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“Sinto a falta de um teatro em Vila Franca de Xira”

“Sinto a falta de um teatro em Vila Franca de Xira”

Actor Albano Jerónimo nasceu em Alhandra e começou nos “Esteiros”

Entrou no Grupo de Teatro Esteiros da Sociedade Euterpe Alhandrense por brincadeira, mas entretanto conquistou espaço no meio artístico nacional. Em entrevista a O MIRANTE Albano Jerónimo lamenta a “descaracterização” de Alhandra, diz que é “ridículo” o que se passa com o Teatro Salvador Marques e defende a criação de um teatro no concelho. Considera o encenador João Santos Lopes “uma referência cultural” e afirma que o museu do neo-realismo está subaproveitado. O actor, que decidiu fazer uma pausa nas novelas, revela que o meio artístico “está cheio de vícios” e pede mais responsabilização nos apoios à cultura.

Edição de 14.04.2010 | Entrevista
Jorge Afonso da SilvaComo é que entrou para o Grupo de Teatro Esteiros?Foi quando tinha, salvo erro, 15 anos, a convite de uns amigos que já lá andavam. Cristina Fernandes, Maria Manuel, Ricardo, Miguel Falcão entre outros. Sempre achei piada porque era mais um ponto de encontro de vários amigos e também para conhecer mais raparigas. Fui por curiosidade. Na brincadeira. A brincar fui ficando, a responsabilidade foi crescendo e a vontade também. Quando dei por mim estava no meio disto, a concorrer ao conservatório e a entrar. Mas nunca tinha pensado em ser actor?Não. Nunca tinha imaginado. Não entrei com nenhum objectivo concreto de querer ser actor ou desenvolver uma ideia de carreira ou profissão. O interesse e o estímulo foram depois potenciados pelo Mário Rui, que na altura era director e encenador do grupo. Foi uma pessoa fundamental na minha vontade de descobrir mais o teatro. Ele é que me plantou as sementes de uma vontade maior. Isso foi vital, com a ajuda dos outros amigos actores.Foi aí que criou as bases da sua formação artística?Sim. Sem dúvida. Nunca mais me vou esquecer de muitas coisas que o Mário Rui me disse. Duas delas foram: não tenhas pressa que não vais apanhar o comboio e fala devagar. (sorrisos). São frases que ainda hoje me lembro com bastante frequência.Sempre que o grupo “Esteiros” estreia uma peça faz questão de assistir…Faz parte da minha aprendizagem e foi onde comecei. Guardo óptimas recordações e ainda mantenho uma relação muito saudável com as pessoas que lá estão. Gosto muito do João Santos Lopes (actual encenador do grupo). É uma referência cultural no nosso concelho. Não sei é se está devidamente apoiado nesse sentido para poder desenvolver a sua arte. Mas tenho várias razões para voltar aos “Esteiros”, à Sociedade Euterpe Alhandrense, que é onde o grupo está há anos, e a Alhandra, onde residem familiares e amigos.Como olha para a vila de hoje?É com agrado que vejo que existe desenvolvimento. Uma adaptação aos tempos de hoje. Mas lamento uma descaracterização da vida e do que seria propriamente genuíno na população de Alhandra. É uma vila piscatória. Que nasceu à sombra de uma Cimpor. Sinto pena que haja a descaracterização da própria vila em si. Mas, não querendo ser contraditório, felicito e vejo com agrado o desenvolvimento.Acha que essa transformação era inevitável?Sim. Mas poderia crescer numa perspectiva mais inteligente. Em harmonia com o espírito da própria vila. Não me recordo do nome, mas houve um vereador ou um presidente da junta de Alhandra que disse que gostava que Alhandra se mantivesse parada no tempo. Na altura foi muito mal entendido. Mas concordo com o que ele disse. Se pensássemos numa política de preservar Alhandra exactamente como ela é, historicamente falando, poderia ser uma mais valia a vários níveis. No turismo, por exemplo. Seria interessante explorar esse lado. Aproveitar a sua história para se dinamizar?Sem dúvida. Alhandra tem uma história particular. Na Casa Museu Sousa Martins existe um espólio fotográfico interessante que é uma autêntica relíquia. Da construção da própria Cimpor e do desenvolvimento da vila à sua volta. Podia evidenciar-se essa história. É interessante e é o que caracteriza Alhandra. Sinto falta desse lado mais pessoal, mais personalizado. Nesse sentido a vila está descaracterizada. É vital nunca nos esquecermos onde nascemos. Seria importante Alhandra não esquecer a sua origem e os seus próprios habitantes não esquecerem a origem de Alhandra. E Vila Franca de Xira?Sobre Vila Franca de Xira já não me atrevo a ter uma opinião mais objectiva. Mas está bastante diferente. É a minha percepção. De alguém que não vai assim tantas vezes à cidade. Contudo Vila Franca de Xira parece-me muito mais coerente nesse desenvolvimento. Sentia e sinto ainda a falta de uma melhor unidade hospitalar. Mais credível. Culturalmente é de saudar o Museu do Neo-Realismo.Já o visitou?Já. Fui assistir ao lançamento do livro do Miguel Falcão. Foi a única vez que lá fui. É um pólo cultural que não existia.Acha que está a ser devidamente aproveitado?Isso não. Não faz sentido que um espaço como o Museu do Neo-realismo, e nisso estou completamente de acordo com o João Santos Lopes, (entrevistado por O MIRANTE) não tenha uma sala onde se possa fazer teatro. Quando temos várias referências de escritores neo-realistas que estão ligados ao teatro de uma forma quase umbilical. Como é que isso é possível? Temos uma sala de conferência que é muito interessante e com óptimas condições. Mas é pouco. Está subaproveitado.Acompanha o que se faz no concelho a nível teatral e cultural?Não tanto como gostaria. Mais os “Esteiros”. Já há três anos que não acompanho o Alexandre Lyra Leite e a Inestética. A única companhia profissional no concelho. Sei que têm conseguido ter uma visibilidade no tipo de trabalho que fazem. Ainda bem que contam com o apoio da autarquia. Mas as companhias de teatro amador também precisam dos apoios das câmaras para desenvolverem o seu trabalho. Sei que o vereador da cultura é um colega nosso. O João de Carvalho. Pode ser interessante. É uma pessoa com experiência e que conhece muita coisa. Estou com uma certa curiosidade para perceber como é que uma pessoa com um currículo maravilhoso como ele tem pode ajudar o concelho.As autarquias têm um papel importante na dinamização cultural local?Sem dúvida. São fundamentais. Há vários exemplos. Em Tondela e Palmela há companhias que estão muito mais longe de Lisboa do que Vila Franca de Xira e funcionam na perfeição. São subsidiadas pelas autarquias, têm uma actividade cultural real e dinamizam a comunidade onde estão inseridas. É possível ter uma companhia profissional, com actividade e visibilidade em Alhandra e Vila Franca de Xira, que está a vinte minutos de Lisboa. Agora tem é que existir uma actividade objectiva e concreta e uma vontade real das autarquias e das pessoas que querem dinamizar essa perspectiva. Mas não há um espaço de teatro em Vila Franca de Xira…Vila Franca de Xira é um concelho gigante. Sinto falta de um teatro real no concelho. Uma casa de teatro. Não há um espaço. Lembro-me do Teatro Salvador Marques em Alhandra. Há anos que se ouve dizer que vai ser reabilitado. Já teve inclusive projecto e não anda. Este tipo de coisas são incompreensíveis. Fala-se e não se faz. É o quê? Valores de campanha? Não percebo. Lamento que não haja uma preocupação real. O Teatro Salvador Marques era uma coisa linda de morrer. Tinha pormenores delirantes. Inclusivamente aquilo é património.A última ideia é criar lá uma biblioteca…E porque não uma biblioteca e um teatro? Sugiro eu…Há também quem defenda essa ideia…É ridículo ter um espaço daqueles, com uma história riquíssima ligada a uma pessoa da terra, Salvador Marques, que foi vital para as pessoas de Alhandra, naquele estado. (abandonado). Como é que não há de facto essa vontade? Um homem de causas que estudou na escola das meninas Nasceu em Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, a 30 de Junho de 1979. Aos vinte anos, Albano Jerónimo, rumou até Lisboa – onde concedeu a entrevista a O MIRANTE – levando na bagagem a experiência adquirida no Grupo de Teatro Esteiros da Sociedade Euterpe Alhandrense, para onde tinha entrado cinco anos antes por mera brincadeira. A mãe é do Alto Minho. O pai de Castelo Branco. Assume-se como alhandrense mas não esquece as raízes que estão no Norte. Hoje, com 30 anos, o actor diz que teve uma infância normal e feliz. Recorda os jogos de futebol mas principalmente os de basquetebol. Gostava de se divertir e nas férias ia com os amigos para a piscina. Uns dos locais de brincadeira eram os telhais que foram desaparecendo com o tempo. “Ainda me lembro daquilo com outra cara. Com muitos barcos e pequenas embarcações ali atracados. Íamos ao banho no Cais XIV. Essa é uma das imagens que ainda guardo de Alhandra”, revela o actor que também gostava de namorar à beira Tejo. “Há alguém, que sendo alhandrense, não tenha namorado à beira rio?”, diz com um sorriso.Estudou na escola primária de Alhandra, mais conhecida pela escola das meninas. Depois passou para a Escola Soeiro Pereira Gomes, também em Alhandra e frequentou ainda a secundária Gago Coutinho em Alverca.Sendo aluno da área de ciências, quando rumou a Lisboa, sentiu ainda alguma indefinição quanto ao seu futuro. Chegou a frequentar um curso de fisioterapia mas optou por ir para o conservatório. A passagem pelos “Esteiros” tinha deixado marcas em Albano Jerónimo que o influenciaram a escolher o seu percurso profissional.O actor já entrou em dez telenovelas e participou em várias séries televisivas. Fez cinema e teatro. Os dois palcos que o actor mais gosta de pisar. Mas gosta, acima de tudo, de representar. De sorriso e trato fácil, Albano Jerónimo considera-se uma pessoa de causas. É embaixador dos Médicos no Mundo, deu a cara pela despenalização da lei do aborto e defende a anti-globalização. A agenda está sempre muito preenchida. O trabalho assim o obriga. Encontrar um tempo para a entrevista não foi fácil. Durante a mesma o telemóvel tocou várias vezes. Mas garante que há tempo para a vida pessoal. “Tem de sobrar. Já alguém disse que o meu maior património é o meu tempo. É das coisas que cada vez mais prezo. É um compromisso entre aquilo que gosto de fazer e a minha vida pessoal. Nunca esquecendo que a minha prioridade é a minha vida pessoal e o trabalho é um complemento maravilhoso à minha vida pessoal”, assegura, convicto.Reconhece que é assediado e quanto ao rótulo de galã diz que é uma consequência natural da profissão e até acha piada. Há quem tenha inclusive criado um bolg com o nome “fãs de Albano Jerónimo”. Mantém uma relação estável há alguns anos e garante que o assédio se controla. “O principal é saber aquilo que se quer e que não se quer. O que nos faz ficar com um sorriso... Se estou com uma pessoa significa que é de facto a pessoa que me faz feliz e com quem faz sentido estar a partilhar a minha vida”, garante Albano Jerónimo.“O meio artístico está cheio de vícios que não me interessam”O que está a fazer profissionalmente?Há cerca de dois anos e meio, decidi, por opção, fazer uma pausa nas novelas. A última em que participei foi a “Vila Faia”, que está agora em reposição na RTP. Participei ainda em algumas séries, mas neste momento, artisticamente, interessa-me mais fazer teatro e cinema. Tenho estado a trabalhar no Porto e já vou no terceiro projecto de teatro. Acabei de rodar uma longa-metragem com o Raul Ruiz e fiz também uma curta-metragem com a Sandra Aguilar.Porquê essa pausa nas novelas?O ritmo é alucinante. Para se fazer novela tem de estar preparado, mesmo fisicamente, porque é um ritmo muito exigente Neste momento, além de não me sentir preparado nem com vontade de fazer novelas, sinto-me mais confortável a procurar outro tipo de registos. Há muita competição nesse meio?De uma forma geral o nosso meio artístico está muito fechado sobre si mesmo. Cheio de vícios que a mim não me interessam. Mesmo as próprias pessoas que o preenchem - tirando um ou outro caso, com quem nos dá de facto gozo estar, crescer e aprender - são pouco interessantes. Os artistas estão muito fechados. Não há uma partilha nem uma vivência cultural como há em Berlim ou Madrid. Há um umbiguismo inconsequente. Somos muito pequeninos e a nossa mentalidade, nesse aspecto, também o é. Temos coisas interessantes e somos muito bons naquilo que fazemos, mas também muito egoístas.Como é que se gere isso?Dentro das propostas de trabalho que vão surgindo, procuro ter o meu caminho e desenvolver-me pessoal e artisticamente. E tento gerir isso com o meu lado monetário. Quando tenho um pouco mais de dinheiro, por exemplo, tenho mais espaço para escolher aquilo que artisticamente me dá mais gozo. Quando estou monetariamente mais aflito terei de fazer coisas que estão mais à mão.Mais comerciais?Sim. Ditas mais comerciais…Noto alguma mágoa e desilusão nas suas palavras…Não existe mágoa. Antes uma vontade de fazer mais e diferente. E o ambiente está viciado. Às vezes dá vontade de respirar noutro lado. E quando digo isto refiro-me a ir lá para fora. Fazer outras coisas. Não quero dizer que lá é que é bom. O que se faz cá e o material humano que nós temos é que é subaproveitado. Perdemos tempo com pequenas coisas, que não nos acrescentam nada. Falta-nos objectividade e olhar mais para o que está à nossa volta e menos para nós próprios.“Temos medo de existir”A cultura ainda é esquecida pelos governantes?No nosso país é inevitável isso acontecer. Quando, economicamente, o país está menos saudável sentem-se logo os efeitos na cultura. Lamento. Acho que o exemplo de uma mentalidade cultural e artística devia partir de facto do nosso Governo. Basta olharmos para Espanha, Inglaterra, onde se nota uma vontade de fruição artística muito viva. Continua a ser subsidiodependente…Essa seria uma longa conversa (sorrisos). É um facto que Portugal artística e culturalmente vive de subsídios. Devem existir. A atribuição é que deveria ser um pouco mais inteligente e acompanhada. Se queremos ter um espectáculo com determinado orçamento temos de esperar que exista dinheiro. Ou então somos ricos e fazemo-lo nós.Está a dizer que os apoios não estão a ser bem fiscalizados?Essa palavra é delicada (silêncio). Acho que no fundo a principal questão é que deve haver uma responsabilização artística e o que isto implica de parte a parte. Como assim?Ser responsável por aquilo que se faz. E com isto digo tudo. Falo do ponto de vista daquilo que se faz no ministério, de um artista que está a dirigir um espectáculo, de um actor que está a participar no espectáculo. Todos os agentes envolvidos devem ser responsabilizados por aquilo que fazem. Acho que às vezes fugimos a essa responsabilidade. Temos receio de assinar. Receio em ser responsáveis. Em dizer ‘eu fiz isto e não fiz aquilo’. Temos um bocado medo de existir, parafraseando José Gil.Monólogo em Vila Franca de XiraAlbano Jerónimo gostava de levar à cena em Vila Franca de Xira uma peça que estará pronta a estrear no próximo ano. “Apesar de não estar ligado à produção, já expressei a minha vontade de que seria uma câmara que gostaria de sondar para ver a viabilidade de levar lá o espectáculo”, diz o actor.Trata-se de um monólogo feito por Albano Jerónimo com cerca de hora e meia de um texto inserido nas novas dramaturgias portuguesas. Terá a co-produção do Teatro Nacional Dona Maria II e do Teatro Nacional de São João. A peça estará em exibição nas duas salas e culminará com uma digressão pelo país. “Nessa altura seria muito interessante e bonito passar por Vila Franca de Xira. Existe vontade da nossa parte. Mas para isso acontecer também terá de haver uma vontade real da câmara municipal”, refere o actor, garantindo que até agora nada foi feito mas que espera em breve contactar a autarquia.
“Sinto a falta de um teatro em Vila Franca de Xira”

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