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O estudante de Direito que quer mudar o mundo ao som do hip-hop

O estudante de Direito que quer mudar o mundo ao som do hip-hop

Jovem de Vila Franca de Xira é referência na música nacional

No Bilhete de Identidade o seu nome é Mário Boavida, mas no meio musical é conhecido como Raptor, título artístico inspirado na sétima arte. O primeiro albúm do músico de Vila Franca de Xira “Pontos nos ii’s” saiu em 2009 e é um grito de revolta ao ritmo do hip-hop.

Edição de 07.04.2010 | Sociedade
Chama-se Mário Boavida, mas no meio musical todos o conhecem por Raptor. O nome foi buscá-lo ao filme “Parque Jurássico”, inspirado no famoso Velociraptor, o dinossauro rápido e inteligente como são as suas rimas. Encolheu depois a palavra para Raptor, um diminutivo de Rap Tutor (o professor do rap). O seu primeiro albúm, “Pontos nos ii’s”, saiu em Setembro de 2009 e colocou-o no panorama musical como uma das jovens referências do hip-hop nacional. O percurso musical de Raptor já ultrapassa os dez anos. Arrancou com a fundação do movimento em Vila Franca de Xira, em 1999, através do graffitti, com o grupo “Profetas Urbanos”. Uma filosofia de vida que acabou por resvalar para o universo musical.Para Raptor o interesse no hip-hop foi espontâneo e uma fusão de soul, funk, som electrónico e das raízes africanas. “Comecei por fazer umas rimas em 1999. Depois seguiram-se algumas produções musicais e as primeiras letras de músicas acabam por acontecer em 2003”, explica. Dois anos depois, com apenas 17 anos de idade, surge o lançamento do primeiro E.P. intitulado “Primeira Etapa”. Daí até ao álbum “Pontos nos ii’s” foi um pequeno passo.“Do E.P. para o albúm houve uma evolução. O “Pontos nos ii’s” é muito mais o meu lado artístico. Na primeira fase queria apenas mostrar o meu hip-hop. E agora quero mostrar o meu lado pessoal. São temas com uma carga íntima muito maior”, refere.Crescer em Vila Franca de Xira influenciou a forma como vê o mundo. “A envolvência da própria cidade dá-nos uma certa bagagem. Influencia-nos muito aquilo que vemos diariamente, as experiências que temos. A cidade tem uma importância muito grande. Neste albúm falo de situações que se passaram no sítio onde resido, que é Vila Franca de Xira”, sublinha. Os temas variam. Desde a crítica política e social até temas mais ligeiros. Há beats mais hardcore, como na letra da música Estado da Nação: “Vou-te contar o estado do Estado português/contestado e testado pela minha lucidez (…) /Um país de contradições mas contradições belas/que deixam aquelas negativas sequelas (…) / Bairros sociais são autênticas favelas (…) / Sou a voz deste povo, cego, surdo e mudo/ De luto, pelo qual eu luto em absoluto”, mas há também temas mais melodiosos, como na música Tu És (Hip Hop Love). É um poema de amor ao estilo de música que ama: “Sinto que sem ti, sinto-me mais fraco/Eu senti que sem ti o meu mundo é mais opaco/Sem brilho, sem cor, sem luz”.No primeiro trabalho Raptor conseguiu juntar alguns dos nomes mais sonantes da cena hip-hop portuguesa como Melo D, com quem canta o single do álbum, Tu és (Hip Hop Love), NGA, Lancelot, Sam The Kid, Dengaz, SP ou Dama Bete. “O primeiro single dá uma imagem positiva daquilo que é o hip-hop. É um tema calmo que fala do meu amor platónico a este estilo de música. Quis demonstrar que também se pode falar de hip hop sem ser agressivo”, explica.De momento Raptor está a promover o primeiro albúm e começa também já a preparar um novo trabalho que, confessa a O MIRANTE, não vai ser um trabalho a solo, mas inserido num colectivo “com outros dois ou três artistas do meio”. Mário o aluno, Raptor o músicoMário Boavida frequenta o segundo ano de advocacia na faculdade de Direito de Lisboa. A vida académica não é facil de conciliar com a carreira musical, mas confessa que é necessário o esforço. “No mundo artístico temos de ter um plano B porque muito provavelmente não será da música que vamos viver”. Na Universidade ninguém o conhece por Raptor e quem convive com o lado hip-hop do músico aspirante a advogado estranha a relação entre este estilo músical e o lado clássico da advocacia, mais ligado ao fato e gravata. Mário Boavida considera no entanto que os valores de um e outro estão intrinsecamente ligados. “Os princípios de boa fé e justiça são idênticos. E a sensibilidade que o hip hop me deu ajuda-me a ser crítico em algumas disciplinas. E posso fazer a ponte e ir buscar inspiração para as minhas letras ao Direito”, diz com um sorriso.Apesar disso o músico confessa que tenta separar os dois universos. “No curso em que estou não gosto que as pessoas saibam que estou ligado ao hip hop porque existe ainda muito estereótipo e muito preconceito e o movimento é visto com maus olhos. As pessoas fazem muitos juízos de valor e caracterizam de forma negativa e pejorativa o hip hop”, sublinha.O músico explica que o movimento tem uma filosofia que está associada à não-violência e que tem como objectivo tirar as pessoas da rua e de ambientes propicios à criminalidade. Através do hip hop procura-se que os jovens criem alternativas e se dediquem a outro tipo de actividades. “Infelizmente as pessoas continuam a associar o hip hop aos bandidos, à violência e à criminalidade. Eu tento fervorosamente combater esse preconceito e se calhar por isso é que estou num curso de direito. Para mostrar que essa visão está totalmente errada”, conclui.A experiência nos Morangos com Açúcar e no Festival Super Bock Super RockRaptor conseguiu bastante visibilidade ao participar na primeira série de Morangos com Açúcar já que teve oportunidade de mostrar alguns dos seus temas. O convite surgiu através do actor João Batista, também de Vila Franca de Xira. “A personagem do João estava ligada a um bairro social e ao hip-hop e a todos esses estereótipos. E como eu estava inserido nesse movimento convidaram-me para fazer um casting. Acabei por participar em alguns episódios como amigo e ainda cantei alguns temas.”O músico considera que a experiência foi muito importante, na medida em conheceu outros artistas do hip hop, o que lhe deu alguma projecção no meio musical jovem. Uma projecção que se expandiu com a participação no Festival Super Bock Super Rock. Foi convidado para cantar no festival por ter colaborado no single do SP & Wilson. “Foi uma experiência engraçada e também conheci outros artistas, como o Boss AC”, refere com orgulho.Raptor aponta como influências no hip-hop nomes como Sam The Kid, Valete, Boss AC, Mind da Gap, Da Weasel, mas confessa que as maiores referências a nível musical são Sérgio Godinho, Jorge Palma e Fernando Tordo. “Pode parecer um bocado estranho porque não têm uma ligação directa com o hip-hop, mas isso está relacionado com o facto de ser também produtor musical”, realça. A nível internacional Raptor gosta de ouvir hip hop francês e alguns artistas americanos como Ludacris e Wu-Tang, entre outros.Confessa que no ipod tem o albúm “Pontos nos ii’s” que tem ouvido bastante. “Sou muito auto-crítico. Acho que é fundamental para evoluirmos. Caso contrário estagnamos e não crescemos como artistas”, conclui. MC Degaz e os Orelha Negra também fazem parte da lista musical do momento.
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