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Dina Eiras
30 anos, interna de pediatria, Entroncamento
Sinto-me ribatejana mas sem ter uma terra definida. É difícil dizer de que terra sou. Nasci em Lisboa mas a minha família é do interior do distrito de Leiria. Fui nascer a Lisboa, de propósito, porque os meus pais queriam que corresse tudo bem. Mas desde os dois anos que a minha família viveu no Ribatejo. Comecei por viver em Tomar, mais tarde em Vila Franca de Xira e Entroncamento. Também gosto muito dos Açores, a terra do meu marido. Acabei por ser seduzida pela pediatria. No curso de medicina contactamos com diversas especialidades e, por sorte ou azar, vi durante o curso muitos meninos doentes. Acabei por sair desgostosa mas nos dois anos de internato geral acabei por escolher ficar na pediatria que foi a minha última rotação. Contactei com meninos que padeciam de doenças agudas e tive a sorte de conhecer pediatras mulheres que para além de serem excelentes profissionais tinham uma vida pessoal satisfatória. Que era o que desejava para mim. Terminei o curso com 23 anos. Sempre quis ser médica. Tirando a parte em que quis ser jornalista e educadora de infância (risos). Queria fazer algo positivo na vida. Considero que a medicina de adultos é difícil. A pediatria, para quem gosta, é uma coisa muito bonita. É muito gratificante conquistar a confiança das crianças. E só conquistamos os pais depois de as conquistarmos. Gosto de ajudar a resolver o problema de doença aguda, orientar as crianças para o especialista correcto e ajudar a diminuir o estado de ansiedade dos pais. Sou interna de pediatria. A especialidade dura cinco anos. Entrei em 2005 mas, como entretanto tive uma bebé, interrompi pelo que só termino dentro de um ano. Dou consultas no Hospital de Santarém e atendo em Almeirim e no Entroncamento. Em Almeirim recebo crianças desde que nascem mas no Entroncamento noto que me aparecem sobretudo meninos que padecem de doença aguda. É aborrecido quando nos surgem crianças com problemas que podiam ter sido resolvidos mais cedo. É uma questão cultural dos pais. A medicina acaba por ser uma forma de vida. Não se chega a casa e deixamos de ser médicos. E isso torna-se pesado. Mas trabalhar com crianças torna tudo muito mais agradável. É claro que há situações que nos preocupam e são complicadas de gerir. Em medicina lidamos com a vida e com a morte. Em pediatria, lidamos pouco com a morte mas quando lidamos é muito triste. Há episódios que nos ficam sempre na memória. As crianças têm medo da bata branca. Não uso, normalmente. E agora tenho um estetoscópio cor-de-rosa para substituir o que avariou. Um consultório de pediatria deve estar decorado com desenhos e também devemos ter brinquedos. É importante que sinta que é um espaço onde há alguma coisa para elas. Tenho um dia-a-dia muito ocupado. Levanto-me todos os dias às seis e meia da manhã e, nos dias bons, chego ao Entroncamento às seis da tarde. Também tenho os dias em que estou de banco no hospital e fico 24 horas sem ver a minha filha. Ao fim-de-semana é muito complicado conciliar profissão e família. Acho que ando um bocadinho a correr por gosto. A minha prioridade nos tempos livres é para estar com a Carolina. Não me sobra muito tempo livre e, à noite, quando a minha filha está a dormir ainda estudo em casa. Às vezes junto-me na casa de alguns amigos mas sempre com a minha filha atrás. O meu marido, que é médico dentista e conheci nos tempos da faculdade, dá-me um grande apoio. Sou muito perfeccionista. Mas não considero isto uma qualidade, porque leva-me a ser um bocadinho ansiosa. O que faço gosto de fazer bem feito. Sou muito expansiva quando estou entre amigos mas calada na presença de desconhecidos. Gosto muito de viajar, sobretudo pela Europa. Não há um lema que serve para todas as alturas. Nas alturas mais complicadas penso que aquilo que os outros conseguiram fazer eu também consigo e que o que não nos mata torna-nos mais fortes.
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