O dia em que o Milagre de Santarém se mostra à cidade
Reitor do santuário reconhece que o culto é desconhecido para muita gente
No domingo de Pascoela, a Procissão do Milagre percorre as ruas do centro histórico de Santarém e é a manifestação mais visível de um culto que data de 1247, quando uma hóstia se cobriu de sangue. O santuário é visitado por muitos peregrinos estrangeiros, mas na cidade e na região a devoção foi perdendo fulgor com o andar dos tempos.
Santos da casa não fazem milagres e o Santíssimo Milagre de Santarém também não é hoje um exemplo de popularidade na terra que o terá visto acontecer, já lá vão quase oito séculos, quando, diz a lenda, uma hóstia começou a escorrer sangue, transformando-se na relíquia sagrada que ainda hoje é adorada. Mas fora das muralhas escalabitanas o culto tem alguma adesão em comunidades católicas dos Estados Unidos da América ou Irlanda, por exemplo. Tanto que os habitantes da cidade já se habituaram a dar de caras com grupos numerosos de cidadãos estrangeiros em peregrinação pelas ruas do centro histórico, no trajecto que os leva do autocarro à primitiva Igreja de Santo Estêvão, hoje Santuário do Santíssimo Milagre, e vice-versa.A procissão que se realiza no Domingo de Pascoela, uma semana depois da Páscoa, é a manifestação mais visível na cidade da veneração ao acontecimento ocorrido em plena Idade Média, em 1247, que teve impacto na sua época mas foi perdendo fulgor com o andar dos tempos. Pode-se dizer que o milagre, actualmente, sai à rua e mostra-se à cidade uma vez por ano. Porque até a Feira do Milagre, evocativa do fenómeno, desapareceu do calendário. Embora a Câmara de Santarém comece a pensar na sua reedição.O santuário não pode competir em fama com Fátima mas ainda há muito a potenciar no âmbito do turismo religioso. Os números das últimas três décadas revelam que há alguns milhares de peregrinos estrangeiros, vindos sobretudo dos Estados Unidos da América e da República da Irlanda, que visitam o templo anualmente. E que pouco mais fazem em Santarém do que sair do autocarro, visitar o Santuário do Santíssimo Milagre e voltar a embarcar. O rasto que deixam pela cidade resume-se à sua passagem em grupos pelas ruas estreitas do centro histórico. O roteiro geralmente não contempla outros pontos do valioso e diverso património monumental e religioso da cidade. O padre Manuel Borges, reitor do Santuário do Santíssimo Milagre - estatuto ganho há 13 anos por iniciativa do primeiro bispo de Santarém, D. António Francisco - reconhece que há muito trabalho a fazer envolvendo a Igreja Católica e outras entidades como a Câmara de Santarém.“Isto é uma realidade importante de Santarém que muita gente não conhece ainda, infelizmente. Ainda ontem na missa uma pequena de 18 anos, sobre a festa, não sabia o que era o Santíssimo Milagre. Uma história de 763 anos, de algo que aqui aconteceu e de que se guarda a relíquia sagrada”, lamenta o padre Borges a O MIRANTE minutos antes da saída da procissão.O sacerdote diz que é urgente dinamizar o turismo religioso e criar algo que indique a presença daquele ponto de interesse. “É preciso um sinal exterior, perto do santuário, um sinal visível de acolhimento às pessoas e de reconhecimento de algo importante desta cidade. Para que o turismo religioso se reorganize a partir daqui e não de outro sítio, porque assim perderia o santuário”. E que sinal seria esse? “Uma cruz linda, com a designação do santuário”, responde.O padre Manuel Borges não sabe explicar o fenómeno de adesão de cidadãos americanos e irlandeses ao fenómeno do Santíssimo Milagre. Mas evoca o apoio que um português que viveu nos Estados Unidos deu na recuperação do templo há uns anos atrás. “Recordo-me que quando foi a inauguração vieram milhares de americanos. Talvez por essa razão se mantenha essa tradição de virem muitos americanos ao santuário”, diz.A história do Santíssimo Milagre de Santarém A Real Irmandade do Santíssimo Milagre tem disponível na sua página na Internet (http://www.santissimomilagre.com) a descrição do acontecimento que deu origem ao culto:“Corria o ano de 1247, em Santarém, então vila de Portugal, vivia uma pobre mulher, a quem o marido muito maltratava, andando desencaminhado com outra. Cansada de sofrer, foi pedir a uma bruxa judia que, com os seus feitiços, desse fim à sua triste sorte. Prometeu-lhe esta remédio eficaz, mas necessitaria de uma Hóstia Consagrada. Depois de naturais hesitações, a pobre mulher foi à Igreja de Santo Estêvão, confessou-se e, recebida a Sagrada Partícula, com suma cautela a tirou da boca, embrulhando-a no véu. Saiu prestes da Igreja, e encaminhou-se para a casa da feiticeira. Mas, então, sem que ela o notasse, do véu começou a escorrer sangue, que, visto por várias pessoas, as levou a perguntar à infeliz que ferimentos tinha. Confusa em extremo, corre para casa, e encerra a Hóstia Miraculosa numa arca. Passou o dia, entretanto, e, à tarde, voltou o marido. Alta noite, acordam os dois, e vêem toda a casa resplandecente. Da arca saíam misteriosos raios de luz. Inteirado o homem do acto pecaminoso da mulher, de joelhos, passaram o resto da noite, em adoração. Mal rompeu o dia, foi o pároco informado do prodígio sobrenatural. Espalhado o sucesso, meia Santarém acorreu pressurosa a contemplar o Milagre. A Sagrada Partícula foi então levada, processionalmente, para a Igreja de Santo Estêvão, onde ficou conservada dentro de uma espécie de custódia feita de cera. Mas, passado tempo, ao abrir-se o sacrário para expor à adoração dos fiéis, como era costume, o Santo Milagre, encontrou-se a cera feita em pedaços, e, com espanto, se viu estar a Sagrada Partícula encerrada numa âmbula de cristal, miraculosamente aparecida. Esta pequena âmbula foi colocada numa custódia de prata dourada onde ainda hoje se encontra. Santo Estêvão é agora o Santuário do Santíssimo Milagre”.“A festa está bem assim, não é preciso folclore”São 14h00 de 11 de Abril, Domingo de Pascoela, e junto à vulgarmente conhecida como Igreja do Milagre, em Santarém, a atmosfera não denuncia a vivência de um dia festivo. Duas horas antes da procissão, que culmina as cerimónias religiosas, contam-se pelos dedos de uma mão as pessoas no largo em frente ao templo. Na igreja, anteriormente chamada de Santo Estêvão, há 13 anos promovida ao estatuto de Santuário do Santíssimo Milagre, uma dezena de mulheres está recolhida em oração. Pela aparência ultrapassam todas o meio século de vida. São os enfeites com flores e ramagens, que ornamentam a calçada no exterior por onde mais tarde vai passar a procissão, e algumas colchas nas janelas que denunciam que é um dia especial: o dia da Procissão do Milagre.O fervor religioso está também longe do que, usando um termo de comparação comum, salta à vista, por exemplo, em Fátima. Em Santarém não houve aparições fantásticas que mobilizassem multidões e o tempo decorrido sobre o acontecimento primordial ajudou a desvanecer a devoção. Afinal de contas, já lá vão 763 anos. Mesmo assim juntaram-se algumas centenas de pessoas ao cortejo e muita gente nos passeios e janelas para ver passar a procissão e a relíquia empunhada pelo padre Manuel Borges. Bombeiros, escuteiros e banda filarmónica engrossam o desfile.Isaura Paulo, uma das primeiras crentes a acorrer à Igreja do Milagre no domingo antes da procissão, diz que vem à festa porque mora perto. Se a distância fosse maior não garante que participasse. Mesmo assim não regateia elogios. “É tudo muito bonito, a festa está muito bem assim”, responde quando lhe perguntamos se concorda com a vertente exclusivamente religiosa de uma festa a que está habituada a assistir desde os tempos da sua juventude. “Não é preciso cá folclore nem nada disso. Uma festa sagrada é uma festa sagrada”, exclama com veemência Isaura Paulo.A seu lado, sentada no mesmo banco do Largo do Milagre onde a rama das oliveiras vai filtrando os quentes raios solares, Maria da Silva Lopes é outra habitual participante das comemorações. Não só porque mora perto mas também porque a neta é acólita e entusiasta das cerimónias religiosas. A avó apoia-a mas deixa uma ressalva: “Quando tenho de rezar e pedir a Deus é na minha casa. Mas respeito a Igreja”. Quanto ao milagre que se celebra nesse domingo, Maria da Silva Lopes diz que conhece várias versões da história. Acredita que terá havido uma hóstia que se transformou em sangue, como reza a lenda, “mas saber qual é a verdade…”. Ainda menos certezas tem Joaquim Galão, membro da Irmandade do Senhor dos Passos de Almeirim, convidada desde há alguns anos a participar na procissão, tal como a Confraria de Nossa Senhora da Purificação, de Alcorochel, Torres Novas. “Não conheço o acontecimento que deu origem a este culto. É a primeira vez que participo”, diz Joaquim Galão antes de vestir a opa roxa e se aprestar para integrar o cortejo.A Irmandade do Senhor dos Passos de Almeirim foi criada há oito anos, dois anos após ter sido reactivada na cidade a procissão do Senhor dos Passos que se realiza durante a Quaresma. A participação na procissão do Milagre é a única que têm fora de portas. “Como cristãos que somos, esta festa terá sempre que nos dizer alguma coisa. Mas se não fossemos convidados talvez não viéssemos”, confessa. E quem diz a verdade, não merece castigo…Real Irmandade é a guardiã do temploA Real Irmandade do Santíssimo Milagre é a guardiã da tradição. Liderada por Fernando Trindade, um engenheiro que trabalha nos serviços de urbanismo da Câmara de Santarém, tem ainda na mesa José Abílio Pires Alves Martins, Mário Mendes Dias e João Manuel Jorge Pereira. A assembleia-geral é liderada por João Vicente Saldanha de Oliveira e Sousa, que tem como secretários Hermínio Paiva Fernandes Martinho e António Piedade Ribeiro. O conselho fiscal é presidido por Jorge Manuel D’Assunção Ferreira da Costa Rosa, tem como secretário Carlos Alberto Alexandre Godinho e como relator Mário Azinheira Pedro.
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