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“Sempre quis ser o melhor em tudo o que entro”

“Sempre quis ser o melhor em tudo o que entro”

Armelim Ferreira é distinguido sexta-feira pelo município do Entroncamento

Em 1986 foi considerado o melhor árbitro do Mundial de hóquei em patins que decorreu no Brasil. Essa é a maior coroa de glória do vasto e multifacetado currículo desportivo de Armelim Ferreira, um homem nascido e criado no Entroncamento. O município natal homenageia-o sexta-feira. Com a frontalidade que o caracteriza fala de episódios da sua vida, como a trágica perda de um filho, e diz que não troca a sua liberdade por nada. João Calhaz Fernando Vacas de Jesus

Edição de 16.09.2009 | Entrevista
Vai ser distinguido esta sexta-feira, dia 18, pela Câmara Municipal do Entroncamento. Era uma homenagem que já tardava?Não pedi nada a ninguém. Se acharam que era agora… Já fui homenageado pela Câmara do Entroncamento nas primeiras medalhas que atribuíram no tempo do presidente Serrão Lopes. Já lá vão 30 anos talvez. Foi bonito, com muita gente. Muito calor humano, em especial dos meus amigos da altura que eram todos uma maravilha. Como estava na crista da onda tinha amigos às carradas. É natural.E deixou de ter?Não. Afastaram-se foi um bocadinho. Porque agora são ricos ou são importantes…Então não eram bem amigos…Isso digo-lhes eu de caras. Uma coisa que aprendi foi a ser leal e frontal, embora por vezes seja um bocado contundente. As pessoas sabem que tenho razão e depois afastam-se também um bocadinho. Nunca esperei que me dessem nada, mas que pelo menos me dessem a importância que eu penso que, se calhar, ainda tenho. Em minha honra, e também da minha terra, do Ribatejo e do país, tocou 11 vezes o hino nacional em competições internacionais de hóquei em patins. Ficou orgulhoso com este reconhecimento por parte do município do Entroncamento, ou acha que isto pode ter a ver com a época eleitoral que se atravessa?Não acho que tenha a ver com eleições, porque não tenho influência política nenhuma. Eu sou um politiqueiro que quando pensa que tem razão diz as coisas na cara das pessoas. É uma pessoa que gosta de participar na vida comunidade, de apontar o que acha que está mal?Agora já nem tanto. Só vou aos sítios de que gosto muito, como a barragem do Bonito que ajudei a construir e onde vou quase todos os dias. Colegas meus da pesca dizem que eu sou o dono da barragem. Não sou nada, só incomodo os políticos para terem aquilo como deve ser. Ficou triste quando, há uns anos, recusaram atribuir o seu nome ao novo pavilhão desportivo do Entroncamento?A mim não recusaram nada. Disseram-me que quando eu morresse se calhar davam o meu nome ao pavilhão. Mas propuseram já aí algumas ruas com os nomes de certos indivíduos que pelo Entroncamento não sei o que fizeram e se calhar nem são de cá. Gostava de ter o seu nome numa rua?Gostava que me homenageassem se achassem que me deviam homenagear. Acharam agora, não agradeço nada a ninguém. Acha que as pessoas devem ser homenageadas em vida?Sim. Eu quero que a minha filha, a minha neta e os meus netos por parte da minha companheira me batam palmas e me dêem um beijo. Infelizmente o meu filho morreu há quase dois anos, foi uma perda muito grande.Vive de quê actualmente?Tenho a minha casa e tenho a minha reforma de gerente comercial da ourivesaria que era da minha mãe. Dei também aulas de educação física durante uns anos em Torres Novas, no Colégio Andrade Corvo. Fui um indivíduo completamente dedicado ao desporto.Árbitro de hóquei em patins para homenagear o paiComo é que se lembrou de ser árbitro de hóquei em patins? Foi em homenagem à memória do meu pai. Foi ele que trouxe o hóquei em patins para o Entroncamento. Antes disso pratiquei patinagem artística no União, fiz hipismo e atletismo na Mocidade Portuguesa e joguei futebol. Fui campeão distrital de juniores no União de Tomar. Praticante de hóquei em patins nunca foi?Não. Mas não me importava de apitar de patins. Uma vez até ganhei uma aposta num jantar, em Saint Etiénne (França), por ter dado umas voltas ao rinque com uns patins emprestados por um atleta.Quando se meteu na arbitragem de hóquei em patins pensou que podia chegar ao topo?Pensei sim senhor. Sempre quis ser o melhor em tudo o que entro. Ainda hoje, se vou à pesca é para ganhar. E quando não ganha fica aborrecido?Nada. Participei... Mas nunca joga a feijões?Nunca. Para mim é tudo a sério. Até à sueca gosto de jogar a uma bebida. No desporto estive sempre a sério. E outra das coisas de que tenho muita vaidade é de ter treinado o actual presidente da câmara, Jaime Ramos, que jogava futebol no CADE. Treinei os juvenis, os juniores e os seniores do CADE. Sempre me dei bem com os autarcas quase todos.A arbitragem permitiu-lhe conhecer mundo.Sim. Conheci de facto o mundo, fui a muito lado, tenho muitos amigos devido ao hóquei. Dediquei-me à arbitragem de alma e coração.Aproveitava para conhecer um pouco das cidades que visitava?Não muito. O tempo não era muito. Sempre preservei muito as minhas obrigações. Andei 26 anos na arbitragem e nunca um jogador, um treinador ou um dirigente me pediu para beneficiar o seu clube. O único indivíduo que me pediu para beneficiar um clube - foi por isso que eu não quis ir para o conselho central de arbitragem porque ele estava lá e eu tinha que o pôr fora - foi um árbitro que chegou a internacional. “Tenho mais troféus que muitos clubes”A sua sala de troféus dá uma ideia do que foi a carreira desportiva de Armelim Ferreira. “Tenho mais troféus que oitenta por cento dos clubes nacionais”, diz sem falsas modéstias. O currículo desportivo de Armelim Ferreira é realmente impressionante. Como árbitro de hóquei em patins apitou cerca de 500 jogos oficiais, entre eles 3 finais da Taça de Portugal, 3 finais da Taça dos campeões Europeus, 3 finais da Taça das Taças e esteve presente em campeonatos da Europa e do Mundo. O momento alto aconteceu em 1986 quando foi considerado o melhor árbitro do mundial realizado no Brasil. Deu ainda três cursos de arbitragem de hóquei em patins em Angola.Antes de optar pela arbitragem no hóquei em patins, foi praticante de atletismo e hipismo na Mocidade Portuguesa e depois jogou futebol como júnior no União de Tomar e sénior no Ferroviários, União de Tomar, Riachense, Matrena e CADE. Hoje dedica-se à pesca e à caça. Como pescador desportivo de competição esteve na fundação e é sócio número um do Clube de Amadores de Pesca do Entroncamento e participou no campeonato do mundo de pesca desportiva de 1986 na Suécia. Como dirigente esteve ou está ligado a colectividades do Entroncamento como o emblemático “Parafuso” e o Núcleo Sportinguista local. Foi monitor de atletismo e delegado técnico do conselho de arbitragem da Associação de Futebol de Santarém.Recebeu a medalha de bons serviços desportivos outorgada pela Direcção Geral de Desportos, a medalha de bons serviços municipais atribuída pela Câmara do Entroncamento, e é sócio de mérito da Federação Portuguesa de Patinagem e da Associação de patinagem do Ribatejo, entre outras distinções. Confessa com orgulho que, graças a si, tocou onze vezes o hino nacional antes de jogos de competições internacionais de hóquei em patins onde foi árbitro.“Os carolas já estão desaparecer ou a ficar cansados”É um apreciador da zona do Bonito. O que lhe diz o novo complexo desportivo ali implantado?Penso que foi feito no local ideal. Não havia outro local para ser feito. O concelho é muito pequeno e o espaço tem que ser bem aproveitado. O complexo desportivo já não será para mim, mas penso que é uma boa obra. Há quem o considere exagerado. Mas para o desporto nada é exagerado, é tudo pouco.Também sentiu a morte do Grupo Desportivo dos Ferroviários?Ao contrário do que se diz, o Ferroviários não era o clube mais carismático do Entroncamento. Já não era sócio há muito tempo, por isso não senti muito a sua morte.Se o Ferroviários não é o mais carismático, qual é?Para mim é o CADE, pelos muitos miúdos que movimenta. Mas o mais carismático de todos é o Parafuso, que vai fazer 100 anos e continua a desenvolver um trabalho na área dos desportos de salão. Tem uma sede sua que vale muitos milhares de euros. Na sua opinião o que fez morrer o Ferroviários?Algumas asneiras de alguns dirigentes e a demasiada dependência da câmara. Alguns clubes não fazem nada pelo desporto, recebem os subsídios da câmara e nada fazem. Não me quero alargar muito sobre isso, porque não estou muito por dentro do assunto.Fala do Parafuso como o seu clube do coração. Ainda pode voltar a ser dirigente?Não, já não quero pertencer a nada. Mas estou disposto a ajudar a manter o actual presidente no cargo, porque ele merece ficar para fazer a festa do centenário.Isso é um problema do dia a dia. Ninguém quer alinhar no dirigismo associativo.É verdade. Os “parvalhões” da exigência são cada vez menos. Faziam e estão a fazer coisas muito boas de borla e só eram vistos quando faziam alguma coisa menos bem. E quem critica foge sempre com o rabo à seringa. Quando lhes perguntam se querem ir para a frente das coisas fogem a sete pés. Os carolas já estão desaparecer ou a ficar cansados.Vai ver jogos de hóquei em patins?Não. Não concordo muito com a forma como os jogos são arbitrados. Continuo a lutar para que haja um árbitro e dois fiscais de baliza. Porque é a partir daí que surgem novos árbitros. Dei cursos aqui no Entroncamento e pelo menos quatro dos meus alunos chegaram a internacionais. Mas depois de fazerem de fiscal de baliza, andaram com a bandeira na mão a aprender e fizeram-se árbitros. Agora acabaram com isso e isso está a acabar com os árbitros. Depois os árbitros hoje arbitram para os delegados técnicos, que se vão colocar em locais bem visíveis.Tem algumas recordações gratas na sua vida?Tenho dois marcos históricos. Um curso de árbitros em Angola, no final do qual dei uma palestra de 45 minutos para um anfiteatro a abarrotar. No final, a primeira pessoa a levantar-se e a vir abraçar-me foi o ministro do Desporto, Guilherme Espírito Santo. Outro marco histórico foi o convite feito pelo presidente do Conselho Nacional de Arbitragem, Jorge Pauleta, para uma palestra num curso de reciclagem. À chegada ouvi dois árbitros novos a conversar e um dizia: este ano dei 37 cartões amarelos, 16 azuis e seis vermelhos. Meti-me na conversa e disse: “o meu amigo deu este ano tantos cartões como os que eu dei em toda a minha carreira de árbitro”. O árbitro desculpou-se com os delegados técnicos. Na palestra falei sobre isso, fui muito crítico e como é bom de ver nunca mais fui convidado.Foi delegado técnico de hóquei em patins?Não. Nunca quis ser, porque sabia que ia incomodar muita gente.E foi delegado técnico no futebol porquê? Fui porque o presidente da arbitragem era o meu grande amigo Atílio Xavier. Ele sabia que eu tinha tirado o curso de árbitro de futebol, tinha dificuldade em arranjar delegados e pediu-me para dar uma ajuda. Aceitei e fui delegado durante dois anos. Trabalha-se mal no hóquei em patins a nível associativo e federativo?Não estou a dizer que se trabalha mal. Estou a dizer que se trabalha bem. Basta ver que não querem perder os penachos que têm e não saem de lá nem à bala.Um homem do Entroncamento que adora Torres NovasSendo uma pessoa tão ligada à comunidade nunca foi assediado para a política?Há muitos anos uma força política convidou-me para liderar uma lista. Agradeci imenso mas eles estavam era a jogar com o meu nome. Ainda hoje continuo a dizer que para se ser presidente da câmara tem que se ter capacidade. Poderia ter dado, eventualmente, um bom vereador do desporto e da cultura. Na altura, porque hoje já não quero fazer nada dessas coisas. A minha liberdade não se paga com tão pouco dinheiro. Para que lado pende o seu coração em termos partidários?Eu sou do Sporting. Quando foi o 25 de Abril estive filiado no MDP/CDE.Foi a única vez em que esteve filiado num partido?Não. Também fui filiado no PSD. Mas para mim o que interessa é o que as pessoas são, o que me dão, e não o partido de que são.Imagina-se a viver noutra terra que não o Entroncamento?Sim, já pensei nisso. Há uma terra que adoro, que é Torres Novas. Isso é quase uma heresia para um homem nado e criado no Entroncamento.Também gosto muito da Chamusca, sempre fui muito acarinhado lá. Comecei lá a pegar toiros. Fui forcado dos 16 aos 22 anos. Foram seis anos muito intensos.Qual é a razão para gostar tanto de Torres Novas?Tem lá um rio onde podia ir à pesca todos os dias. E gosto das pessoas de lá. É um homem frontal. E a frontalidade por vezes traz dissabores…A frontalidade pagou-se sempre muito caro. Mas assim continuo a ser eu. Sou capaz de estar um pouco mais temperamental, mas fiquei realmente muito traumatizado com a morte do meu filho.Como é que se ultrapassa uma dor dessas?Não sei. Só tenho um inimigo e nem a ele lhe desejo semelhante dor. O que faz para tentar minimizar o sofrimento?Nessa altura em que necessitei muito dos meus amigos, alguns estiveram realmente comigo. Poucos. Depois foram-se afastando progressivamente porque me fui tornando mais temperamental, mais nervoso, mais agressivo.Disse que só tinha um inimigo. É um inimigo de estimação?É de estimação, mas não se pode saber quem é. Mas ele sabe, porque eu já lhe disse. Bon vivant confessoAssume-se como bon vivant que gosta de ir à tasca, de estar com os amigos, de ir à pesca e à caça. As saídas nocturnas já são mais escassas. Já lá vai o tempo das noitadas. Mas de vez em quando ainda se estica um pouco na mini-discoteca que tem na cave de um anexo da sua vivenda, na zona norte do Entroncamento, terra onde nasceu, na chamada rua da Estação, filho de um casal oriundo do concelho de Tomar. Na sala de troféus, junto a taças, medalhas, diplomas e fotografias, tem uma jaqueta dos tempos em que foi forcado em grupos da Chamusca e de Santarém. É um aficionado que guarda com zelo as recordações da sua juventude. Estudou no Colégio Nun’Álvares, em Tomar, e no Colégio Moderno, em Lisboa, mas não seguiu para o ensino superior. O seu coração pulsava pelo desporto. Tirou um curso de treinador de atletismo com o professor Moniz Pereira. Deu aulas de educação física, foi gerente comercial da ourivesaria da mãe, mas foi a actividade desportiva que lhe ocupou grande parte da vida, como praticante, árbitro e dirigente associativo.Um sportinguista que passou por dificuldades em AlvaladeComo árbitro de topo, Armelim Ferreira foi convidado para arbitrar dois jogos de exibição Portugal-Espanha, um deles para tentar convencer o presidente do Comité Olímpico Internacional a aceitar a modalidade nos Jogos Olímpicos. Garante que o coração nunca pendeu para as cores nacionais. “Foram jogos iguais aos outros”.Sportinguista convicto, militância que aliás nunca escondeu, garante que foi sempre imparcial quando apitava a equipa leonina. E foi mesmo no pavilhão de Alvalade que viveu as horas de maior aperto: “Num Sporting-Porto que os nortenhos venceram por 5-4 estive uma hora para sair do pavilhão porque queriam dar-me no nariz. As pessoas pensavam que o Sporting tinha de ganhar por ser eu a apitar.”
“Sempre quis ser o melhor em tudo o que entro”

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