Desempregados de Azambuja têm gabinete que ajuda a encontrar trabalho
Serviço da autarquia foi procurado em 2008 por mais de quatro mil pessoas
Chama-se GIP (Gabinete de Inserção Profissional) e dá apoio gratuito a todas as pessoas que estejam à procura de emprego em Azambuja. Em 2008 o serviço atendeu mais de quatro mil pessoas. Este ano já ultrapassou o milhar. Filipe Matias
“Tenho um piercing e uma tatuagem. Como me devo apresentar para uma entrevista de emprego”? Esta é uma das perguntas que frequentemente são escutadas pelas técnicas do GIP - Gabinete de Inserção Profissional da Azambuja. O gabinete foi criado em Maio de 2009 pela Câmara Municipal de Azambuja para dar continuidade à antiga unidade de inserção na vida activa. Pretende ser um espaço de apoio aos desempregados e jovens à procura do seu primeiro emprego.Os serviços do GIP são gratuitos para o cidadão e funcionam em articulação directa com o Instituto de Emprego e Formação Profissional. Além de prestar informação profissional a jovens e adultos desempregados as técnicas do GIP ajudam a elaborar currículos, a preparar entrevistas, ensinam técnicas de procura de emprego e realizam acompanhamento personalizado dos desempregados durante a sua fase de inserção e reinserção profissional. A captação de ofertas junto de entidades empregadoras, encaminhamento dos desempregados para ofertas de qualificação profissional, divulgação de medidas de apoio ao emprego e até sessões de motivação são outras das valências do gabinete, a funcionar no Páteo Valverde.“É muito difícil arranjar emprego actualmente. Muitas pessoas não têm bem presente a situação actual. Sabem que estamos em crise e que cada vez há mais desempregados mas só quando passam pela situação de desemprego é que tomam consciência da dificuldade que há em conseguir novo emprego”, alerta Maria Alexandra Mota, animadora do GIP. No inicio do mês de Junho o concelho da Azambuja tinha perto de 1020 desempregados. No dia em que estivermos no local em reportagem contavam-se apenas 21 ofertas para empregados de mesa, mecânicos, cozinheiros, empregados de balcão, tesoureiros, auxiliares de limpeza, ajudantes de cozinha, empregados de armazém, programador de informática, telefonista, canalizadores, caixa de comércio e cabeleireiros. “O emprego não cai de uma chaminé. É preciso procurar muito. O concelho da Azambuja tem dois pólos diferentes: muita população, especialmente os desempregados residentes no alto do concelho, população entre os 50 e os 65 anos, que tem baixa escolaridade, só teve uma profissão e descontou pouco para a Segurança Social. E depois ainda temos os jovens licenciados que querem trabalhar nas áreas em que se especializaram...”, refere a responsável a O MIRANTE. Segundo o GIP, os mais velhos são rejeitados pelas empresas e os licenciados têm, muitas vezes, de “ajustar” as ofertas existentes às suas qualificações. “Já tive economistas licenciados em gestão de empresas que foram encaminhados para ofertas de escriturário”, refere Maria Mota. Em 2008, ainda sob a designação de Univa, o serviço atendeu mais de 4 042 pessoas, 2 265 mulheres e 1 777 homens. Só entre Janeiro e Abril deste ano a contagem já vai nos 1 476 desempregados. “Vivemos num período em que o desemprego aflige a generalidade da sociedade portuguesa e particularmente as pessoas em busca do primeiro emprego. Nós sabemos que existe desemprego em Azambuja. Mas se compararmos o nosso município com outros, seremos o que na região tem uma situação percentual melhor ao nível do desemprego. Tivemos aquele grande tropeção que foi a deslocalização da GM para Saragoça mas entretanto têm-se criado postos de trabalho que têm esbatido essa situação”, garante o presidente da autarquia, Joaquim Ramos. O autarca garante que estão em construção estruturas que vão criar no concelho “para cima de um milhar de postos de trabalho”, sobretudo na logística e no futuro Biotério, que o presidente diz esperar que avance em 2010. “É fundamental diversificar a estrutura de emprego em Azambuja. Há unidades aqui que empregam pessoas de fora, de outros concelhos, especialmente na logística. Queremos apostar no turismo para o norte do concelho”, refere o edil, acrescentando que os projectos de execução de novos campos de golfe e locais de hotelaria arrancam em Setembro. Enquanto isso, os desempregados que precisem de ajuda podem sempre recorrer aos serviços do GIP através do contacto 263 400 400.De empregado da GM a patrãoNasceu e cresceu na Azambuja. Paulo Santos, actualmente com 32 anos, foi trabalhador temporário na fábrica da Opel da Azambuja pouco depois de sair da tropa. “Comecei a pintar carros”, afirma. O contrato acabou, arranjou outros empregos na vila e voltou a ser chamado pela General Motors, onde ficaria por mais um ano e meio. “Mas mais uma vez acabou o contrato e como não estavam a colocar efectivos fui trabalhar nas OGMA de Alverca nos tratamentos electrolíticos. Não via aquilo como futuro e fui sempre tentando voltar à Opel”, recorda a O MIRANTE. Paulo voltou mesmo à Azambuja mas o destino fez com que, 8 anos depois, a GM encerrasse a fábrica. Foi nessa altura que visitou o GIP e começou a estudar a hipótese de constituir o seu próprio emprego. “Eu e o meu irmão, que também trabalhava na Opel, tentámos ir à procura de alguma coisa e ao fazermos a pesquisa lembrámo-nos de abrir um restaurante. Comecei com o meu irmão e o meu sogro, não sabia nada de restauração mas depois fui aperfeiçoando a técnica”, conta. Das várias vezes que veio ao gabinete surgiram sempre ofertas, mas Paulo ambicionava criar o seu próprio negócio. “Fizemos uma sociedade os três e trabalhámos um ano e tal juntos. Ao fim de um ano eles seguiram para outro projecto e eu aqui estou e espero continuar por muitos mais anos”, refere. Fez em Abril dois anos que Paulo passou de empregado a patrão. É dono de um restaurante no Atrium da Azambuja e diz que deixou de trabalhar sete horas diárias para passar a laborar 15 horas por dia. “Claro que estamos a lutar por algo que é nosso mas é duro. Isto tem muitas coisas que não nos deixam dormir noites inteiras. Preocupações com os empregados, com o negócio, as contas por pagar...”, lamenta. Ainda assim garante que a receita vai dando para a despesa. Actualmente tem ao seu encargo quatro funcionários. Diz que precisava de mais, “mas aparece pouca gente para trabalhar”.Medidas de apoio social esvaziam cofres municipaisAs medidas de apoio social lançadas pelo município da Azambuja para fazer face à actual situação de crise estão a esvaziar os cofres do município. “Têm um peso significativo nos cofres da autarquia. Ainda esta semana foram aprovados em assembleia municipal dois subsídios para os centros sociais e paroquiais de Azambuja e Aveiras de Cima no valor de 200 mil euros, que é uma verba muito significativa. E existem outras que se reflectem directamente no orçamento municipal, por exemplo no apoio às famílias numerosas e nos consumos de água”, refere Joaquim Ramos, que diz não esperar grandes ajudas de Lisboa. “Diz-me a experiência que Lisboa nunca ajuda muito. Isto são verbas exclusivamente municipais”, garante. As medidas de apoio social têm como objectivo apoiar estratos sociais mais desfavorecidos, estimular o emprego e o tecido empresarial, apoiar os jovens e as famílias numerosas.Encontros com empresários estrangeiros ainda não deram frutosOs encontros de empresários estrangeiros promovidos pela Câmara Municipal da Azambuja ainda não se reflectiram em investimentos concretos no concelho. Quem o diz é o presidente da autarquia, Joaquim Ramos, que diz ser “normal” a demora nos investimentos. “Relativamente à instalação de indústrias ainda não tivemos resultados. São coisas que demoram algum tempo. Agora nós temos recolhido e divulgado as potencialidades do concelho em meios de comunicação social dos países relativos às pessoas que cá vieram. Sabemos que existe muito interesse em investir aqui mas temos de aguardar”, refere o presidente. Vontade de trabalhar é meio caminho andadoEstudou até ao 12º ano de escolaridade e foi empregada de armazém. Algum tempo depois Sandra Pinela, 32 anos, natural da Azambuja, foi mãe. A trabalhar por turnos e sem ninguém que cuidasse da criança, resolveu despedir-se e procurar um novo emprego. “Fui parar a um sítio onde as coisas se complicaram, entrei num grande desgaste psicológico e acabei por me despedir novamente. Estive em casa um ano mas isso não era solução”, explica a O MIRANTE. Foi então que tomou conhecimento do GIP. “Para quem está desempregado e não pode gastar dinheiro este gabinete é bom porque está perto de casa, tem atendimento mais personalizado e não tenho de estar horas a fio à espera no centro de emprego de Vila Franca de Xira”, explica. Arranjou emprego há pouco tempo através do GIP e é actualmente conferente numa firma de limpezas. “Já estive no fundo de desemprego a receber subsídio e ao fim de um mês arranjei logo trabalho. A pessoa quando tem vontade consegue sempre arranjar trabalho”, conclui.
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