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“O político é eleito pelo povo, o artista é eleito por Deus”

“O político é eleito pelo povo, o artista é eleito por Deus”

O operário metalúrgico que transformou a oficina num espaço de arte

Um dia José Coêlho percebeu que na oficina de metalurgia familiar, em Riachos, concelho de Torres Novas, onde nasceu, existia matéria-prima para obra de arte. E assim se fez poeta, desenhador e escultor. Até 6 de Novembro, na Galerie Art Present, em Paris, tem patente a exposição de escultura “Simpósio dos Simples – A Luz Fragmentada”. Uma homenagem aos grandes vultos materializada em metal. Ana Santiago

Edição de 21.10.2009 | Entrevista
Como é que surge a ideia para a obra de arte?A minha melhor obra de arte é sempre a que está por fazer. Fazer uma obra implica uma luta titânica interior para atingir um objecto estético que é sempre difícil. A própria obra interfere na sua execução. Há uma ideia que trabalhamos à partida, mas nunca é a final. Há coisas que a própria obra de arte exige. Costumo dizer que a criatividade é um espaço de liberdade. É um espaço sagrado que não dominamos. Somos um veículo, um filtro.A escultura de homenagem a Bernardo Santareno, em Santarém, mereceu algumas críticas. Como recebe estas observações à sua obra?São recebidas com grande humildade. Não somos os detentores da sabedoria e do conhecimento. Quando nos propomos fazer um projecto é para os olhos dos que são sensíveis e dos que não são. Mesmo as observações menos favoráveis são boas porque nos ajudam a crescer. Não me importo de ouvir críticas. O que é importante é que falem. A minha proposta de escultura é do século XXI. A provocação também é um objectivo da obra de arte. Despertar-nos do nosso adormecimento relativamente às coisas culturais. Einstein dizia que a fórmula do sucesso era muito trabalho, muito descanso e ficar de boca fechada. Mas o senhor, por exemplo, não se importa de falar abertamente do seu trabalho.Não tenho problemas e até gosto de ser confrontado. Como é que consegue dar rosto a uma escultura que não tem rosto?Para mim não é importante o rosto, a definição do nariz, dos olhos. A própria obra, de forma quase acidental, deixa-se determinar a ela própria. É um jogo de dança. Chega a orquestra. Afinam-se instrumentos. A sala começa a encher-se e os pares a dançar. A obra de arte nasce de um acto de graça. Só conseguimos dar rosto às coisas lendo a alma. A poesia é a alma da humanidade. É a voz de Deus na terra. É a voz dos homens sensíveis. É a voz dos homens que se desinteressaram de tudo. Deixaram o materialismo e dedicaram-se a uma causa: à obra. Dar rosto a uma obra é um trabalho espiritual. A obra acaba por se completar. Não há criação se não houver liberdade. Para haver liberdade tem que haver confiança. A crise internacional fez-nos perder confiança. Não temos confiança no banco, no sacerdote, no político, no presidente da junta, no vizinho nem no homem que vai a passar na rua que pode ser um ladrão. Em termos de sensibilidade social estamos à beira do abismo. É uma visão muito negativa vinda de um artista.Não é uma visão negativa. É uma consciencialização. Quando vou no metropolitano em Paris ando sempre com a mão no bolso. Não tenho confiança porque já fui assaltado. Não é uma visão negativa. A sociedade só se salva se conseguir encontrar as mãos de Deus.É uma pessoa crente?Sou uma pessoa crente. Não vou à missa. Acredito num Deus que é um espaço superior de consciência das coisas. Nunca consegui ser ateu. Mesmo quando tudo era ao contrário. O meu pai deu-me esta visão. Não é politicamente correcto dizer que acreditamos em Deus quando todos são ateus. Parti do nada, da oficina do meu pai, e ultrapassei amigos que estudaram no estrangeiro. Descobri que Leonardo Da Vinci disse uma verdade absoluta: toda a matéria que está dentro de uma oficina é matéria útil para a obra de arte. Eu acrescentei: o artista faz parte dessa matéria.Como é que consegue conciliar escultura, desenho e poesia?A minha experiência de vida confunde-se com a minha arte e a minha arte confunde-se com a minha experiência de vida. Os meus trabalhos são património dos outros. O meu prazer foi a possibilidade de os fazer. Os políticos são eleitos do povo, o artista é eleito por Deus. Ainda que isto possa ser considerado exagero. Tenho fé, acredito em Deus e no sentido espiritual do Homem. É o que nos diferencia dos outros animais. O menino que queria estudar piano teve que ir para a oficinaO discurso de José Coêlho é um quadro abstracto pincelado de múltiplas cores. Uma citação e um momento importante recordados aqui. Uma viagem e um livro evocados acolá. Pedaços entrecortados. O quatro é pintado de improviso no rés-do-chão da sua casa em Riachos, concelho de Torres Novas.José Coêlho é um artista forjado na tarimba da oficina da Metalúrgica Coelhos, onde hoje tem um atelier de artes. A sua primeira expressão artística foi a poesia. “Não é prudente ter medo da fome/ Ignorar o absurdo a indiferença/ Não dar a mão/ O mundo não acaba sem se despedir de nós ao fim da tarde”, escreve José Coêlho em “Ex-Voto”.Nasceu dentro de uma oficina. E sofreu. “Queria estudar e não me deixavam porque era preciso para trabalhar. Fui uma criança que à luz das novas leis sofreu exploração infantil. Mas eu sinto isso como uma experiência de vida. Mais tarde percebi que os meus amigos escultores tinham pena de eu ter uma oficina e eles não”, recorda. Aos 12 anos já trabalhava na empresa familiar que produzia as rodas das carroças, enxadas, ancinhos e alfaias agrícolas. “Herdei o talento do meu pai. Depois trabalhei. As prisões estão cheias de talentos. O talento só por si não é nada. Temos que o desenvolver”.É um homem forjado pelas suas próprias mãos e pela vontade do querer. Completou a escola primária em Riachos, mas o liceu já foi feito quando estava na Marinha. Trabalhava de dia. Estudava à noite. “A vida inteira é uma escola”, completa.O irmão rumou ao Ultramar. Os vários cursos pré universitários permitiram a José Coêlho fugir à guerra. Tinha a ideia de ir para um banco, mas o irmão convidou-o a dar sequência à obra da família. Quando retornou a Riachos já trazia o bichinho das aulas na Sociedade de Belas Artes. Tem três netos e dois filhos. Um engenheiro que gere hoje a metalúrgica e uma filha, formada em pintura pela Universidade de Coimbra. “Consegui fazer aquilo que não me fizeram a mim. É um passo em frente”.Um dia, José Coelho resgatou um livro de um monte de entulho. A frase decorou-a: “a força da vontade é mais forte que a inteligência”. Não é preciso ser muito inteligente para atingir determinados patamares. É preciso ser humilde, ter sede de conhecimento, ser amigo do amigo e criar relações afectivas com pessoas com energia positiva, analisa o discípulo de Martis Correia.Nasceu em Árgea, uma terra de oleiros, concelho de Torres Novas. A família “de homens ligados à arte”, é de Pintaínhos, no mesmpo concelho. O pai tocava todos os instrumentos de uma banda filarmónica. O tio era chefe de orquestra. Com o dinheiro da primeira escultura que vendeu, por altura da Fersant, comprou um piano que custou à época 300 contos (1500 euros). Era uma escultura feita com peças de automóveis. Rodas, jantes, travões. A figura do “homem do violino” foi comprada por um proprietário de um lar de idosos em Aveiro que a colocou no jardim.A música, acredita, poderia ter sido o seu futuro. Aos nove anos quis começar a ter aulas com um professor de Torres Novas, mas cada hora custava 40 escudos. “O meu pai disse que eu era maluco. Tinha que comprar ferro e carvão para a oficina e não tinha 40 escudos para pagar por hora”, conta hoje com um certo humor compreensivo. José Coêlho vai criar “Barracão das Artes” em RiachosO escultor José Coêlho vai criar um “Barracão das Artes” na vila de Riachos, concelho de Torres Novas. O espaço que já está em fase de obras deverá entrar em funcionamento na altura do Natal.No local, que fica nas imediações da casa onde reside, o escultor quer reunir as peças que tem um pouco por todo o país e mostrar como desenvolve o seu trabalho. “É lá que vou colocar o sobretudo. Vai ser uma das atracções. Muitos me perguntam se está em Londres”, diz José Coelho, referindo-se à peça de indumentária característica do treinador português José Mourinho que concebeu em escultura e que lhe deu projecção nacional e internacional. O espaço vai ser também um local de encontro de amigos do artista, pintores e escultores, e será também um museu a testemunhar o percurso de José Coêlho como artista.Arte garantiu trabalho à metalúrgica em tempo de criseQuando começou a ver a oficina como um espaço de arte?Fiquei com o bichinho da escultura com os oleiros da minha terra. Foi a semente da arte. Para ser um artista e uma pessoa de cultura não podemos deixar morrer a criança que há dentro de nós. Temos que a alimentar. Quero que os meus netos nunca deixem morrer o sonho. É o que os vai alimentar o resto da vida. Este país humilha e trata mal os seus homens de cultura. Só porque Bento Jesus Caraça, uma sumidade da matemática, era comunista morreu depois de estar na prisão. Os russos têm o mesmo problema. E o senhor sente-se também maltratado?Já descobri que isso acontece, mas não é por mal. É ausência de sensibilidade dos outros. Nós, as pessoas muito sensíveis, ficamos magoados por não sermos tratados ao nível que gostaríamos. Teve amigos artistas que tiveram percursos diferentes. Isso perturba a sua relação?Antes pelo contrário. Complementa. Tudo o que sei sobre escultura e arte aprendi pelo contacto com os outros artistas. Com o Martins Correia, por exemplo. Os meus amigos têm-me ensinado muito. Sou pioneiro em Portugal no aço corten. É um material que parece ganhar ferrugem, mas é assim. Foi criado para evitar a corrosão do casco dos navios.Quem não sabe acha que é ferrugem.É uma questão de informação. Uma das coisas que a arte moderna precisa é de informação. Em Riachos tive aqui a exposição: “O Homem em Paixão”. As pessoas queixavam-se ao padre do material. O padre respondia: “sabes, quando foste para a escola também não sabias ler e aprendeste. Temos que ser informados sobre o significado das coisas. É preciso entender e não é fácil”. Mas há quem ache que a arte pública é pobre. As pessoas têm direito à sua opinião. A arte pobre tem um espaço. No século XIX a arte era em bronze e essa era a nobreza. Hoje a riqueza não está no material, mas no conceito. E nessa medida não há problema em que a arte seja pobre. O que pode acontecer é que a obra não esteja de acordo com a envolvência do espaço. A obra de arte não tem que ser para a rotunda. Pode ser todo o espaço da cidade. Conseguiria viver só da arte?Hoje só vendo quando quero. Já tenho o meu acervo pessoal. A arte é já uma componente forte, sobretudo as obras de arte pública. Faço obras para mim e para os meus amigos. Aqui [na Melatúrgica Coelhos] temos condições psicológicas. Os operários estão preparados e têm sensibilidade.A oficina é parceira de escultores, mas mantém o trabalho tradicional. Fabricamos estruturas metálicas. A componente da arte foi boa para contornar a crise. Fizemos muita obra de arte. E assim conseguimos segurar postos de trabalho. É uma almofada. Quando fazemos uma estrutura metálica não há a tradição do cliente pagar entrada. Por isso é que os construtores civis abusam. No caso de uma obra de arte feita para uma câmara ou instituição há logo uma entrada paga à cabeça. A recuperação da casa museu José relvas, componente de metais, foi feita pela empresa. O mesmo para o Museu do Chiado, Museu de Arte Antiga, Museu da Cidade. A obra de arte tem dado algum trabalho, algum dinheiro e, mais do que isso, prestígio.Evocação dos ‘grandes’ em Paris“Simpósio dos Simples – A luz fragmentada” é o nome da exposição de escultura em metal que pode ser vista até 9 de Novembro, em Paris, na Galeria Art Present, nos arredores do centro Pompidou. Parte das esculturas foram feitas com materiais que aproveita da oficina. O projecto do livro, ideia para dar voz às esculturas, teve que ficar adiado.As peças pretendem “homenagear de forma simples”, escreve José Coêlho, grandes figuras do mundo: Amadeu de Sousa Cardoso, Baudelaire, Brancusi, Camões, Cervantes, Eça de Queirós, Einstein, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Pedro Nunes, Picasso, Shakespeare e Vieira da Silva.
“O político é eleito pelo povo, o artista é eleito por Deus”

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