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“Falta o devido reconhecimento ao meu pai e esta homenagem do PCP peca por tardia”

“Falta o devido reconhecimento ao meu pai e esta homenagem do PCP peca por tardia”

Maria Clara Pato é filha de Carlos Pato, um preso político ribatejano que morreu na prisão

Frontal, a filha de Carlos Pato considera que a homenagem pública feita ao seu pai em Vila Franca de Xira, promovida pelo Partido Comunista – do qual é militante – peca por tardia. Diz que houve uma tentativa de apagamento do nome do seu pai e defende que a cidade ainda não prestou o devido reconhecimento à sua vida de luta contra o regime de Salazar. Maria Clara Pato diz que a Câmara de Vila Franca de Xira não cedeu uma sala do Museu do Neo-Realismo para a homenagem - sendo o pai um dos do movimento - propositadamente. E vai mais longe ao afirmar que a história de Carlos Pato não está perpetuada no museu por questões políticas.Jorge Afonso da Silva

Edição de 07.07.2010 | Entrevista
Ainda guarda a mágoa de nunca ter conhecido o seu pai?Tenho um grande desgosto por não ter conhecido o meu pai, muito pela imagem que sempre me transmitiram dele. Quando foi preso eu tinha três meses e nessa altura a minha mãe engravidou. Ao meu irmão, o meu pai nunca lhe viu a cor dos olhos. Na véspera da sua morte pediu para ver o filho que nunca tinha visto. Não conseguiu. Faleceu tinha eu 20 meses e o meu irmão, Carlos, sete meses. O que lhe contaram sobre ele?Muitas coisas. Mas quem lê o prefácio do Alves Redol (ver caixa), acho que fica a saber tudo. Aquele conceito de amizade e de ser solidário com toda a gente, que hoje infelizmente não se vê. A relação que os dois mantinham. A imagem que o meu pai tinha das outras pessoas e o que ele representava para elas. O meu pai sempre foi alguém que perante as dificuldades nunca deixou de lutar e enfrentar os desafios. Recorda alguma história que a tenha marcado particularmente?O meu tio Octávio estava na prisão no Forte de Peniche. Autorizaram a fazer-lhe uma visita em comum onde podíamos abraçar e beijar, coisa muito rara na altura. As outras eram feitas junto à rede. Tinha eu já 16 anos e morava em Lisboa. Meti-me no comboio em direcção a Vila Franca para ir com os meus avós visitá-lo. Perdi o primeiro comboio e atrasei-me. Quando cheguei, pedi dinheiro emprestado a uma das inquilinas da minha avó para apanhar um táxi. Sentei-me e disse ao taxista para me levar o mais rápido possível à porta da prisão. Ele ia sempre a olhar pelo retrovisor e perguntou-me: a menina é de cá, tem alguém da família presa? Respondi: tenho o meu tio Octávio Pato. Ele olha para mim e pergunta-me se não era filha do Carlos Pato. Disse que sim. Nessa altura parou o táxi para me abraçar. Era o ardina a quem o meu pai tinha ensinado a ler. O meu pai e esta história marcaram-me para o resto da minha vida.Em que aspectos?Pessoalmente e em termos de convicções. Sou militante do Partido Comunista. Mas se tiver que fazer algum reparo ou alguma crítica, faço. Ninguém é perfeito. Nem os partidos. Mas em termos de filosofia e princípios identifico-me com o PCP. Para mim continua a ser o partido da resistência e o mais consistente na vida política. E é também uma forma de seguir a luta por aqueles que ficaram pelo caminho.É também uma forma de homenagear a luta do seu pai?Se o meu pai fosse vivo, com certeza que gostaria de ver que ficou alguma coisa.E diria que a luta valeu a pena?Acho que sim. Isto está mau. Cá dentro e lá fora. Mas vale a pena lutar. Sempre. Não é ficar com os braços para baixo que as coisas se resolvem. Ele ficaria satisfeito. Como os outros que ainda não morreram, que acham que valeu a pena lutar pela liberdade e igualdade.A luta anti-fascista está ligada às famílias com menos posses. Como explica que o seu pai, sendo de uma família abastada, tenha querido abraçar esse desígnio?Um comunista não tem que ser miserável. E se há um princípio, que é o de lutar pela igualdade entre todos, esse desígnio é até mais nobre, vindo de quem mais tem, que continua a querer que os outros também tenham. O Alves Redol era também de uma família relativamente abastada. Na época houve muitos que abraçaram a luta. Hoje não sei se haverá tantos.Ao longo da vida sentiu alguma limitação por ser filha de quem é?Até mesmo por ser militante do PCP temos de pagar facturas. Mas não me vendo por qualquer preço. A nível da minha carreira no Banco de Portugal, se fosse de um partido do poder, tinha-me reformado numa posição muito melhor. Estive, inclusive, num colégio de freiras por castigo. Houve uma professora que me veio perguntar se era da família dos Patos de Vila Franca de Xira. Tinha 12 ou 13 anos e ainda não tinha a noção dos factos e respondi: sou filha do Carlos Pato que foi morto pela PIDE. Chumbou-me nessa disciplina. Foi a única. Mais tarde a minha mãe veio a saber que essa professora era mulher de um elemento da PIDE.“História do meu pai não está no Museu do Neo-Realismo por questões políticas”Que significado tem esta homenagem do Partido Comunista ao seu pai?Há muitos anos que falta uma homenagem ao meu pai. O Partido Comunista fez-lhe esta homenagem tardiamente. Mas ainda vou mais longe: o partido está a fazer isto agora porque segundo me explicaram têm vindo a homenagear pessoas que foram do partido, para que a memória não seja esquecia. Na minha opinião, só se lembraram desta homenagem depois de terem começado a ver na internet coisas acerca do meu pai, escritas por pessoas que vieram falar comigo.E a cidade de Vila Franca nunca lhe prestou homenagem?Só em Maio de 1975. Quando deram o seu nome a um largo. Quando falo do meu pai, refiro-me também a outros camaradas que ficaram pelo caminho. Se é para a memória não ser esquecida, tem que se saber mais sobre essas pessoas. Mas em termos oficiais, não foi dado o devido reconhecimento ao meu pai. Acha que foi sendo esquecido ao longo dos anos?Tentaram apagar a imagem do meu pai. Isso deveu-se a quê?Não sei. Ou se penso saber, não quero entrar por aí.Razões políticas?Não direi isso. Mas como disse, não quero ir por esse caminho.Mas gostava de um dia ter na terra que viu nascer o seu pai algo que o imortalizasse, como uma estátua ou o seu busto?É evidente.Acredita que essa homenagem vai acontecer um dia?Com a câmara actual não. Nem pensar. Nem quando a câmara foi da CDU se fez alguma coisa, quanto mais nestas circunstâncias. Não acredito.O seu pai também esteve ligado ao Movimento do Neo-Realismo…Alguém fez alguma coisa no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira com o nome do meu pai? Nada. E porquê? Aí sim, assumo que foi por questões políticas. Quem é que levanta o museu? É precisamente uma das pessoas que faz parte da associação. O filho do Alves Redol (António Redol) que se meteu na área do PS. O pai deve estar a dar muitas voltas na campa. E até vou dizer mais uma coisa de que tive conhecimento. O PCP pediu à câmara a cedência de um espaço no museu para se fazer esta homenagem. Mas a câmara disse que tinha outro evento. Ficou magoada com essa atitude?Magoada e indignada. Se o meu pai faz parte do Movimento Neo-Realista e se há um pedido para a homenagem ser feita no museu era lógico que se fizesse um esforço para a realizar. Acho que a autarquia inventou uma desculpa, que recusou propositadamente. Porque diz isso? Há documentos entregues pelo meu padrinho, António Guerra, sobre o meu pai, ao António Redol, precisamente para fazerem parte do espólio do museu. Mas ele nega tê-los recebido. Claro que agora é complicado provar, pois o meu padrinho já faleceu. Fui ao museu há cerca de um ano, falei com funcionários, andei à procura e não encontrei nada nem ninguém tinha conhecimento. Orgulho em ser ribatejana e militante comunistaMaria Clara Pato nasceu a 9 de Outubro de 1948 em Vila Franca de Xira. Tinha 20 meses quando o seu pai faleceu. O seu irmão João Carlos Pato tinha sete meses. Quando a sua mãe casou pela segunda vez, mudou-se para Lisboa. Mas a perseguição da PIDE (polícia política do regime salazarista) continuou. O padrasto trabalhava para a antiga Emissora Nacional. “De vez em quando apareciam lá em casa a altas horas da noite. Queriam ver livros, que nunca encontraram”, conta Maria Clara Pato. Da adolescência recorda as visitas ao Forte de Peniche para ver o seu tio Octávio Pato, que foi deputado e presidente do grupo parlamentar do PCP na Assembleia Constituinte, candidato à Presidência da República em 1976 e deputado à Assembleia da República. Outro tio, Abel, foi uma pessoa importante na vida da família, já que após a morte do seu pai, foi quem ajudou a criar os dois irmãos. Aos 20 anos casa e por causa do marido, que estava a cumprir serviço militar em Angola, vai viver para Luanda. Em 1975 pede ao padrinho António Guerra que fizesse a segunda edição do livro “Alguns Contos”, escritos pelo seu pai. Já que a primeira tinha sido proibida. Actualmente Maria Clara Pato está a preparar uma terceira edição, como mais uma forma de perpetuar a memória do seu pai. Aos 35 anos regressa a Portugal. Trabalhou como bancária no Banco de Portugal. Fez parte da comissão de trabalhadores e nos últimos tempos esteve na comissão do fundo social dos empregados do banco. Reformou-se há um ano.Pelo meio foi autarca em Cascais. Fez parte da assembleia municipal e mantém-se uma militante activa e atenta do Partido Comunista Português. Frontal e de conversa fácil, Maria Clara Pato considera-se ribatejana e tem orgulho em ser vilafranquense, apesar de não visitar com regularidade a sua terra natal.“Estátua” de 130 horas precipitou a morte de Carlos PatoCarlos Pato foi alvo de uma homenagem pública em Vila Franca de Xira, no sábado, 26 de Junho, dia em que passaram 60 anos após a sua morte. A iniciativa foi organizada pelo Partido Comunista Português e decorreu no Club Vilafranquense. Nascido em 1921 em Vila Franca de Xira, Carlos Pato faleceu a 26 de Junho de 1950 na prisão de Caxias, com apenas 29 anos. Anti-fascista e membro do PCP, Carlos Pato dedicou grande parte da sua luta à causa das massas trabalhadoras. Foi preso pela PIDE a 28 de Maio de 1949 pela sua actividade anti-fascista. Depois de 13 meses na cadeia, sem julgamento, é submetido a longas torturas, que culminaram com uma “estátua”. “Resistiu 130 horas em pé. Não se deitou. Não respondeu às perguntas. Inchou. Quando se sentiu mal os camaradas pediram assistência médica mas a PIDE não deu”, conta a filha Maria Clara Pato. Acabaria por morrer na prisão do Forte de Caxias, sem que lhe fosse prestado socorro médico.A PIDE quis enterrá-lo discretamente. A família não deixou. E o enterro fez-se para Vila Franca de Xira por entre uma terra inteira que chorava de dor e de revolta. Carlos Pato pertenceu desde muito novo ao Movimento Neo-Realista, tendo sido um destacado dirigente associativo e foi presidente do Ateneu Artístico Vilafranquense. Irmão de Octávio Pato, era empregado bancário e escreveu “Alguns Contos”. Um pequeno livro de três contos, editado pelos seus amigos, um ano após a sua morte. Alves Redol assina o prefácio da obra, em homenagem à vítima da PIDE, que a história tem silenciado.Prefácio escrito por Alves Redol em “Alguns Contos” de Carlos Pato“Quiseram os teus amigos mais íntimos que palavras minhas acompanhassem a publicação de alguns contos que escreveste. E nunca a nossa maravilhosa língua, a língua do povo que tanto amavas, e por quem deste tudo o que de mais precioso tinhas para legar, a mesma com que os teus filhos hão-de contar de ti aquilo que mereces, nunca a nossa maravilhosa língua se tornou tão incapaz para exprimir aquilo que era preciso dizer-se neste primeiro aniversário da tua morte. Vejo-te ainda... Vejo-te sempre! Compreensivo e digno, amoroso e forte, aberto às melhores promessas dos nossos dias, sensível à dor alheia, rebelde para as injustiças, e bom, sempre bom, com esse sorriso tão suave que era a imagem de ti próprio, que era o reflexo dum coração onde não cabia o ódio nem a cobardia... Vieste com a mesma simplicidade dos camponeses que idolatravas, dos camponeses que eram carne da tua carne, e de quem herdaste essa calma interior, e essa espantosa força interior, que faz de cada um deles um herói sem nome – e que faz de todos eles a grande certeza, onde se alicerçou a independência nacional, e donde surgirá a pátria livre que ambicionavas para todos nós. Nem esse maravilhoso heroísmo te faltou – o dos sacrifícios anónimos e dos sonhos guardados mas nunca esquecidos, que tu, mais do que eles ainda, quiseste tornar vida.Vejo-te ainda... E sempre! Como um desses homens que traz o futuro no coração, e para quem o futuro não é essa coisa mesquinha do egoísmo individual – do meu ou mesmo do nosso – mas essa seara sublime de espigas sem dono que o mundo todo guardará para si... Como um desses homens que não mede a vida da humanidade pela sua vida, e que se lhe exigem a sua, para que a outra seja mais digna de ser vivida, a oferece sem hesitações, alheio a recompensas... Como um desses homens a quem o cientista deve o seu laboratório, o artista a sua obra, o escritor os seus livros, as mães o direito de criarem os filhos nos seus braços e de os entregarem, só depois, puros, belos e dinâmicos para as tarefas da paz...(…) Porque só quem viu uma população inteira a pedir, para si, o teu corpo, a caminhar, em silêncio, de braços agarrados numa muralha de dor, que também era esperança, entre lágrimas espontâneas, como se todos, até mesmo as crianças, fossem acompanhar um filho, poderá entender o que tu eras para todos nós... Só quem viu mulheres e meninos do povo levarem-te raminhos de flores silvestres, numa homenagem que nunca conheci igual, e os teus amigos, e os teus companheiros de trabalho, e uma população inteira, todos sofrendo essa separação, numa angústia que estava mais no nosso sangue do que nos rostos torturados por esses golpe, é que saberá compreender e testemunhar que chorámos um Homem. Um Homem de que nos cumpre honrar o exemplo de dignidade e a lição de coerência. Daí o sentir frustradas as palavras que te dedico, porque elas são incapazes de exprimir o que tu mereces e o que te devo. Devo-te muito do que há-de ser o futuro do meu filho; devemos-te todos, mesmo os que te quiseram mal, alguma coisa da felicidade que virá para os filhos de cada um... E por isso te chorámos, e por isso te lembraremos sempre, mais ainda nas horas de alegria do que nos momentos de amargura”.
“Falta o devido reconhecimento ao meu pai e esta homenagem do PCP peca por tardia”

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