequena. Por outro lado é pouco divulgado. É um problema de estar perto de Lisboa. As pessoas vêem Vila Franca como um dormitório de Lisboa e não é, antes pelo contrário. É dos poucos concelhos limítrofes de Lisboa que tem uma identidade muito própria. O mês do Sável, por exemplo, pode ser uma aposta ganha. É possível que muita gente vá a Vila Franca de Xira almoçar ou jantar. Também é possível fazer isso com os espaços culturais. Atrair escolas. Não me parece que seja feito. Têm que insistir junto dos jornais mais lidos. É um problema de estratégia de comunicação. Não basta a Vila Franca ter o museu.Tem que ter outras coisas. As pessoas vêem o museu e está visto. São precisos espectáculos de rua e de sala, teatro e cinema. É horrível que uma cidade daquela dimensão não tenha cinema. E isso tem que ser visto como investimento a fundo perdido. Não se pode pensar que dá lucro.E o que correu mal no centro comercial?Quando o próprio cinema não funciona, que muitas vezes é a âncora de um centro comercial, é grave. As pessoas fazem as compras nos sítios onde trabalham. O que se nota é que em Vila Franca de Xira a população está muito envelhecida. É uma questão que a câmara se deveria colocar. A requalificação do centro histórico e da zona do rio com criação de espaços que sejam atraentes para as pessoas é fundamental. As pessoas vêem Vila Franca como um dormitório de Lisboa e não é, antes pelo contrário. É dos poucos concelhos limítrofes de Lisboa que tem uma identidade muito própria. O mês do Sável, por exemplo, pode ser uma aposta ganha. É possível que muita gente vá a Vila Franca de Xira almoçar ou jantar. Uma jornalista com raízes à beira TejoQuando o sável desce o rio, na época em que é apreciado à mesa em Vila Franca de Xira, Maria João Martins deixa a Lisboa onde mora e trabalha e assoma à cidade onde nasceu há 42 anos para saborear o pescado típico na companhia do pai. Foi em Vila Franca de Xira que a jornalista do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, actualmente a coordenar o carderno de educação, passou os primeiros oito anos de vida. Depois a família rumou à Póvoa de Santa Iria onde Maria João Martins viveu a adolescência. Frequentou o Colégio Bartolomeu Dias, em Santa Iria até seguir no 10º ano para a actual Escola Secundária Vitorino Nemésio. Sente Vila Franca de Xira como a terra mãe. A Póvoa de Santa Iria, uma terra que a partir dos anos 80 foi ganhando vícios de suburbanidade, mercê de ser subúrbio do concelho, perdeu o pouco que tinha de terra pequena e nunca agradou verdadeiramente à estudante de história na Faculdade de Letras, espectadora assídua das sessões de cinema do desaparecido Cine-Teatro Nazaré que abanava à passagem do comboio rápido. É jornalista desde os 20 anos. Oito anos depois mudou-se de malas e bagagens para Lisboa, onde ainda vive. É o pai que a visita com mais frequência em Lisboa. A mãe faleceu há oito anos.À mesa de um café de um centro comercial de Benfica, nas imediações do Colombo, em Lisboa, perto do local onde vive Maria João Martins saboreia um “jesuíta” partido ao meio com sentido de humor e saltos altos para disfarçar a baixa estatura de uma mulher que se revela grande. Foi professora universitária, assessora do Instituto Camões e chegou a assinar um programa na Antena 2. O trabalho de pesquisa deu-lhe matéria-prima de sobra para escrever vários livros, como “Escola de Validos” (Teorema - outras histórias). Foi durante a preparação de um dos programas que se deparou com magnífica história de D. Afonso VI que não tinha condições para ser rei. “A partir dessa história criei uma intriga que em alguns pontos não estará assim tão longe do que se passou”, confessa a escritora que tem na gaveta, à espera da resposta da editora, a primeira história de amor. Ao fim de semana e à noite entrega-se à prosa não jornalística, mas não escreve tanto quanto gostaria, afiança.Quando o comboio rápido fazia abanar a sala do Cine-NazaréMaria João Martins e as memórias de uma adolescência na Póvoa de Santa iriaViveu os primeiros oito anos de vida em Vila Franca de Xira. Os seus pais eram de lá?Os meus pais são de Lisboa. Foram viver para Vila Franca de Xira porque a vida era mais fácil lá nessa altura. A minha mãe era da Rua da Madalena, o meu pai de Marvila. Mesmo nessa altura, há mais de 40 anos, já era caro alugar casa em Lisboa. O comboio era um meio de transporte muito bom para o meu pai ir trabalhar, na zona de Braço de Prata. A minha mãe era doméstica. Morávamos perto do rio e da estação de comboios.Que memórias tem desse tempo?Às vezes é um pouco difícil distinguir o que são as memórias da Póvoa de Santa Iria, para onde fomos depois, das memórias de Vila Franca. Havia uma relação muito próxima com o rio e com o jardim. Lembro-me de ir com o meu pai tratar de assuntos à câmara e de comprar os manuais escolares e os cadernos a uma pequena livraria que ali há. E lembro-me das festas do pavilhão do cevadeiro, das feiras taurinas, embora não goste de touradas. Era uma cidade muito politizada. Os anos a seguir ao 25 de Abril foram muito fortes.Passou a adolescência na Póvoa. Frequentava o Grémio Dramático Povoense?Era lá que ia aos bailes e às festas. Não havia discotecas. E já havia esta conotação de suburbanidade?Na adolescência sim, na infância não tanto. Havia muita gente que trabalhava na Póvoa. Depois as coisas foram mudando à medida que entrámos nos anos 80. E o que recorda mais?Além dos bailes no Grémio e nos Bombeiros havia um cinema. Era tão próximo da estação de comboios que de cada vez que passava o rápido para o Porto ou para Lisboa o cinema abanava todo. Foi no Cine-Teatro Nazaré que vi “Grease” com toda a gente a cantar no cinema. Os jovens ainda não iam para Lisboa.Não. Tudo isso mudou. Era um meio pequeno. Toda a gente falava de toda a gente e as raparigas eram muito vigiadas pelas mães. E o concelho de Vila Franca de Xira vai continuar a receber mais gente nos próximos anos.É uma questão económica. As casas são mais baratas. Também há cada vez mais empresas a sair de Lisboa. Muita gente gostaria de morar na zona histórica de Lisboa, mas a câmara municipal não resolve esse problema. A câmara não tem capacidade para travar a construção?Deveria. É para isso que as pessoas elegem os autarcas, mas não têm essa capacidade e são até muito permeáveis a isso. Mas o problema não se resolve com a acção de uma câmara. Bastava que a Câmara de Lisboa apostasse numa política de reocupação a preços acessíveis da Baixa, por exemplo, onde há centenas de casas devolutas e as pessoas já não iriam viver para tão longe dos seus trabalhos. Tem que haver uma acção concertada. E se isto não é feito deve apostar-se em alguma vida cultural e desportiva para que as pessoas tenham alguma ligação ao sítio onde moram, o que não acontece.E o que pensa da “nova Vila Franca”?A lezíria deveria ser um espaço protegido. O centro histórico tem lá muitas casas devolutas que podiam ser requalificadas. Há dificuldades logísticas, mas isso também aconteceu no Bairro do Castelo, em Lisboa. As pessoas choraram, mas quando voltaram as casas estavam óptimas. É um processo difícil porque joga com as afectividades das pessoas, mas tem que se ter alguma coragem.A aposta na tauromaquia à partida está ganha. Pode mostrar-se que há outras coisas. A tauromaquia cristalizou muito no tempo e passa sempre a mesma imagem do marialva, do toureiro, do campino. “A tauromaquia cristalizou no tempo”Quando morava em Vila Franca assistia às largadas de toiros?O que é engraçado é que mesmo não gostando percebe-se que aquela identidade é muito forte. Por princípio sou contra. Não faz sentido, mas como manifestação de cultura popular não deixa de me comover.É uma das ideias mais fortes em termos de turismo no concelho.Tem mesmo que ser, embora a proximidade com o rio devesse ser melhor aproveitada. As coisas podem ir a par.E isso não tem sido feito?Acho que já começou a ser feito com a construção do passeio ribeirinho. A literatura tem em Vila Franca de Xira um marco muito forte, com Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes, que falam muito dessa relação com o rio. Porque não resgatar a memória do que significava o rio em termos de subsistência e mesmo em termos de tragédia? Quando morava na Póvoa de Santa Iria havia meninos que moravam nos Mouchões e que iam de barco para a escola. Julgo que hoje as pessoas não sabem isso.Considera que faz mais sentido apostar no rio que na tauromaquia.A aposta na tauromaquia à partida está ganha. Pode mostrar-se que há outras coisas. A tauromaquia cristalizou muito no tempo e passa sempre a mesma imagem do marialva, do toureiro, do campino. Isso em Espanha é muito bem feito. Embora não aprecie, quando vejo uma cena de tourada num filme de [Pedro] Almodóvar, como em “Fala com Ela”, acho lindíssimo. Em Portugal há bons exemplos que não são aproveitados para mostrar que as pessoas da tourada não têm que ser necessariamente ignorantes ou uns brutos que espetam farpas no touro. “As mulheres acham que a ambição as torna menos sedutoras”Nasceu num concelho que é hoje liderado por uma mulher. As quotas são mesmo necessárias?Não, mas percebo que tenham que existir durante um período curto de tempo até se criar o hábito de ter as mulheres na política. O jornalismo é um reduto um pouco parecido com a política. Embora as redacções neste momento estejam cheias de mulheres o poder está na mão dos homens.E porque é que isso acontece?Não é que os homens estejam agarrados ao poder. As mulheres não têm o culto da ambição. Sentem-se culpadas. Porque deixam os filhos e porque sentem que estão a desvirtuar a função feminina. Acham que isso as torna menos sedutoras e atraentes. As mulheres quando são chamadas à atenção por um chefe sentem-se postas e causa como pessoas. Desabam. Os homens raramente fazem isso. Sentem-se postos em causa pelo trabalho que fizeram. Acontece consigo?Já aconteceu e superar isso foi uma longa aprendizagem.Tem a ver com a natureza das mulheres?Tem a ver com aquilo que nos foi inculcado ao longo de séculos. A minha mãe educou-me assim como todas as mães dos países latinos. As mulheres têm que perceber que são capazes e têm que criar defesas para os embates da vida política que são duríssimos. Escreve-se e diz-se coisas horríveis sobre as pessoas. Para uma mulher isso ainda é muito complicado. E a mentalidade está assim a mudar?Nesta geração voltou-se um pouco atrás. Oiço coisas de estagiárias que me impressionam. O que querem rapidamente é casar de branco e ter filhos. Não importa não ter emprego. Na minha geração isto não era uma prioridade. Fomos criados logo a seguir ao 25 de Abril. Havia uma cultura da liberdade e da emancipação da mulher. Mas não estou muito preocupada com o que se passa no Ocidente. Preocupa-me mais a condição das mulheres nos países muçulmanos. Já se sentiu discriminada?Declaradamente não. Em termos de questões implícitas sim. Nunca nada me foi vedado por ser mulher, mas senti que é diferente. Há menos oportunidades. Acho que a mudança vai levar algum tempo porque passa pelas mulheres. Em Portugal e Espanha há muito a cultura católica e dos fascismos que as pessoas mais velhas transmitem aos mais novos. A profissão de jornalista limitou de alguma forma a sua vida?Se calhar era pior ser operária fabril. Não poderia estar a esta hora a falar consigo.

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